terça-feira, 10 de abril de 2012

Hoje na Casa Fernando Pessoa com HELDER MOURA PEREIRA


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“Se as coisas não fossem o que são”, não estaria agora a lembrar  que o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011, atribuído a Helder Moura Pereira, vai ser entregue hoje ao poeta, às 18:30, na Casa Fernando Pessoa. Se puderem, apareçam. Entretanto, deixo-vos com dois poemas de Se as coisas não fossem o que são, o primeiro e o último. Entre ambos há muita da melhor poesia portuguesa dos últimos tempos. Procurem-na. Leiam-na. O livro está disponível, basta visitar uma (boa) livraria independente.
F.R.M.
[Fiz figura de corpo presente, que era]
Fiz figura de corpo presente, que era
a única figura que eu sabia fazer.
O corpo estava presente, a alma não,
a alma tinha ido dar uma volta, a alma
tinha morrido. Não podia portanto
tê-la comigo de cada vez que era
preciso ficar, também não era preciso
falar, era só preciso ficar, por isso
não fazia mal. Sem alma o corpo
criava o tom de uma cor desaparecida.
Coisa visivelmente de outro tempo,
simbolista, renascentista, ou outra coisa
qualquer, tudo servia para me atirares
à cara que eu já não era deste tempo.
Embora por soalho e tecto sons de hoje
Levantem tábuas no telhado, estalem
tectos. Esses sons, que são de ferro
e água, batem no sangue com descarada
arritmia, até que as pálpebras se fecham
e eu me lembro outra vez que sou
corpo. Sem alma. Mas abdicou a alma
de mim, abdiquei eu dela? Calma,
assim não vamos a lado nenhum.

A alma é sem dúvida um tema
muito interessante, mas eu não consigo
dar-me a quem não vê a guerra total
e persistente, o vazio controlado
pela ignorância, os crimes impunes,
a sombra cinzenta no futuro da humanidade,
a hipótese do grande estoiro final.
E insistes em falar-me da alma.
E de ajustes de contas, e do silêncio
quando as portas se fecham e ali
ficas, de mãos cruzadas sobre o peito
e com a merda de um sorriso arrogante
ainda a bailar nos lábios roxos.

[Do frio e da indiferença para o jogo]
Do frio e da indiferença para o jogo
ao rubro, de uma noite para a outra
o grito de Ipiranga, a minha revolução
de Outubro. Vi estrelas quando a cabeça
embateu com estrondo na trave
da realidade, mas não fiquei com cara
de poucos amigos, até gostei, parecia
que tinha fumado uma erva boa.
Parecia mesmo, porque uma longínqua
origem rompia em gritos e a minha cara
era de parvo num espelho retorcido.
É tudo a desabar, tudo a ficar assim
estragado e pobre, a realidade também
podia ser isto, um deserto, uma linha
recta, mas esta era especial, puseste
por onde eu ia a passar uma trave invisível
e mesmo que eu escapasse dessa
logo depois não escaparia à cova
no chão, disfarçada com ramos, e terra,
e folhas espalhadas. Acendeste a luz
para me veres a cara e viste
um lugar obscuro e todo vazio.

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