I
DOIS TEXTOS
PREVIAMENTE
DISTRIBUÍDOS
PELO CONFERENCISTA
AOS PARTICIPANTES
TEXTO 1
Livros que tomam partido:
A edição de caráter político em Portugal no período 1968-1982
Expositor: Flamarion Maués, doutorando em História na Universidade de São Paulo e investigador do
Instituto de História Contemporânea/UNL. Bolsista da Capes/Brasil Email: flamaues@gmail.com. Pesquisa realizada
com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal.
Comentador: Nuno Medeiros (CesNova, especialista em sociologia e história do livro e da edição)
Dia 21 de Abril de 2012 (sábado) – 16 horas.
Livraria Culsete, Avenida 22 de Dezembro, 23 A/B, em Setúbal
Viemos com o peso do passado e da semente/ Esperar tantos anos torna tudo mais urgente
e a sede de uma espera só se estanca na torrente (“Liberdade”, de Sérgio Godinho)
Objetivos propostos na pesquisa:
1) Identificar as editoras que publicaram livros de caráter
político em Portugal no período 1968-1982 e examinar as
vinculações políticas que tinham;
2) Realizar o recenseamento das obras de caráter político
publicadas neste período, buscando verificar a quantidade
de títulos lançados, sua abrangência, seus autores e os
temas abordados;
3) Identificar as pessoas e organizações responsáveis por
essas editoras e publicações, e entrevistar algumas delas.
Síntese:
- 145 editoras publicaram livros de caráter político em
Portugal no período 1968-1982.
- Cerca de 4.600 títulos de caráter político publicados no
período.
- Editoras de variados tipos, desde aquelas claramente
políticas e militantes, passando pelas de caráter
acadêmico, cultural e literário, até as editoras comerciais,
que por razões circunstanciais editaram então algumas
obras políticas
Ressalva importante
Estas 145 editoras não abrangem, de forma alguma, o
quadro completo das editoras atuantes em Portugal no
período 1968-1982. Trata-se tão-somente do quadro das
editoras que realizaram edições de livros de caráter
político naquele período. Isso significa que há todo um
outro universo de editoras, também atuantes no período,
que não fazem parte desse quadro, por não terem este
perfil político. Assim, os dados e as análises que
apresento são sempre restritos ao universo das 145
editoras que compõe o que podemos chamar de “edição
política” em Portugal entre 1968 e 1982, e não ao setor
editorial português como um todo.
Os livros de caráter político antes do 25 de Abril
Boa parte da literatura marxista e socialista foi publicada
em Portugal ainda durante o governo de Marcelo
Caetano, e, com maiores ou menores dificuldades e
perseguições, estava disponível ao público de estudantes,
militantes e simpatizantes que tinha um interesse mais
imediato por tais obras – e que conhecia os caminhos
para ter acesso a elas.
Os livros no pós-25 de Abril
Com o fim da ditadura a situação referente à edição de
livros de caráter político modificou-se significativamente,
pois passou a ser possível publicar tudo sem restrições
legais, sem perseguição policial e, principalmente, houve
um grande aumento do interesse por este tipo de livro.
Cresceu como nunca o número de editoras e de livros
publicados, dos quais parte significativa era de cunho
político e com perfil de esquerda.
Um ponto importante é diferenciar 1) as editoras que
publicaram obras de caráter político (que formam a lista
de 145 editoras) e 2) as editoras de caráter político, que
formam um subgrupo composto por 98 editoras. No
primeiro grupo estão todas as editoras que publicaram
pelo menos três títulos de caráter político no período
1968-1982, incluindo editoras comerciais, ecléticas,
religiosas e acadêmicas. No segundo grupo, mais restrito,
estão apenas as editoras cujas publicações são
predominantemente políticas e cuja linha editorial reflete,
de modo consistente, uma certa posição política
(esquerda, direita, liberal, anarquista etc.).
Classificação dos livros de caráter político:
livros de contestação política, com críticas a Salazar ou
ao Estado Novo; livros de, ou sobre, presos políticos;
obras questionando a política colonial, questões
econômicas e agrárias; livros que abordavam sob uma
perspectiva crítica a visão oficial da história; obras,
estrangeiras ou nacionais, de ideologia socialista
(“comunizantes” ou “subversivas”, segundo a censura do
regime salazarista); livros que tratassem da pobreza, das
condições de vida e das desigualdades sociais em
Portugal.
