quinta-feira, 7 de junho de 2012

MEDEIROS FERREIRA - a “tremendous energy”: Homenagem de ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

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Homenagem a José Medeiros Ferreira
Culsete, Setúbal

Nos espectáculos de stand-up comedy e mesmo em concertos de música moderna há em regra três tipos de performers: o primeiro de todos faz o warm up. Tem a missão de começar a aquecer o ambiente. Normalmente é uma figura pouco conhecida, mas com aspirações a fazer carreira e que se sujeita a tudo por um pouco de publicidade, particularmente se encostada a grandes nomes. Depois vem então a segunda figura, essa sim, já de nome feito mas que no momento aceita participar no show a fim de preparar a aparição em grande da vedeta do espectáculo.

Neste caso de hoje, em que venho fazer o warm up, há uma diferença: fui incluído no programa não só sem pedir, mas até mesmo sem o saber. Como na situação clássica dos últimos a saber, fui o último e só soube por acaso, via Internet.

Claro que venho com muito gosto encenar este encontro de duas figuras que têm um passado com muitos paralelos, cruzamentos e alguns desencontros porque cada um deles tem a sua personalidade vincada e inconfundível, a começar pelo facto de, sendo os dois micaelenses, um – o nosso homenageado - ter acidentalmente nascido no arquipélago vizinho só para ter a certeza de que desde bebé acentuava a sua independência. O Mário Mesquita aceitou vir e será ele de facto o apresentador do homenageado desta tarde porque partilha com ele um percurso antigo de amizade e de currículo político num tempo conturbado, porém único do nosso país em que ambos foram figuras relevantes. Assim, e no meu papel de warmer up desta sessão, cabe-me dizer algumas palavras sobre o homenageado. Fá-lo-ei em flashes, pois é de flashes o meu relacionamento com o Medeiros Ferreira. Estou, por exemplo, a ouvi-lo lembrar com orgulho que foi ele quem no Liceu de Ponta Delgada pôs Jaime Gama a ler Platão. Estou igualmente a vê-lo e a ouvi-lo no início da década de 80 num colóquio na Universidade de New Hampshire, a argumentar comigo sobre o problema da identidade nacional, e de novo a vê-lo, anos mais tarde, em Washington, quando ele já tinha sido ministro e era atentamente ouvido sobre a integração europeia de Portugal. Mas lembro-me de Medeiros Ferreira também em animados almoços no restaurante da praia do Meco (estávamos todos vestidos!) e num outro restaurante da sua predilecção perto do Portinho da Arrábida porque, fã da zona, e com casa em Espichel, convoca e congrega os amigos para esta Região privilegiada, mediterrânica e de um Portugal quase grego (refiro-me à paisagem, pois quanto ao resto salvo seja!). Estou a vê-lo em Providence, na Brown, por duas vezes em ocasiões bastante separadas pelos anos e ocasionalmente mesmo no acolhedor espaço da sua própria casa, para não falar de outras circunstâncias por aqui e por ali menos pessoais, para além de quantas apenas através da comunicação social, ou até das páginas dos seus livros e artigos de revistas. Ou ainda através do folclore oral, como muito recentemente aconteceu após uma concorridíssima homenagem em Lisboa em que o Medeiros Ferreira, na presença de Mário Soares, se saiu com uma tirada depressa de boca em boca largamente reproduzida: Porque eu não sou como o Mário Soares, amigo de toda a gente!

Quem seguiu a trajectória politico-académica de Medeiros Ferreira deve reconhecer que uma das suas grandes virtudes foi, e é, a da capacidade de pensar por si e de se esquivar a filiações políticas cegas, e habitualmente comprometedoras. Medeiros Ferreira nunca foi lapa colada à pedra. Se quiséssemos associá-lo a uma criatura do mar açoriano seria a moreia, porque diz a sabedoria popular que até se escapa aos tentáculos do polvo. Nunca este consegue segurá-la a ponto de as suas ventosas se colarem à vítima para a sugar. A moreia escapa-se-lhe sempre ilesa, livre. Mário Soares não conseguiu e, se ele não o fez, mais ninguém pode. Não o consentiu nunca Medeiros Ferreira, animal político por excelência, quintessência do zoon politikon aristotélico, com um instinto para intuir - que é ler por dentro - o facto político (veja-se o seu blogue e o prestígio que alcançou entre os leitores independentes). Teve sempre a cabeça no seu lugar, primou pela sua independência, que não é sinónimo de neutralidade. Nem sequer passou pelas veleidades juvenis dos recém-convertidos ao marxismo, dispostos a dar a alma ao Mestre e a essa Nova Igreja da altura que tinha o seu Vaticano em Moscovo. Não passou por aí porque até já mesmo nos Açores conseguira evadir-se ao peso pesado da própria Igreja. Ele tem, aliás, disso perfeita consciência quando escreve no Pátria Utópica, o precioso volume colectivo do Grupo de Genebra recentemente publicado: “Embora me considere um espírito robusto, essa sensação de pertencer a uma minoria nunca mais me largou.” (p.78) O que está mal colocado nesta frase é a adversativa “embora”, que deveria ser substituída pela causal “Porque” - porque Medeiros Ferreira tem um espírito robusto é que consegue ser, ou ter, um pensar independente.

Nesse registo, por sinal, estamos aqui em presença de uma dupla que tem essa faceta em comum e é por isso com imenso prazer que junto a eles me sento, para aplaudir esse espírito que os dois tão brilhantemente exibem. Tudo quanto se segue é por demais conhecido, mas é bom ser lembrado, como aliás o faz Antóno Barreto no supra citado livro colectivo do Grupo de Genebra. Diz este último da sua experiência na Assembleia Constituinte: “No grupo de Constituintes socialistas, depressa fiz “aliança” com um pequeno grupo que tentava remar contra a maré predominante radical e esquerdista. Esse incluía José Medeiros Ferreira, Mário Mesquita, Mário Sottomayor Cardia, Rui Feijó e Nuno Godinho de Matos.” (p. 222).

