Para quem não leu Urbano Bettencourt ou ainda não o ÁFRICA FRENTE E VERSO vai o pedido: leia os últimos dois textos do livro, a seguir transcritos. Saboreada a escrita, gostaria de saber se estamos em concordância: textos para ler três vezes.
L. V.
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De mangas e bolanhas
A primeira impressão cola-se para sempre à pele. Chegas à porta do avião e há um bafo que te envolve e retém no cimo das escadas. Digamos isto de outra maneira: há um bafo espesso que te empurra para trás, como onda lenta que desabasse sobre ti. Ainda não leste Karen Blixen, mas por aí mesmo ficas a saber que em África há odores tão intensos que quase nos sufocam.
Vai uma tentativa de isolar cada um dos elementos que compõem esta onda invisível em que a custo respiras: águas paradas, humidade, terra encharcada, transpiração vegetal, lama salobra – tudo isso numa estufa a 28 graus de temperatura. Mas aqui o todo é muito mais do que a soma das parcelas – poderás pensar entre Bissalanca e Bissau, se a curiosidade e o espanto não te impelirem a decifrar cada perfil fugaz na berma da estrada.
Ainda é cedo, no entanto. Mais tarde, aprenderás que tudo regressa em cada época das chuvas, como se o tempo fosse apenas um rio dobrado sobre si mesmo e a terra um corpo transbordante de Junho a Outubro.
E de quanto tempo vais precisar para tornar teu o perfume do caju e das mangas? Das mangas, principalmente.
Sentado à sombra de um mangueiro velho, anterior ao fogo e à morte metálica, verás o tempo escorrer lentamente sobre as mangas e deixar nelas os seus tons suaves, o verde, o amarelo, o rosa. Quando isto acontecer, o Iemena dirá dos frutos maduros e terá recuperado já uma sabedoria antiga para ensinar-te como varejar as mangas altas sem as machucar nem deixar tocar no chão. Hás-de recolhê-las intactas nas tuas mãos, o cheiro delicado confundindo-se, finalmente, com o sabor agreste, para se cruzarem ambos com a tua fome de séculos.
Saberás, então, que esse é o teu íntimo cheiro de África, aquele que vais querer guardar para lá de tudo, mesmo quando a memória dos lugares, dos corpos e do sangue se for diluindo na espessura dos dias.

Agostos
Num Agosto assim talvez chovesse outrora
muito longe daqui. As nuvens vinham de leste
e abriam o seu ventre subalimentado sobre
as nossas cabeças: metralha e fogo e luz
e um homem deixou no adobe da parede
o seu retrato de cinza.
E no entanto havia corpos
prontos a dar-se entre o desejo mudo
e o inferno. Caíam as aves, não co’a calma,
como dizia o outro, mas co’as cargas
de napalm, que são o reverso
do verso lírico (e do épico também).
Vinham as chuvas e partiam
e não lavavam lodos nem apagavam
o fogo que ardia sem se ver
(disto sabia ele, o poeta),
sobre uma esteira podia-se morrer de loucura
num corpo a corpo de vencidos,
desafiando a sombra da outra morte, a que vem
por trás e por diante, da direita e da esquerda,
e deixa os seus dentes de chumbo na carne destroçada.
Lembro-me destas coisas e de outras mais
ao cruzar-me com os pares que se devoram
em jardins de cimento, indiferentes
a quantos estudam o terreno em variadas línguas
sobre mapas que trocam os sinais da mata
e dos rios por números de autocarro, paragens
do metro, um ou outro museu, lugares a ver de fora e de longe,
mas nada nos dizem sobre o modo de evitar as emboscadas
da guerrilha urbana.
Não há chuvas neste Agosto. A calma
vibra nos telhados, as guerras trazem outros nomes,
outros donos. E talvez seja assim que tudo tem de ser.
E talvez seja este o melhor dos mundos.
(Porto, 2011)

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