segunda-feira, 16 de Abril de 2012

UM DOCE QUE SE QUER REPRESENTATIVO DE SETÚBAL OU A FALTA DE MEMÓRIA HISTÓRICA DOS SETUBALENSES

Gosto muito de passar pela Casa da Baía, ali na Avenida Luísa Todi. Tem sido um dos meus locais de eleição neste último ano. Vejo as exposições, já tenho participado em espetáculos musicais, tomo um café ou outro e, sempre que a gulodice atacou provei os Santiagos, saborosos pastéis de moscatel.

Há dias, um domingo cinzento a pedir o aconchego de interiores, depois de ter ido ao encontro da pintura de Augusto Gomes Martins e das fotos de embarcações tradicionais de Manuel Justo Gardete, decidi tomar um café no interior. Foi ao sentar-me que dei com os olhos numas caixas de cartão que à primeira, pelo formato, me sugeriram conservas. No centro, em destaque, o brasão de Setúbal e um nome: D. Filipe. Espantada, olhei melhor. Afinal era um doce de aspeto cativante. Mas com aquele nome? Sim, é verdade.

Explicaram-me então que tinha havido um concurso para escolher um doce típico de Setúbal , organizado no âmbito da 4.ª Mostra de Saberes e Sabores, e o primeiro lugar fora atribuído ao D. Filipe. De espantada passei a chocada. Mas D. Filipe porquê? Porque seria escolhido para nome de um doce que pretende representar a cidade o nome de um usurpador, que castigou tão duramente a cidade durante o seu domínio?

Procurei informar-me e soube o seguinte através de O Setubalense de 5-12-2011: «Nuno Gil [o dono da pastelaria que confecionou o bolo] explicou que o nome “D. Filipe”, com o brasão de Setúbal, deve-se ao nome do rei e à construção da Fortaleza de S. Filipe. Além disso, a embalagem em forma de conserva é uma homenagem ao mar e aos pescadores. A tapar o doce está um papel com o poema “O Sonho” de Sebastião da Gama.»

Acredito plenamente nas boas intenções do confeiteiro e do júri e no completo respeito deste aos critérios de avaliação (originalidade, degustação, apresentação, viabilidade de produção, comercialização, condições de conservação e durabilidade), mas não percebo porque não foi sugerido que o nome fosse mudado. A designação deste doce não respeita a verdade histórica. Esta fortaleza serviu, entre outros fins, para controlar os nossos antepassados, tendo muitos deles assinado com o próprio sangue a não adesão aos Filipes. Amotinaram-se, lutaram, tinham aclamado D. António, Prior do Crato. Diz a história que o Duque de Alba, depois de aclamar Filipe II, “castigara com as maiores crueldades os moradores de Setúbal”. A repressão ao povo de Setúbal foi uma constante durante todo o período filipino. Segundo Albérico Afonso, eram frequentes os tumultos na vila e repetidas as atitudes de retaliação dos ocupantes.

É fundamental conhecer a história local para que não aconteçam coisas destas. Já que o bolo é coberto com o poema «O Sonho», de Sebastião da Gama, por que é que não se adopta esse nome, ou outro qualquer que tenha a ver com o poeta? Ou ainda outro, que não evoque memórias tristes? Agora D. Filipe é que não pode continuar, é uma afronta à nossa memória histórica. A gastronomia, e particularmente a doçaria, evoca felicidade, alegria, festa e não opressão e domínio. O nome dos seus produtos tem de ser positivo.

Como se pretende que um D. Filipe seja representativo de Setúbal? Aliás, deixem-me lembra-vos que já temos a Bolacha Piedade, o Doce de Laranja, as Cascas Cristalizadas de Laranja (agora também com cobertura de chocolate), as Tortas de Azeitão, os Santiagos e outros…

Duas últimas perguntas: quais as razões por que ainda não vi este assunto aflorado noutros espaços? Andarei cegueta?

F.R.M.

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