domingo, 22 de abril de 2012

«LIVROS QUE TOMAM PARTIDO»: Quem perdeu… ainda que…

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I

DOIS TEXTOS

PREVIAMENTE

DISTRIBUÍDOS

PELO CONFERENCISTA

AOS PARTICIPANTES

TEXTO 1

Livros que tomam partido:

A edição de caráter político em Portugal no período 1968-1982

Expositor: Flamarion Maués, doutorando em História na Universidade de São Paulo e investigador do

Instituto de História Contemporânea/UNL. Bolsista da Capes/Brasil Email: flamaues@gmail.com. Pesquisa realizada

com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal.

Comentador: Nuno Medeiros (CesNova, especialista em sociologia e história do livro e da edição)

Dia 21 de Abril de 2012 (sábado) – 16 horas.

Livraria Culsete, Avenida 22 de Dezembro, 23 A/B, em Setúbal

Viemos com o peso do passado e da semente/ Esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente (“Liberdade”, de Sérgio Godinho)

 

Objetivos propostos na pesquisa:

1) Identificar as editoras que publicaram livros de caráter

político em Portugal no período 1968-1982 e examinar as

vinculações políticas que tinham;

2) Realizar o recenseamento das obras de caráter político

publicadas neste período, buscando verificar a quantidade

de títulos lançados, sua abrangência, seus autores e os

temas abordados;

3) Identificar as pessoas e organizações responsáveis por

essas editoras e publicações, e entrevistar algumas delas.

Síntese:

- 145 editoras publicaram livros de caráter político em

Portugal no período 1968-1982.

- Cerca de 4.600 títulos de caráter político publicados no

período.

- Editoras de variados tipos, desde aquelas claramente

políticas e militantes, passando pelas de caráter

acadêmico, cultural e literário, até as editoras comerciais,

que por razões circunstanciais editaram então algumas

obras políticas

Ressalva importante

Estas 145 editoras não abrangem, de forma alguma, o

quadro completo das editoras atuantes em Portugal no

período 1968-1982. Trata-se tão-somente do quadro das

editoras que realizaram edições de livros de caráter

político naquele período. Isso significa que há todo um

outro universo de editoras, também atuantes no período,

que não fazem parte desse quadro, por não terem este

perfil político. Assim, os dados e as análises que

apresento são sempre restritos ao universo das 145

editoras que compõe o que podemos chamar de “edição

política” em Portugal entre 1968 e 1982, e não ao setor

editorial português como um todo.

Os livros de caráter político antes do 25 de Abril

Boa parte da literatura marxista e socialista foi publicada

em Portugal ainda durante o governo de Marcelo

Caetano, e, com maiores ou menores dificuldades e

perseguições, estava disponível ao público de estudantes,

militantes e simpatizantes que tinha um interesse mais

imediato por tais obras – e que conhecia os caminhos

para ter acesso a elas.

Os livros no pós-25 de Abril

Com o fim da ditadura a situação referente à edição de

livros de caráter político modificou-se significativamente,

pois passou a ser possível publicar tudo sem restrições

legais, sem perseguição policial e, principalmente, houve

um grande aumento do interesse por este tipo de livro.

Cresceu como nunca o número de editoras e de livros

publicados, dos quais parte significativa era de cunho

político e com perfil de esquerda.

Um ponto importante é diferenciar 1) as editoras que

publicaram obras de caráter político (que formam a lista

de 145 editoras) e 2) as editoras de caráter político, que

formam um subgrupo composto por 98 editoras. No

primeiro grupo estão todas as editoras que publicaram

pelo menos três títulos de caráter político no período

1968-1982, incluindo editoras comerciais, ecléticas,

religiosas e acadêmicas. No segundo grupo, mais restrito,

estão apenas as editoras cujas publicações são

predominantemente políticas e cuja linha editorial reflete,

de modo consistente, uma certa posição política

(esquerda, direita, liberal, anarquista etc.).

Classificação dos livros de caráter político:

livros de contestação política, com críticas a Salazar ou

ao Estado Novo; livros de, ou sobre, presos políticos;

obras questionando a política colonial, questões

econômicas e agrárias; livros que abordavam sob uma

perspectiva crítica a visão oficial da história; obras,

estrangeiras ou nacionais, de ideologia socialista

(“comunizantes” ou “subversivas”, segundo a censura do

regime salazarista); livros que tratassem da pobreza, das

condições de vida e das desigualdades sociais em

Portugal.