Depois de abril de 1974, também: obras que descrevem
a repressão durante o salazarismo; livros sobre os países
socialistas; textos de organizações de esquerda;
documentos dos movimentos de libertação africanos;
títulos que haviam sido proibidos; obras de divulgação
das doutrinas socialista e comunista. Há também, de
forma minoritária, toda uma linha de livros de direita,
anticomunistas e contra a independência dos países
africanos.
TEXTO 2
Conclusões preliminares
- Um dos aspectos mais importantes dessa ampla
difusão de livros, independentemente de seu viés
político e de sua qualidade intelectual, é que a
história e a realidade mais recentes de Portugal
começaram a vir a público e a ser conhecidas
por amplas camadas da sociedade, de uma
maneira totalmente diferente do que ocorria até
1974. E isso certamente foi importante para
ajudar a transformar o país.
- As editoras de caráter político – e as obras por
elas editadas – constituíram-se em destacado
sujeito do processo político português, seja nos
anos que antecederam ao 25 de Abril, seja no
processo desencadeado a partir daquele
momento.
- Os livros políticos tiveram grande aceitação no
período 1968-1982, principalmente em 1974-
1975. A lista de livros mais vendidos publicada
em 1974 e 1975 pelo semanário Expresso
mostra sempre os livros de caráter político
dominando as vendas. Esse é um dos
indicadores da repercussão, da circulação e da
possível influência social que estas publicações
tiveram naquele período.
Parece claro que estas editoras desempenharam
um papel político-ideológico e social de alguma
relevância a partir de 1968 e, principalmente,
desde Abril de 1974. Forneceram subsídios aos
debates, trouxeram idéias novas e reavivaram
outras, refletiram o pensamento e as propostas
de cada um dos agrupamentos políticos
existentes, proporcionando canais de expressão a
esses agrupamentos, oxigenaram a sociedade
que até então tinha o acesso limitado ao
pensamento inovador, contestador ou
simplesmente reformista, enfim, colaboraram
para tornar Portugal um país mais aberto, livre e
moderno.
Indicadores da editoras que publicaram
livros políticos em Portugal/1968-1982
Lisboa e Porto concentravam a produção
- A grande maioria das editoras se concentrava
nas duas maiores cidades do país. Lisboa
sozinha reunia mais de dois terços das editoras
(99 editoras ou 68,3%), e no Porto estavam
15,2% delas (22 editoras). Outras três editoras
que tinham a sua sede dividida entre as duas
cidades (2,1%). Somadas, as duas cidades
sediavam 85,6% destas editoras.
A maioria das editoras surgiu a partir de 1974
- Mais de metade (76 editoras ou 52,4%) das
editoras do nosso levantamento surgiu a partir
de 1974, ou seja, sua história está diretamente
relacionada com o fim do regime fascista em
Portugal.
- Apenas nos anos de 1974 e 1975 nasceram
40% destas editoras (58). Nesse período a
agitação e a participação políticas atingiram
níveis nunca antes vistos no país.
Mais de 2/3 das editoras tinham perfil político
- 98 editoras (68%) podem ser caracterizadas
como políticas, ou seja, suas publicações
seguem certa posição política (esquerda, direita,
anarquista etc.).
- 29 editoras (20%) se encaixam em um perfil
mais comercial. Publicavam livros políticos,
mas o que definia a sua linha editorial era o
aspecto comercial.
- As restantes 18 editoras (12%) estão
classificadas em outras categorias: eclética,
religiosa ou acadêmica.
50% das editoras eram ligadas à esquerda
- 50,3% das editoras analisadas eram ligadas ou
simpáticas às ideias de esquerda. Isso sem
dúvida reflete o clima político dos anos 1974-
1975, quando os grupos de esquerda passaram a
ter um protagonismo político inédito em
Portugal. Somente nestes dois anos foram
criadas 38 editoras ligadas à esquerda.
- As editoras de direita representavam apenas
9% (13 editoras), das quais apenas duas
surgiram nos anos 1974-75. A maioria (8
editoras) surgiu após 1976.
60% das editoras eram de pequeno porte
- 91 editoras (62,8%) publicaram até 20 títulos
durante a sua existência, sendo que 51 editoras
(35,2%) publicaram dez títulos ou menos.
- Entre as pequenas e micro editoras, 39 eram de
esquerda, quase sempre ligadas a pequenos
grupos de extrema esquerda. Mas a maior parte
das editoras de direita também pertence a este
subgrupo: 10 das 13 editoras de direita.