Claro que não existe um ser humano perfeito nem completamente isento e muitos de nós somos dominados por forças estranhas que poucos sabem debelar canalizando-as, como bem sabe fazer o nosso homenageado. As naturais tendências gregárias, de se ir com o bando, de fazer gang, de se entrar num grupo de malta, de se perder a razão na emoção total e desinibida, em Medeiros Ferreira estão todas canalizadas para esse tubo de escape que é o Benfica. Aí, porém, estamos já no capítulo da fé e o melhor é nem nele entrar. Podemos - e com razão – lamentar a escolha, todavia reconheçamos que qualquer ser humano tem direito aos seus momentos de colocar entre parêntesis a razão e o raciocínio e se deixar entregar completamente à irracionalidade. É um desvio importante para o nosso equilíbrio psicológico.

Como o meu papel nesta sessão é abrir a festa da conversa com o nosso homenageado, vou quedar-me por aqui. Queria no entanto acrescentar ainda uma pequena nota. Medeiros Ferreira já me tinha dito há algum tempo que era ele o responsável pela criação da referência quase slogan da revolução de Abril – os três dd que resumem o programa de Abril. Os mais novos não fazem hoje ideia do que isso seja mas os presentes lembram-se. Porque várias vezes eu tenho feito referência a esses três dd, a partir da data em que Medeiros Ferreira me revelou a paternidade deles passei a fazer-lhe justiça associando-lhes o seu nome. Mas não sabia exactamente a história de como tinham surgido. Felizmente que ele a narra agora numa passagem eminentemente citável e que reproduzo aqui com prazer. Depois de descrever o ambiente em que vivia na Suíça, Medeiros Ferreira prossegue assim a sua narrativa:

“Foi nesse enquadramento geral que concebi a “tese” enviada para o Congresso de Aveiro que se realizou nos primeiros dias de abril de 1973, e na qual defendia a política dos três dd (descolonizar, democratizar, desenvolver) como programa de um possível pronunciamento militar a apoiar pela Oposição. A Maria Emília, sempre destemida, foi propositadamente a Aveiro observar as reacções suscitadas pela comunicação. Regressou apreensiva com o resultado. Ninguém acreditava no fundamento da minha ideia. Que estava desenraizado do país e da luta de massas. Só Jorge Sampaio achara apenas precoce a “heresia”. Quando regressei a Portugal, eram todos mais entusiastas do MFA do que eu… Devo o reconhecimento da importância política da tese enviada ao Congresso de Aveiro, primeiro a Mário Mesquita, que aproveitou a campanha eleitoral de outubro de 1973 para levar os candidatos do PS Pedro Coelho e Arons de Carvalho a referirem os três dd nos comícios, e que, dias depois do 25 de Abril, publicou na íntegra, no jornal República, a “tese”; e, em segundo lugar, ao capitão de abril, Vitor Alves, que recordou a importância daquele documento para o Movimento das Forças Armadas num depoimento dado à revista do Expresso a 7 de abril de 1984.” (p. 202)

E por que razão acho tão importante essa criação? Porque tenho dedicado muito do meu tempo ao estudo da questão da modernidade e, em particular, da modernidade em Portugal e no mundo lusófono. Tenho defendido, sem reclamar qualquer originalidade, que foi o nosso Antero de Quental quem mais lucidamente esboçou a radiografia da cultura portuguesa face ao mundo moderno e que o seu famoso ensaio, escrito a partir da sua intervenção nas Conferências do Casino – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares – é o texto paradigmático que irá dividir as gentes do pensamento português (político e não só) em modernos e não-modernos. O paradigma moderno brilhantemente identificado e traçado por Antero é afinal o que subjaz a todo o ideário da revolução do 25 de Abril. Um dia fiz essa afirmação numa conferência na Universidade Nova e, no período de debate, um político português argumentou que, se esse texto de Antero era assim tão fundamental como eu afirmava, por que razão no Parlamento se falava sempre de Regeneração e não de Decadência? Expliquei-me então melhor: os políticos têm que prometer algo positivo, por isso não lhes convém falar de decadência. Regeneração era precisamente o passo resultante da tomada de consciência da decadência. Os três grandes erros apontados por Antero que levaram Portugal à decadência – a aventura ultramarina, o regresso ao antigo regime político-cultural autoritário absoluto e o fechar-se num modelo económico tradicional correspondem, na sua versão positiva e programática, aos três dd da revolução dos cravos: Descolonizar, Democratizar, Desenvolver.

Esse brilhante insight de Medeiros Ferreira revela a argúcia do intelectual preocupado com a intervenção política, e pode figurar como emblema da sua presença nessas duas vertentes da vida portuguesa contemporânea.

Que a “tremendous energy” que todos lhe conhecemos e o jornal Times nele identificou, quando era Ministro dos Negócios Estrangeiros, possa continuar por muito tempo a permitir-lhe intervir na vida pública deste país, tão necessitado de gente que saiba e esteja disposta a pensar por si.

onésimo

2 de Junho de 2012

1 comentário:

  1. http://urbanobettencourt.wordpress.com/7 de junho de 2012 às 12:26

    Óptimo texto que vai muito para lá do simples «warm up»; a imprimir e guardar entre as páginas de «Pátria Utópica», de que li com o maior prazer e proveito dois testemunhos nucleares: o de Medeiros Ferreira e o de António Barreto.

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