terça-feira, 7 de agosto de 2012

A MONTE E À TOA

O NOSSO ARRELIANTE         

Com a cabeça atada assim e as ventosas a prolongarem-lhe as maçãs do rosto de modo nenhum o nosso Arreliante nos parecia ele. Quem teria sido capaz de o monstrualisar de tal maneira? A pergunta ficar-se-ia por este «quem» se não fosse o fio de sangue que vinha de debaixo do pano de camisa que servia de ligadura. Isso exigia uma identificação policial antes mesmo de qualquer diagnóstico em hospital. E foi disso que imediatamente tratámos. Justiça! Gente selvagem! E por aí à solta! Que falta de bons caçadores! Por mais arreliante que o nosso protegido fosse, realmente era-o muito, ao ponto de termos feito desse adjectivo um nome próprio esquecendo-nos de pensar em algum nome de baptismo que haveria de ter, ninguém, a não ser um perigoso selvagem, poderia tratar com tanta brutalidade o desajeitado e infeliz rapaz. Já há uns tempos que o protegíamos. Andaria ao deus-dará e num daqueles dias de mau tempo em que todos os bichos do campo ou se protegem ou correm risco de vida veio acolher-se na cocheira entre os nossos animais. Trouxemo-lo para dentro de casa, lavámo-lo e vestímo-lo, comeu, foi muito impressionante vê-lo comer, nunca imagináramos que o comer pudesse dar tamanha ventura a um ser humano, improvisámos uma cama na larga passagem coberta que nos permite irmos da cozinha para as arribanas sem precisar de sair à rua. Ali se aquietou. No dia seguinte não foi preciso chamá-lo, já estava à espera de lhe darmos de comer. Comeu, não o mandámos embora, mas saíu e foi-se afastando ora a voltar-nos a cara em cara feia ora a voltá-la para nós com um grande sorriso. Ficámos a olhar-nos em interrogação: donde viera? para onde ia? Nem nesse primeiro dia nem até hoje tentámos encontrar resposta. Mas que de dias a dias ele nos habituou a irmos encontrá-lo entre os nossos animais, isso sim, tornou-se em mais uma das nossas rotinas. De todas as vezes o lavávamos e vestíamos e comia e dormia naquela cama improvisada e por mais que parecesse feliz com isso e por mais que lhe pedíssemos que não voltasse a meter-se entre os animais, sempre fez o mesmo. Arreliante! Tanta vez nos ouvimos a dizer é arreliante que começámos sem dar por isso a chamá-lo assim. «Cá temos outra vez o nosso Arreliante» – sempre esta conversa. Assim se explica que um simples adjectivo possa chegar a nome próprio e que muitos selvagens possam andar por aí com muito menos direito à liberdade do que um pobre rapaz mudo que não nos diz donde vem nem para onde vai nem também consegue habituar-se a vir ter connosco directamente. Será que é melhor acolhido pelos nossos animais? Se assim é, esses não no-lo vão querer descobrir. É arreliante! Seja como for, se não voltar depois de sair do hospital, acho que vamos ficar arreliados. Porque, antes um mundo de arreliantes do que um mundo de selvagens por aí à solta.

L. V.

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