Depois de abril de 1974, também: obras que descrevem

a repressão durante o salazarismo; livros sobre os países

socialistas; textos de organizações de esquerda;

documentos dos movimentos de libertação africanos;

títulos que haviam sido proibidos; obras de divulgação

das doutrinas socialista e comunista. Há também, de

forma minoritária, toda uma linha de livros de direita,

anticomunistas e contra a independência dos países

africanos.

 

TEXTO 2

Conclusões preliminares

- Um dos aspectos mais importantes dessa ampla

difusão de livros, independentemente de seu viés

político e de sua qualidade intelectual, é que a

história e a realidade mais recentes de Portugal

começaram a vir a público e a ser conhecidas

por amplas camadas da sociedade, de uma

maneira totalmente diferente do que ocorria até

1974. E isso certamente foi importante para

ajudar a transformar o país.

- As editoras de caráter político – e as obras por

elas editadas – constituíram-se em destacado

sujeito do processo político português, seja nos

anos que antecederam ao 25 de Abril, seja no

processo desencadeado a partir daquele

momento.

- Os livros políticos tiveram grande aceitação no

período 1968-1982, principalmente em 1974-

1975. A lista de livros mais vendidos publicada

em 1974 e 1975 pelo semanário Expresso

mostra sempre os livros de caráter político

dominando as vendas. Esse é um dos

indicadores da repercussão, da circulação e da

possível influência social que estas publicações

tiveram naquele período.

Parece claro que estas editoras desempenharam

um papel político-ideológico e social de alguma

relevância a partir de 1968 e, principalmente,

desde Abril de 1974. Forneceram subsídios aos

debates, trouxeram idéias novas e reavivaram

outras, refletiram o pensamento e as propostas

de cada um dos agrupamentos políticos

existentes, proporcionando canais de expressão a

esses agrupamentos, oxigenaram a sociedade

que até então tinha o acesso limitado ao

pensamento inovador, contestador ou

simplesmente reformista, enfim, colaboraram

para tornar Portugal um país mais aberto, livre e

moderno.

Indicadores da editoras que publicaram

livros políticos em Portugal/1968-1982

Lisboa e Porto concentravam a produção

- A grande maioria das editoras se concentrava

nas duas maiores cidades do país. Lisboa

sozinha reunia mais de dois terços das editoras

(99 editoras ou 68,3%), e no Porto estavam

15,2% delas (22 editoras). Outras três editoras

que tinham a sua sede dividida entre as duas

cidades (2,1%). Somadas, as duas cidades

sediavam 85,6% destas editoras.

A maioria das editoras surgiu a partir de 1974

- Mais de metade (76 editoras ou 52,4%) das

editoras do nosso levantamento surgiu a partir

de 1974, ou seja, sua história está diretamente

relacionada com o fim do regime fascista em

Portugal.

- Apenas nos anos de 1974 e 1975 nasceram

40% destas editoras (58). Nesse período a

agitação e a participação políticas atingiram

níveis nunca antes vistos no país.

Mais de 2/3 das editoras tinham perfil político

- 98 editoras (68%) podem ser caracterizadas

como políticas, ou seja, suas publicações

seguem certa posição política (esquerda, direita,

anarquista etc.).

- 29 editoras (20%) se encaixam em um perfil

mais comercial. Publicavam livros políticos,

mas o que definia a sua linha editorial era o

aspecto comercial.

- As restantes 18 editoras (12%) estão

classificadas em outras categorias: eclética,

religiosa ou acadêmica.

50% das editoras eram ligadas à esquerda

- 50,3% das editoras analisadas eram ligadas ou

simpáticas às ideias de esquerda. Isso sem

dúvida reflete o clima político dos anos 1974-

1975, quando os grupos de esquerda passaram a

ter um protagonismo político inédito em

Portugal. Somente nestes dois anos foram

criadas 38 editoras ligadas à esquerda.

- As editoras de direita representavam apenas

9% (13 editoras), das quais apenas duas

surgiram nos anos 1974-75. A maioria (8

editoras) surgiu após 1976.

60% das editoras eram de pequeno porte

- 91 editoras (62,8%) publicaram até 20 títulos

durante a sua existência, sendo que 51 editoras

(35,2%) publicaram dez títulos ou menos.

- Entre as pequenas e micro editoras, 39 eram de

esquerda, quase sempre ligadas a pequenos

grupos de extrema esquerda. Mas a maior parte

das editoras de direita também pertence a este

subgrupo: 10 das 13 editoras de direita.

