sexta-feira, 8 de junho de 2012

Borrões em Recortes que Lia…

FOTO DE URBANO BETTENCOURT

«QUIEN BORRAR NO SABE, CAMINA EN CUATRO PES»

Tanta leitura que tem ficado para depois, um mais-tarde a caminho do já-é-tarde!

O poema de António Machado, antes intitulado «Viaje», aos meus olhos já tão impróprios para…, mas ainda a tempo de o ler, chega como «Outro viaje». A esse pormenor atribuo um pessoal significado e transcrevo a quadra em que termina:

«Tan pobre me estoy quedando

que ya ni siquiera estoy

conmigo, ni sé si voy

conmigo a solas viajando».

Logo a seguir vem o poema «Adiós» e esta passagem também não a deixo passar, não devo:

«(…). No me pidáis presencia:

las almas huyen para dar canciones:

alma es distancia y horizonte: ausencia».

Depois de ser tocado por estes poemas e em especial por estes versos, como resguardar os olhos para outras maravilhas, inclusive as que, sendo menos cansativas, nem por isso menos alma são, tais como, em distância, o recorte da serra no céu da tarde?

O recorte da serra no céu da tarde repete-se num prender o olhar sem nunca o cansar. Porque é alma? Interior ao ser e, aí, em próprio, distância, horizonte, ausência?

Os olhos em resto… Também os olhos!…

Ao menos por mais alguns momentos ir nesta sedução pela obra de António Machado:

«Juan de Mairena se llama a si mesmo el poeta del tiempo. Sostenia Mairena que la poesia era una arte temporal –lo que ya habían dicho muchos antes de él (…). Pero una intensa y profunda impressión del tiempo sólo nos la dan muy contados poetas».

A que me está a saber este encontro na tarde ferida dos meus olhos com António Machado e os seus, não direi heterónimos, mas «alter-egos» surprendentes, tão surpreendentes?

Depois de um Mairena, só mais estes versos de um José Maria Torres, que Machado leva a morrer em Manilla, onde a língua, como se sabe, …:

«A la hora de la tarde

viene um gigante a pensar.

Junto al mar, que mucho suena,

medita, sordo a la mar.

(…)

El no ve ni el mar ni el cielo,

él sólo ve su pensar».

Disse «só mais estes», mas menti. Inocentemente, creio.

O texto, donde para aqui estes versos dedicados a uma «hora de la tarde», intitula-se, em De um Canconeiro Apócrifo, «Doce Poetas que Pudieron Existir». José Maria Torres vem no número três. Vamos pelos seguintes e, afinal, temos mais que os doze: quinze! Um título assumidamente mentiroso! Apenas uma extravagância das que há leitores que não gostam e detestam encontrar nos seus admiráveis poetas e demais escritores?

É depois dos doze que vem o tradutor de Shakespeare, com tradução e comentário:

(…)

Si dos mentirosos hablan,

ya es la mentira inocente;

se mientem, mas no se enganãm.

 

No es exactamente eso o que dice Shakespeare: pero léase atentamente el soneto y se verá que es esto lo que debiera decir».

R. V.

 

P.S.

«No extrañeis, dulces amigos,

que esté mi frente arrugada;

yo vivo en paz com los hombres

y en guerra com mis entrañas.»

 

Não podia deixar de acrescentar. Tinha que dizer-vos eu isto, amigos. Não acham?

R. V.

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