Livrarias, assunto em Março.
Francisco Belard escreve na sua crónica da Ler deste mês:
«não tenho a obsessão das livrarias».
Se, em vez da negação, viesse uma afirmação, de modo nenhum infirmaria a minha interpretação de quanto mais nesta crónica nos diz.
E vou mais longe: estaria mais à vontade para dizer que suspeito de que tenho eu «a obsessão das livrarias».
Talvez por trauma em tenra idade: nem uma livraria nos Açores, na minha juventude, e eu louco por livros.
Sorte tive eu, que, livros, encontrei muitos e ao meu dispor! Livrarias? Já disse, nem uma! Livros à venda? Só nas boas papelarias e, pelo menos em dois casos que frequentei, em lojas que vendiam coisas tão interessantes como bolas de borracha ou louças decorativas. Ah! também numa tabacaria e em algumas redacções de jornais.
É! É isso! No passado este país estava cheio de livrarias, apesar de mesmo em Lisboa escassearem à vista desarmada ao sair da Baixa. Quantas contei, em 1970, nas zonas de novas habitações? Lisboa crescera, o comércio livreiro não acompanhara.
Deve ter sido isso: um trauma. Também talvez por isso mesmo ou pelo contrário, não sei, não vejo grande mal em que desapareçam livrarias, desde que, onde há quem precise delas, vão nascendo outras.
O que verdadeiramente me incomoda e às vezes até assusta é que essas livrarias que fecham e as novas que abrem façam tão pouca falta às pessoas a quem tanta falta fazem. Se ao menos por outros modos ou meios chegassem aos livros que precisavam de ler e não se encontram aonde qualquer um vai…
Se ao menos… Mas não, não sentem falta. Pessoas tão conhecedoras de tudo e tão respeitadas pelos seus saberes, poderes e cultura!… Algumas até escrevem tanto e tão bem, que se vê à légua que deviam ler e ter lido um bocadinho mais.
Lê-se a crónica de Francisco Belard. Escreve-a sem que seja por «obsessão das livrarias», mas por ser um daqueles leitores que fazem renascer a esperança dos livreiros ao dizerem de si para si: «felizmente continua viva esta raça de leitores autênticos».
«Livrarias, assunto em Março», porque também….
Mesmo que não fosse por obsessão, teria de voltar. Volto, volto!
L. V.
Domingo, 11 de Março de 2012
«A OBSESSÃO DAS LIVRARIAS»
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