- 45 editoras (31%) editoras de porte médio

(publicaram entre 21 e 100 títulos políticos no

período). Destas, 30 editoras (20,7%)

publicaram 50 títulos ou menos, e 15 (10,3%)

publicaram entre 51 e 100 títulos.

- 9 editoras publicaram mais de 100 títulos:

Avante!, Afrontamento, Bertrand, Centelha,

Dom Quixote, Estampa, Iniciativas Editoriais,

Prelo e Seara Nova.

- Estas 9 editoras foram responsáveis por mais

de 1/3 dos títulos políticos editados no período:

cerca de 1650 títulos, que representaram por

volta de 36% do total.

- 4 destas editoras estavam sob marcante

influência do Partido Comunista Português

(PCP): Avante!, Estampa, Prelo e Seara Nova

(desde 1974). Outras duas (Afrontamento e

Centelha) ligavam-se à esquerda não vinculada

ao PCP. As editoras Dom Quixote e Iniciativas

Editorias ligavam-se a setores da oposição, mas

não necessariamente à esquerda. E a Bertrand

era (e é) uma editora de cunho marcadamente

comercial e eclético.

II

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UM EXCELENTE GRUPO

Quem perdeu a anunciada conferência de Flamarion Maués «Livros que tomam partido – a edição política em Potugal no período 1968-1982», ontem proferida na Culsete, ainda que o não sinta, perdeu muito.

Antes numa livraria em Lisboa e agora numa livraria em Setúbal, Flamarion Maués a dar conta de uma cuidada e exaustiva investigação, acompanhado por Nuno Medeiros, um comentador com provas dadas no campo da investigação da edição portuguesa.

Perderia pouco se houvesse mais uma oportunidade, mas, ao que se sabe, não vai haver. É pena que principalmente os jovens, mas também os menos jovens estudiosos do mundo dos livros e em geral das situações sociais não tenham aparecido em massa a participar nestas sessões com Flamarion Maués. Talvez porque se até agora andaram distraídos do tema, não iriam sentir-se bem ao vê-lo tratado com tanto saber por um estrangeiro. Há coisas que admitem várias explicações…

Brilhantes, brilhantes!... Brilhante o conferencista. Brilhante o comentador.

Um excelente grupo de participantes ouviu na tarde deste sábado aqui na Livraria Culsete uma conferência, ao que se afirmou e se sabe, feita pelo primeiro e por agora único especialista sobre o tema. Um tema tão interessante e tão importante, como bem sabem todos aqueles que se lembram do que viveram.

Flamarion Maués vai agora regressar a S. Paulo para lá concluir este seu vastíssimo e tão valioso trabalho de investigação e apresentá-lo em tese de doutoramento. Gratíssimos, desejamos-lhe o merecido reconhecimento. E que, um dia, quem perdeu esta conferência venha a ler essa tese, publicada cá ou no Brasil.
L. V.

4 comentários:

  1. Caso para dizer: Mas por que raio fui eu deixar Setúbal? Não teria perdido mais essa.
    Parabéns por mais uma bela iniciativa a juntar a tantas outras.
    Criaram aí agora o Instituto Manuel Medeiros mas, pelos vistos, ele já existia na prática há décadas, se bem que com outro nome: CULSETE - C(urso) U(niversitário) de L(eituras) S(em) E(xames) nem T(estes) E(xtra).

    Abraço.

    onésimo

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  2. Tive a sorte de assistir ontem à conferência e ao respectivo comentário, que na minha opinião foram notáveis. Bem achada e a propósito a interpretação pelo Onésimo do nome CULSETE. Plenamente de acordo. Parabéns.
    Artur Goulart

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  3. Depois de escrever essa graçola lembrei-me que teria ficado melhor nesse acrónimo o E final significar E(scolares):

    CULSETE - C(urso) U(niversitário) de L(eituras) S(em) E(xames) e T(estes) E(scolares)

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    1. Onésimo e Artur, dois amigos que vão passeando aqui nesta vereda por onde, de chapéu e bengala, vou percorrendo ainda uns milímetros de escrita...
      Obrigado pela companhia, tão cara nesta fase da viagem.
      Queres saber, Onésimo? Uma bela gargalhada ali do escritório em frente foi o sinal de que a dita graçola não agradou apenas ao Artur. E quanto a ele, como sabes, ao longo dos anos, sempre que pode, não falha nestas ocasiões. Bem como nossos outros amigos.Falham agora alguns que nunca falhavam... Lembrá-los ao responder aos vossos comentários em Dia Mundial do Livro.
      ABR.
      MM

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