sexta-feira, 22 de junho de 2012

URBANO BETTENCOURT: «um desafio em forma de duas questões»

Culsete, em Maio
Urbano Bettencourt

A vinte e sete de Maio, o meu amigo Manuel Medeiros, sob as iniciais L.V, deixou-me neste blogue um desafio em forma de duas questões sobre a sessão acabada de ocorrer na Culsete, para eu responder se e quando quisesse. Nestas coisas, o quando é sempre mais problemático do que o se, por razões que não interessa explicitar agora. Mesmo tardiamente, aqui deixo a minha resposta possível ao repto.

As razões para a apresentação de um livro neste ou naquele lugar variam de caso para caso, para lá daquela razão geral e institucional que é a de dar a conhecer um livro e assinalar a sua entrada no mercado. Os motivos para apresentar um livro meu em Ponta Delgada serão sempre diferentes dos que me levam a apresentá-lo, por exemplo, em S. Roque, na costa norte do Pico, essa fronteira onde imaginariamente me recoloco para escrever as minhas ficções, em diálogo com os leitores virtuais que se distribuem ao longo da orla e dos precipícios da ilha de S. Jorge, em frente.

Apresentar África frente e verso na Livraria Culsete, em Maio de 2012, tinha, portanto, motivações que estão para lá do simples «diálogo» com o público e que as dedicatórias e o prefácio explicitam devidamente: replicar o momento inaugural da Primavera de 1972 em que raiz de mágoa saiu para a praça pública, graças a Manuel Medeiros e às oficinas da então Culdex. Era também o momento para, biblicamente, dizer ao Livreiro Velho de hoje que, apesar de tudo, os talentos de 1972 não se perderam no caminho, embora possam não ter rendido o que deles era devido esperar.

A sessão foi, portanto, ocasião para sentir tudo isso e partilhá-lo com todos os que vieram de outros lados, amigos e meros leitores, trazidos por esse chamamento que os livros sempre suscitam e fazem de cada presença um gesto de cumplicidade muito mais profundo e íntimo do que o mero acto social.

Foi bom ouvir Manuel Medeiros falar de todas essas coisas, comovidamente, e seguir as palavras de Fátima Medeiros a desvendar os diferentes processos que em África frente e verso assinalam a sua natureza de artefacto literário, coisa que Eduíno de Jesus viria também a pôr em relevo. É certo que pessoalmente tenho chamado a atenção para a dupla imagem de África que os textos constroem e o óptimo trabalho pictórico de Urbano, o pintor, explicita – e essa é uma forma de falar daquilo que, para lá de tudo, sobrou desse tempo, em termos de descoberta e aprendizagem do mundo e do homem, de gestos generosos e da construção de cumplicidades que permanecem e atestam a dupla dimensão da natureza humana entre anjo e demónio. Mas tudo isso se faz no livro através de palavras e de um imaginário que baralham e redistribuem por diversas vozes os dados da experiência e os articulam com textos alheios, de diferentes origens e géneros.

É também por isto que sabe sempre bem ouvir a leitura daquilo que escrevemos, o modo como outros escutam, reinventam e nos devolvem a voz, os ritmos, a sombra e a luz que cada texto traz em si como promessa à espera de cumprir-se. Já tinha tido uma excepcional sessão de leitura em Ponta Delgada e voltei a ter outra na Culsete, graças a Fernando Guerreiro, José Nobre e Olegário Paz: dicção e dramatismo, timbre e andamento deram vida às palavras, fazendo ressaltar a dinâmica que nelas, em parte, aguardava. E a breve discussão final sobre se quem lê se limita a seguir o que já está em cada texto ou acrescenta a sua própria interpretação não terá nunca uma conclusão definitiva e unilateral, que penda para um lado ou para o outro. «Antes da noite» é um texto com fragmentos escritos em voz alta, elaborados microscopicamente e tendo em conta o seu possível resultado sonoro e rítmico; mas o facto de a sua leitura por José Medeiros, em Ponta Delgada, ter sido em muitos aspectos diferente da que fez José Nobre, em Setúbal, atesta essa dimensão criativa de cada actor frente a um texto escrito.

