quarta-feira, 27 de junho de 2012

«TUDO SE FACILITA» ou OLEGÁRIO PAZ em modelar leitor de JOSÉ FRANCISCO COSTA

2012-06-17 17.12.38Foto de Onésimo Teotónio Almeida
Olegário Paz lê as suas «breves notas»
sob o olhar atento de Leonor Simas-Almeida
e do poeta homenageado José Francisco Costa

Breves notas
sobre as transformações do discurso poético
de José Francisco Costa

[i]

Quem se decidir a ler os livros de poesia publicados por José Francisco Costa só vai ter um problema, encontrá-los no mercado. Uma vez ultrapassada a dificuldade, tudo se facilita: não são volumosos, leem-se com agrado e dão-nos a conhecer um poeta em crescimento.

 

Mar e Tudo, o primeiro - 1998 - é um livro de contos, nove ao todo, mas já traz evidente a marca poética, particularmente nas epígrafes de cada um deles, como notou Francisco Cota Fagundes

 [ii]:

1. para quê o adeus / se partir é / ficar para sempre?... ("School Bus");

2. sapateia teia teia / com fios enlaçados no olhar ("Nome Próprio");

3. ainda vais aí? / mexe-me essas mãos / rema para aquele mar, ali ("Terra de Longe");

4. e em cada ilhéu / um barco / na linha dos olhos ("Segundo Shift");

5. dias plúmbeos / indistintas manhãs / num tempo diluído ("Fio do Tempo");

6 . para além do olhar / fazemos ponto de cruz / com a linha do horizonte  ("À Nossa");

7 . as palavras são ondas / vindas / da memória  ("Festa Comum");

8. qual seria a cor do mar / se a do céu não existisse ("Suor Frio");

9. o mar ficava manso / a maré vinha morta / era um lençol (Enquanto a ilha for...").

 

Alguns destes versos hão de integrar-se em poemas de E da Carne se Fez Verbo - 2000 - como é o caso de "sapateia / teia / teia", em "O Outro Tom da Sapateia", e o de "um barco na linha dos olhos", "Sina de Véspera" e, ainda, o de "fazemos ponto de cruz / com a linha do horizonte", em "Imagem de mim".

Os temas de fundo lançados nos contos vão manter-se e ampliar-se agora: terra, mar, amor, emigração, temáticas que, aliás, vão constituir o cerne de Ficou-me na Alma Este Gosto - 2011-, embora muito esbatido, já, o tema da emigração.

Se nos ficarmos pelo plano formal, as 37 poesias de E da Carne se Fez Verbo evidenciam uma dupla tendência, o apego à redondilha maior de estrutura rimática geralmente tradicional, e a opção marcante pelo verso livre. Não raro encontramos uma intencional mistura dos dois processos: a seguir a estrofes de tendência modernista aparece uma quadra bem ao gosto popular. Por exemplo:

 

«Oh, Nova Inglaterra dos meus invernos

Com neve, frio, desamor, brancura, alma sem cor.

[...]

Quando a gente aqui chegava,

O sonho à terra vendia.

O nosso corpo ficava,

A nossa alma partia.

[...].»

("O say can you see?")

 

Uma das técnicas que chama a atenção é o recurso ao processo iterativo, ora no início das estrofes (Tristes / andam tristes, "Endoenças"), ora no fim, à maneira de refrão, (Não te esqueças, meu amor / Do recado de voltar, "Recados do meu olhar"). Sinal evidente de que muitos destes versos foram fabricados para letras de cantigas do reportório do poeta que bem as cantas e as dá a cantar a outros.

Prova de lirismo incontido é o predomínio absoluto do 'eu' como sujeito lírico quase sempre em diálogo com os diversos "tus": Vejo um barco na linha / dos teus olhos, "Sina de Véspera"; Ai menina, quem me dera, ("Dúvida de uma vida").

 

Não posso deixar de referir, porque me toca especialmente como jorgense, a bem conseguida tradução / descolagem de "Vinho da Fajã" de Art Coelho, poeta e romancista californiano de raízes açorianas:

 

«O hálito do tempo derrama-se sobre estas Fajãs

em teus socalcos benzidos de hortênsias,

ilha natureza donzela no sereno das manhãs,

alimento do meu sonho antigo, pão dos meus dias.

[...].»

 

Em Ficou-me na Alma este Gosto, o discurso poético de José F. Costa explora formas encetadas em E da Carne se Fez Verbo e ganha outras, a caminho do normal amadurecimento da sua lira patente em boa parte das 82 poesias que enformam o livro.

Em termos formais, a maior novidade está no recurso ao decassílabo heroico:

 

Com só verso teu me comoveste:

O da verdade estranha, mas sincera.

E a tua mágoa, amor, me devolveste

Em gesto que de ti eu já perdera.

("Dor")

 

recurso posto na construção de seis sonetos, onde raramente ganha o ritmo sáfico.

 

"S. Valentim"

(para a Lourdes)

 

Por ti andei caminhos sem te ver.

Passei por ti no becos da demora.

Mas quando olhaste, o corpo estremeceu:

A voz da alma lhe bendisse a hora.

Cheguei. E teua cabelos mergulharam

Num vale de polhos feitos de que vejo.

E à paz do sonho quente regressaram

Palavras novas, filhas do desejo.

 

Amor morrer não pode em meu olvido,

Nem mesmo a velha idade há-de matar

O gozo que há no tempo proibido:

 

Viagem louca de saber e sal

Onde o batel de casco envelhecido

Se embala à terna luz do teu olhar.

 

* * *

 

Quem se decidir a ler a obra poética de José Francisco Costa faz sentido que comece pelos contos de Mar e Tudo.

Vai valer a pena!

 

Amadora, 120617

Olegário Paz

 

 



[i] Aquando da apresentação de E ficou-me na alma este gosto por Leonor Simas, na livraria CULSETE.

[ii] Gávea-Brown, vol. XXI, 2000.

1 comentário:

  1. Uma introdução sucinta e certeira para quem quiser conhecer a escrita do José Francisco Costa.
    Venham mais.
    Abraço.
    onésimo

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