quarta-feira, 16 de maio de 2012

MIGUEL DE CASTRO: 3 ANOS LONGE DA VISTA MAS SEMPRE PERTO

 

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Miguel de Castro (ou será Jasmim Rodrigues da Silva?) na década de 1980

na Praia da Figueirinha

 

 

16 de Maio, 2012, quarta-feira.

Há três anos, em 2009, era sexta-feira.

19:00 horas em ponto.

Na baixa de Setúbal a vida despedia-se de mais um dia de azáfama.

No hospital de Setúbal o poeta Miguel de Castro despedia-se da vida.

Em Fruto Verde, livro de estreia, o poeta escreveu:

 

FIM

 

Quando morrer

como toda a gente,

quero levar no ataúde, fechado,

o meu sonho iluminado de poeta doente…

 

Quero as mãos compostas sobre o peito

as minhas mãos grosseiras e geladas…

e flores, muitas flores sobre o lençol do meu leito

de quatro tábuas pregadas…

 

Beijem-me o rosto as virgens que eu amei

em noites de luar e manhãs de cetim…

Perfumem o meu corpo de jasmim

que eu quero ir cheiroso como um rei!

 

Seja-me leve o peso da terra.

Fechem-se, de remorso, todas as caravelas nos portos…

 

Quero dormir descansado

no meu palácio enterrado,

até ao ressuscitar dos mortos!

 

Fruto Verde, 1950, p. 44

 

59 anos mais tarde, as mulheres que o amaram até ao fim, a Alice e a Elsa, fizeram-lhe a vontade. Dois dias depois, pegaram nas suas cinzas e entregaram-nas ao vento na Arrábida, a sua “janela de ver o mar”, onde “o silêncio está cheio / da respiração do mar”, numa “tarde azul demais pelo mar dentro”.

Talvez por isso, em dias de sol e vento, se sinta na Serra um forte perfume a jasmim.

 

Miguel de Castro, cantor do amor, da serra, do mar e das brancas areias abraçadas pelo rio, senhor de uma importante voz lírica da segunda metade do século XX, mas também o irreverente autor de Sinfonia do Cu, manteve com Manuel Medeiros laços de amizade e de companheirismo literário, numa cumplicidade quase diária nas décadas de 1980 e 1990. Não é de estranhar que uma bela tarde de Janeiro, perto do aniversário do livreiro, tenha entrado na Culsete com uma página A4 dactilografada e assinada com o poema abaixo transcrito, que só não foi incluído em Papel a Mais porque teimou em esconder-se entre uma multidão de papéis:

 

SE EU MORRER DE REPENTE

Para o Manuel Medeiros

 

Se eu morrer de repente, ainda ficas

Por cá, gozando o sol, fazendo gala

Dos cigarros que fumas (quem se rala?)

Olhando à porta as putas e os maricas.

 

Logo pela manhã bebendo bicas

No balcão do seneque, onde se fala

Ao entrares de chapéu e de bengala

A pairar todo azul…     Tão bem que ficas!

 

E vais dormindo sonhos e boticas

Para os males da vida e do país

- Meu pobre Sá-Carneiro sem Paris,

 

D. Quixote de um mundo que criticas…

Bebe o meu vinho tinto em vez de bicas.

Ficas um homem muito mais feliz!

 

9/1/1998

(inédito)

 

 

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Miguel de Castro com Américo Pereira, Ascênsio de Freitas, Gomes Sanches e Manuel Medeiros, durante a atividade «Três poetas e uma mentira», organizada por este último na Biblioteca Municipal de Setúbal, em 2004 (foto de Manuel Vieira)

 

Não se julgue, porém, que toda a poesia de Miguel de Castro fala de morte. Pelo contrário. Aqui ficam alguns exemplos bem diversos:

 

DIÁRIO

12

 

Hoje foi Domingo. Passei a tarde no café

a conversar com o meu amigo tédio.