- 45 editoras (31%) editoras de porte médio
(publicaram entre 21 e 100 títulos políticos no
período). Destas, 30 editoras (20,7%)
publicaram 50 títulos ou menos, e 15 (10,3%)
publicaram entre 51 e 100 títulos.
- 9 editoras publicaram mais de 100 títulos:
Avante!, Afrontamento, Bertrand, Centelha,
Dom Quixote, Estampa, Iniciativas Editoriais,
Prelo e Seara Nova.
- Estas 9 editoras foram responsáveis por mais
de 1/3 dos títulos políticos editados no período:
cerca de 1650 títulos, que representaram por
volta de 36% do total.
- 4 destas editoras estavam sob marcante
influência do Partido Comunista Português
(PCP): Avante!, Estampa, Prelo e Seara Nova
(desde 1974). Outras duas (Afrontamento e
Centelha) ligavam-se à esquerda não vinculada
ao PCP. As editoras Dom Quixote e Iniciativas
Editorias ligavam-se a setores da oposição, mas
não necessariamente à esquerda. E a Bertrand
era (e é) uma editora de cunho marcadamente
comercial e eclético.
II
UM EXCELENTE GRUPO
Quem perdeu a anunciada conferência de Flamarion Maués «Livros que tomam partido – a edição política em Potugal no período 1968-1982», ontem proferida na Culsete, ainda que o não sinta, perdeu muito.
Antes numa livraria em Lisboa e agora numa livraria em Setúbal, Flamarion Maués a dar conta de uma cuidada e exaustiva investigação, acompanhado por Nuno Medeiros, um comentador com provas dadas no campo da investigação da edição portuguesa.
Perderia pouco se houvesse mais uma oportunidade, mas, ao que se sabe, não vai haver. É pena que principalmente os jovens, mas também os menos jovens estudiosos do mundo dos livros e em geral das situações sociais não tenham aparecido em massa a participar nestas sessões com Flamarion Maués. Talvez porque se até agora andaram distraídos do tema, não iriam sentir-se bem ao vê-lo tratado com tanto saber por um estrangeiro. Há coisas que admitem várias explicações…
Brilhantes, brilhantes!... Brilhante o conferencista. Brilhante o comentador.
Um excelente grupo de participantes ouviu na tarde deste sábado aqui na Livraria Culsete uma conferência, ao que se afirmou e se sabe, feita pelo primeiro e por agora único especialista sobre o tema. Um tema tão interessante e tão importante, como bem sabem todos aqueles que se lembram do que viveram.
Flamarion Maués vai agora regressar a S. Paulo para lá concluir este seu vastíssimo e tão valioso trabalho de investigação e apresentá-lo em tese de doutoramento. Gratíssimos, desejamos-lhe o merecido reconhecimento. E que, um dia, quem perdeu esta conferência venha a ler essa tese, publicada cá ou no Brasil.
L. V.

Caso para dizer: Mas por que raio fui eu deixar Setúbal? Não teria perdido mais essa.
ResponderEliminarParabéns por mais uma bela iniciativa a juntar a tantas outras.
Criaram aí agora o Instituto Manuel Medeiros mas, pelos vistos, ele já existia na prática há décadas, se bem que com outro nome: CULSETE - C(urso) U(niversitário) de L(eituras) S(em) E(xames) nem T(estes) E(xtra).
Abraço.
onésimo
Tive a sorte de assistir ontem à conferência e ao respectivo comentário, que na minha opinião foram notáveis. Bem achada e a propósito a interpretação pelo Onésimo do nome CULSETE. Plenamente de acordo. Parabéns.
ResponderEliminarArtur Goulart
Depois de escrever essa graçola lembrei-me que teria ficado melhor nesse acrónimo o E final significar E(scolares):
ResponderEliminarCULSETE - C(urso) U(niversitário) de L(eituras) S(em) E(xames) e T(estes) E(scolares)
Onésimo e Artur, dois amigos que vão passeando aqui nesta vereda por onde, de chapéu e bengala, vou percorrendo ainda uns milímetros de escrita...
EliminarObrigado pela companhia, tão cara nesta fase da viagem.
Queres saber, Onésimo? Uma bela gargalhada ali do escritório em frente foi o sinal de que a dita graçola não agradou apenas ao Artur. E quanto a ele, como sabes, ao longo dos anos, sempre que pode, não falha nestas ocasiões. Bem como nossos outros amigos.Falham agora alguns que nunca falhavam... Lembrá-los ao responder aos vossos comentários em Dia Mundial do Livro.
ABR.
MM