quinta-feira, 24 de maio de 2012

URBANO BETTENCOURT: textos para ler três vezes

Para quem não leu Urbano Bettencourt ou ainda não o ÁFRICA FRENTE E VERSO vai o pedido: leia os últimos dois textos do livro, a seguir transcritos. Saboreada a escrita, gostaria de saber se estamos em concordância: textos para ler três vezes.
L. V.


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De mangas e bolanhas

A primeira impressão cola-se para sempre à pele. Chegas à porta do avião e há um bafo que te envolve e retém no cimo das escadas. Digamos isto de outra maneira: há um bafo espesso que te empurra para trás, como onda lenta que desabasse sobre ti. Ainda não leste Karen Blixen, mas por aí mesmo ficas a saber que em África há odores tão intensos que quase nos sufocam.

Vai uma tentativa de isolar cada um dos elementos que compõem esta onda invisível em que a custo respiras: águas paradas, humidade, terra encharcada, transpiração vegetal, lama salobra – tudo isso numa estufa a 28 graus de temperatura. Mas aqui o todo é muito mais do que a soma das parcelas – poderás pensar entre   Bissalanca e Bissau, se a curiosidade e o espanto não te impelirem a decifrar cada perfil fugaz na berma da estrada.

Ainda é cedo, no entanto. Mais tarde, aprenderás que tudo regressa em cada época das chuvas, como se o tempo fosse apenas um rio dobrado sobre si mesmo e a terra um corpo transbordante de Junho a Outubro.

E de quanto tempo vais precisar para tornar teu o perfume do caju e das mangas? Das mangas, principalmente.

Sentado à sombra de um mangueiro velho, anterior ao fogo e à  morte metálica,   verás   o tempo escorrer lentamente sobre as mangas  e deixar   nelas os   seus tons suaves, o verde, o amarelo, o   rosa. Quando isto acontecer, o Iemena dirá dos frutos maduros e terá recuperado já uma sabedoria antiga para ensinar-te como  varejar  as mangas altas sem as machucar nem  deixar tocar no chão. Hás-de recolhê-las intactas nas  tuas mãos, o cheiro  delicado confundindo-se, finalmente,  com o sabor agreste, para se cruzarem ambos com a tua fome de séculos.

Saberás, então, que esse é o teu íntimo cheiro de África, aquele que vais querer guardar para lá de tudo, mesmo quando a memória dos lugares, dos corpos e do sangue se for diluindo na espessura dos dias.



 

 

 

 

 

Agostos

Num Agosto assim talvez chovesse outrora

muito longe daqui. As nuvens vinham de leste

e abriam o seu ventre subalimentado sobre

as nossas cabeças: metralha e fogo  e luz

e um homem deixou no adobe da parede  

o seu retrato de cinza.

 

E no entanto havia corpos

prontos a dar-se  entre o desejo mudo 

e o inferno. Caíam as aves,    não co’a calma,

como dizia o outro, mas co’as cargas

de napalm,  que são o reverso

do verso lírico (e do épico também).

Vinham as chuvas e partiam

e não lavavam lodos  nem apagavam

o fogo que ardia sem se ver 

(disto sabia ele, o poeta),

sobre uma esteira podia-se  morrer de loucura

num corpo a corpo de vencidos,

desafiando a sombra da outra morte, a que vem

por trás e por diante, da direita e da esquerda,

e deixa os seus dentes  de chumbo  na carne destroçada.

 

Lembro-me destas coisas e de outras mais

ao cruzar-me com os  pares que se devoram

em jardins de cimento, indiferentes

a quantos estudam o terreno em variadas línguas

sobre  mapas   que trocam   os sinais da mata 

e dos rios   por  números de autocarro, paragens

do metro, um ou outro museu, lugares a ver de  fora e de longe,

mas  nada nos dizem sobre o modo de  evitar as emboscadas

da  guerrilha urbana.

 

Não há chuvas  neste Agosto. A calma 

vibra nos telhados,  as guerras trazem outros nomes,

outros donos. E talvez seja assim que tudo tem de  ser.

E talvez seja este o melhor dos mundos.

(Porto, 2011)

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