Levei o tempo olhando o tempo para lá das vidraças e das cortinas.

 

Joguei o xadrez com vontade de estar dormindo

e acordar decorridos cem anos!

Aparte isto não fiz mais nada que valesse a pena.

Uma chuva miudinha caía… A avenida lavava a cara.

Nada vale a pena quando o dia dá em chuvoso.

 

Quis ir à missa de S. Julião

porque é elegante e aristocrático,

mas acordei muito tarde!

Acordo sempre tarde quando penso em fazer qualquer coisa.

 

O meu despertador já não quer trabalhar

e enquanto não me obrigarem a comprar outro

continuarei na mesma.

 

Mansarda, 1953, p. 57

 

ESTA CALIGRAFIA

 

Esta caligrafia de verão

na porosa ramagem dos pinheiros.

 

Este mar de gaivotas pela tarde

que passeio na tua companhia.

 

Esta cálida chuva de repente.

 

Terral, 1990, p. 38

 

 

UMA COISA AMADA

Para a Maria Rosa Colaço

 

Eu queria ser uma coisa amada.

Um canto de crianças, um poema

Na parede, uma linda esplanada

De verão, um artista de cinema.

 

Eu gostava de ser uma janela

Escancarada ao mar, o teu lençol

De banho ou, nesta manhã de sol,

Outra coisa que fosse muito bela,

 

Como no rio azul a vela panda.

Eu gostava de ser o bago de uva

Que te vejo, tão fútil, a trincar!

 

Eu gostava de ser a fresca chuva

Nos teus seios – que parecem voar

Assim que te debruças na varanda!

 

Os Sonetos, 2002, p. 21

 

Hoje, 16 de Maio, escolhi partilhar convosco alguns textos de Miguel de Castro. Faça o mesmo. Folheie os seus livros, escolha um texto e acrescente-o a esta pequena lista. Vamos lá instituir o 16 de Maio como DIA MIGUEL DE CASTRO.

F.R.M.

 

 

10 comentários:

  1. Parabéns por esta homenagem a Miguel de Castro! Merecida, como é merecida mais vasta memória deste poeta. Há dias, em 27 de Abril, a Associação Cultural Sebastião da Gama promoveu, em Azeitão, uma sessão que pôs em diálogo a poesia de Sebastião da Gama e de Miguel de Castro. Bonita! Público entusiasmado e várias pessoas a descobrirem o Miguel de Castro e a quererem saber mais... Poesia cheia de mensagens e fresca para se ler!
    Felicito FRM pela ideia desta nota com sabor antológico!
    JRR

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  2. PRIMAVERA NO SADO

    A PRIMAVERA CHEGOU COM A NBELINA SOBRE O RIO
    PELA JANELA ABERTA DO MEU QUARTO
    CONTEMLO OS NAVIOS
    ADORMECIDOS NO PORTO...
    ALGUÉM QUE ESTAVA MORTO
    VEM COM AS FLORES E OS AROMAS E OS FRUTOS

    TODA A MANHÃ VEIO EMERGINDO
    HÚMIDA E SILENCIOSA
    DO NOCTURNO ESTRELADO-
    E ABRIU SOBRE A PLACIDEZ DO RIO
    A CLARA BELEZA DO SEU CORPO
    CHEIO DE PÁSSAROS E DE VERSOS

    NAVEGAM PEIXES E GAIVOTAS
    NO BERÇO AZUL DO SADO...
    A PRIMAVERA DE SEIOS PERFUMADOS
    ACORDOU PARA VIDA TODA A TERRA
    (VISTO-ME DE FOLHAS CAULES E RAIZES)
    A PRIMAVERA ACONTECEU ESTA MANNÃ
    OIÇO CANTAR SEBASTIÃO DA GAMA
    DESCENDO PELOS CAMINHOS
    DA SUA VEERDE SERRA


    MIGUEL DE CASTRO

    21-III-52
    IN TÁVOLA REDONDA,FOLHAS DE POESIA, DE 30 DE ABRIL DE 1953

    +++++++++++++++++++++



    MIGUEL DE CASTRO E SEBASTIÃO DA GAMA,AMIGOS NA VIDA ,UNIDOS NA MORTE E REVIVIDOS NA NOSSA CONTEMPORÂNEIDADE,ESCANCARARAM AMBROS AS PORTAS DA NOSSA ELEVAÇÃO E DELICADEZA.