E com isto já ando, de certo modo, pela segunda parte do repto lançado por L.V, a «dificuldade de encontrar leitores continentais que tenham lido a boa escrita açoriana quando publicada nas ilhas».

Aqui, devo confessar a minha perplexidade, tão grande como essa outra relativa à guerra e que continua a incomodar-me, ante a pergunta sem resposta sobre como foi possível termos sido isto e aquilo, vítimas e carrascos num «teatro operacional» (a expressão, como se sabe, faz parte do discurso militar) em que tivemos de desempenhar papéis que nos foram distribuídos contra a nossa vontade e gosto.

Mas eu gostaria de dizer que me importaria, em primeiro lugar, ser(mos) lido(s) nos Açores, isto é, nuns Açores a nove em que houvesse em todas as ilhas livrarias dignas do nome e da função, capazes de pôr os livros à disposição do público.

Depois disso, dizer então que continua a faltar uma estratégia comercial concertada e persistente que dê visibilidade continental ao que de qualidade se vai fazendo a meio do Atlântico e que seria necessário algo mais do que deixar os livros nesta ou naquela livraria, mesmo em várias consideradas fundamentais. Mas há uma outra questão a considerar, ou seja, a distância, não apenas a física, mas sobretudo a ideológica e social, aquela em que é colocado quem não pertence ao círculo, ao grupo de referência e de pressão: ser «dos Açores» é ser da província, como disse em tempos a jornalista da capital, e claro que, deste ponto de vista, da província só podem vir os Calistos Elóis cujo anedotário alimenta o circo da cidade. Dizendo de outra forma, as estratégias terão poucas hipóteses de resultar, se do outro lado não houver aquele mínimo de interesse ou, pelo menos, de curiosidade que motive a atenção. Seria, no entanto, injusto não reconhecer aquelas excepções que, por sê-lo, não passam disso mesmo. Mas quantos anos levou Emanuel Félix, por exemplo, a chegar a Lisboa? E onde há lugar para ele no cânone da poesia concretista, apesar de ter sido o seu iniciador em Portugal (mas no Atlântico)?

Teremos hoje mais leitores em Riga e em Bratislava do que em Lisboa? (E não falo no caso muito particular do Sul do Brasil) É bem possível que sim e isso deve-se ao interesse, à curiosidade de homens como Leons Briedis e Peter Zsoldos, respectivamente. Este último teve de desconfiar da ignorância de Lisboa e de ultrapassá-la, para chegar ao contacto com os escritores residentes que reuniu na revista Svetovej Literatúry (1998) e cuja novidade justificou a antologia bilingue que se lhe seguiu (Zakresl’ovanie do mapy. Azory a ich básnici. Bratislava, 2000). O facto de esse número da Svetovej Literatúry ser dedicado à literatura …espanhola não deixa de assumir um carácter irónico (afinal, os espanhóis já saíram de cá há quase quatro séculos), mas é, em boa medida, a metáfora do que é ser-se escritor nos Açores, onde se fala e escreve em língua portuguesa, embora possa haver quem pense que seremos anglófonos, o que nos dispensa, naturalmente, das congregações nacionais lusófonas.

É certo que se eu fosse um escritor palopiano o meu grau de visibilidade continental seria outro, seguramente. Mas não é a falta dela que me vai impedir de escrever. O meu compromisso é, em primeiro lugar, com a pátria da literatura, muito mais vasta do que a da língua, e é nela que continuarei a situar-me – como o fio da fonte teima na rocha viva ao mar virada, diria o Velho Nemésio.

