sábado, 28 de abril de 2012

A. Cunha de Oliveira, «original poeta»

A poucas horas da nossa sessão com A. Cunha de Oliveira, que nos vem apresentar a sua obra mais recente, Jesus de Nazaré e as mulheres – A propósito de Maria Madalena, uma edição do IAC-Instituto Açoriano de Cultura, releio o seu primeiro livro, A Cidade e a Sombra. Que extraordinário conjunto de poemas! Publicado com Silva Grelo como autor. Um pseudónimo de alguém cuja poesia marcou profundamente os jovens que éramos na altura.
Vou aqui transcrever, amigos, um desses poemas, enquanto vos espero para a sessão deste domingo, às 16,30h., aqui na Culsete.
Tínhamos escrito de A. Cunha de Oliveira que era «original poeta». Justificadamente.

ÚLTIMA CANÇÃO

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

Não há perigo. E o mar já não é mar,
   mas uma praia de gente que me espera.

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

O céu festeja esta chegada
como chorou minha partida.
É dia.
Há muita gente na praia
que me escuta e não me ouve.

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

Dorme a cidade também.
E o mar, beijei-o nos olhos
que a noite havia cerrado.

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

Não há perigo. E o mar já não é mar.
E se eu velo, timoneiro, porque não dormes?

Sicília, Agosto de 1950

(Silva Grelo,
A Cidade e a Sombra,
pág. 38,
Cadernos do Pensamento – 2,
Angra do Heroísmo,
Maio de 1954.)


L. V.

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