    QUE VIVAM CONNOSCO!!!


    DANIEL NOBRE MENDES

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  4. DAQUI A POUCO É DIA 16 DE MAIO.
    FOI F.R.M. QUE SUGEGIU ESSE DIA COMO O COMEÇO DE UMA NOBILISSIMA INSTITUCIONALIZAÇÃO PARA SE HONRAR JASMIM RODRIGUES DA SILVA SUPRIMIDO DO NOSSO CONVIVIO LÁ VÃO QUATRO ANOS JA.
    COM TERNURA E COM SAUDADE,AQUI, QUASE NO SEU DIA, O RECORDO E O CELEBRO COMO UM GRANDE AMIGO E COMO UM POETA DE RECURSOS LIRICOS MUITO APRECIÁVEIS!


    DANIEL NOBRE MENDDES




    ++++++++++++++++++++++



    QUARTA ODE



    "QUANDO MENOS SE ESPERA, A MORTE VEM.

    LIDIA, NÃO GUARDDEMOS P'RA DEPOIS

    O NOSSSO ANSEIO DE HOJE,

    O AMOR QUE NOS PEDE

    MAIS QUE ABRAÇOS E BEIJOS...DELIREMOS,

    ANTES, PERDIDOS, NA MORTAL VOLUPIA

    QUE OS OLHOS TONTOS, CERRA...

    MORTOS UM DIA, LIDIA,

    NÃO SEJA DE CIPRESTE A VIRGINDADE

    QUE OS NOSSOS CORPOS,TATALMENTE GUARDAM!"




    M I G U E L D E C A S T R O



    IN FASCICULO Nº6 DE "TÁVOLA REDONDA" DE 1 DE JUNHO DE 1950

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  5. AH! QUE TRISTE!NINGUÉM MAIS SE LEMBROU AQUI DE M I G U E L D E C A S T R O!!!QUE PENA DOÍDA!!!



    DANIEL NOBRE MENDES

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  6. SE LAMENTA TANTA PROSÁPIA E TÃO POUCO CUSPO!

    DE REPROVAR A SUGESTÃO SEM RETRIBUTO!

    ZÉLIA E VINICIUS DE ANDRADE

    NOVA FRIBURGO-- RIO DE JANEIRO

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  7. CÁ ESTAMOS DE NOVO,DE NOVO PARA ASINALAR O ESQUECIMENTO DE MIGUEL DE CASTRO.

    É SÓ VERBORRIA,UM BATE DEDO NAS TECLAS DO PC E NADA MAIS...

    MUITA PALHA E POUCA SEMENTE DEBULHADA-- SE LAMENTA!!!



    zélia de andrade

    nova friburgo,rio de janeiro

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  8. O DIA ESQUECIDO DE MIGUEL DE CASTRO APROXIMA-SE... PARA MAIS UM PASSO NO ESQUECIMENTO-- VEREMOS!!!

    DANIEL NOBRE MENDES

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  9. ATÉ AGORA SÓ A MARIA ALICE E EU RECORDÁMOS MIGUEL DE CASTRO NESTB DIA QUE FORA SUGERIDO COMO A INSTITUIÇÃO DO SEU DIA...

    LEMBRO O AMIGO PPORQUE O POETA NÃO MORRE !!!!!!!!


    DANIEL NOBRE MENDES

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  10. É SEMPRE AMESMISSIMA M....

    DANIEL NOBRE MENDES

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