Junho de 2012

4 comentários:

  1. Um aplauso a sublinhar o acima dito.
    Abraço.
    onésimo

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  2. Onésimo,
    Propositadamente, orientei o comentário para o leste e norte da Europa, para salientar que a aproximação aos Açores se fez aí por motivos intelectuais, sem razões de proveniência geográfica ou de «proximidade afectiva». Só por isso não referi os EUA e a tua intervenção inicial de 1983 (o Colóquio na Brown e a antologia «The Sea Within»), por onde efectivamente as coisas começaram «lá fora».
    Abraço
    Urbano

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  3. Eu aplaudi por inteiro o que disseste.
    Essa história do que se fez do outro lado do Atlântico é outro assunto. Até porque grande oposição a que se falasse de Literatura Açoriana vinha de dentro, dos próprios Açores e mesmo de escritores açorianos.
    Equacionaste perfeitamente o problema. E não me canso de dizer que, se os Açores fossem independentes (não apoiei nunca nem apoio a ideia), pelos menos em Portugal hoje não se esqueceriam nunca de incluir representantes do "país açoriano" sempre que organizassem encontros de literaturas lusófonas.
    Abraço.
    onésimo

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  4. «De tudo o que se escreve – Aprecio somente o que se escreve com o próprio sangue.» Disse Nietzsche, para quem sangue era sinónimo de espírito. O livro era muito aborrecido mas gostei do dramatismo da frase (sou de Teatro), lembrei-me dela quando li o “Antes da Noite”. Estava a folhear o “ÁFRICA frente e verso”, casualmente, sondando hipóteses de declamação, quando, de súbito, do livro caíram duas gotas de sangue, depois, a páginas 35, abriu-se uma janela, da janela ergueu-se um braço, ensanguentado, que me puxou pelos colarinhos da imaginação, estatelando o meu privilegiado coiro, de reserva territorial (por excesso de contingente), um bebé de 72, nas agruras de uma guerra colonial, ainda omitida dos manuais escolares. Mais que soldado – senti-me Alferes! Todavia ressacado. A missão parecia simples e rotineira, se é que tais adjectivos poderão ser atribuídos em situações que envolvam rajadas de metralhadora, turras ou minas. Não pude deixar de sorrir, entretanto, ao aperceber-me de que a acção se desenrolava umas horas ‘antes de o dia’ principiar, paradoxalmente à sugestão do título.
    Logo após vivenciar a experiência do Urbano, já ‘de volta a casa’, aliviado e exausto, como se tivesse acordado de um pesadelo, dispus-me a cronometrar a leitura (oral) do texto, de forma a perceber se seria possível dizê-lo sem enfastiar a audiência. Não pelo conteúdo, que parecia ter vida própria, mas pela minha (in) capacidade de resistência. Não tanto pela quantidade de emoções que teria de transmitir, mais pela intensidade das mesmas – pela disponibilidade total do espírito, ou, se quiserem, pelos litros de sangue metafórico que teria de derramar. Vou contar-vos um segredo: Para um actor ler um texto destes, convenientemente, necessita de penhorar a sua alma, de expô-la, nua e às avessas; porém sem alguma espécie de receio, pois ela ser-lhe-á devolvida, com juros, por altura dos aplausos. É só um empréstimo. A publicidade dos juros é talvez enganosa, pois há quem acredite que o desgaste metafísico nunca chega a ser reposto na totalidade, daí a sensação de cansaço. Balelas – Respondo; que se um dia me encontrasse como o Esteves da Tabacaria, dava por bem empregue o desperdício, pois significava que faria parte integrante do espólio imortal das palavras sentidas pelo grande poeta morto. Foi nesta parte que me lembrei do Fernando Pessoa e das suas ideias acerca do Sensacionismo: «A arte, na sua definição plena, é a expressão harmónica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objecto que seja uma sensação para os outros. (…)». Penso que esta frase ilustra todo o caminho percorrido pelas emoções, desde o autor, passando pelo actor, até chegar ao espectador – todos se encontram em comunhão pela universalidade das emoções sentidas-escritas-lidas-sentidas-reproduzidas-sentidas-recepcionadas e, novamente, sentidas.
    Um agradecimento ao casal Medeiros, pelo convite, um abraço ao Fernando Guerreiro, ao Urbano Bettencourt e a todos os presentes no evento do dia 27 de Maio de 2012, na CULSETE.
    José Nobre

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