quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A MONTE E À TOA

clip_image002
POEMA DE AINDA UM COPO POR UM VELHO AMIGO
só venho por contar uma história
ainda não sei bem como
recuso-me a desejar que seja em poema
ou de outro modo qualquer do nosso catálogo
as coisas têm de acontecer sem qualquer compromisso
e no fim
se nos tivermos entendido não apenas no dito
mas também num modo sério de ir por uma expressão de arte
ainda bem e sinto este desejo de repetir
ainda bem

de dias a dias naquele mês de aldeia em verão
lá pela tarde
o nosso encontro de amizade delicadamente cuidadosa
e de antigas e firmes raízes
pedia sempre uma partida de bisca de quatro
e de vez em quando um copo

o tio jacinto soubera viver
e agora que o peso da idade o prendia em casa
ainda era admirável o seu estar em si e connosco
toda a gente que passava
e quem vinha que era mesmo para com ele passar um bocado

no verão sentava-se à porta de casa
bem disposto
apoiado ao seu bordão
sempre que não tinha as mãos ocupadas
debruçava-se no seu bordão
um rijo pau do mato que bem cortou
e depois descascou e deixou secar à sombra lá atrás no palheiro
belos tempos

voltada ao nascente
a casa oferecia
às nossas tardes
sombra amena
e nessa tarde
foi o caso
que hoje conto

o tio jacinto tinha muito colado em seu semblante
um permanente sorriso de apreciador do bom espírito
quando dizia uma das dele era de mais para nós
mas ficava-se por si como se nada houvesse de que rir
mantinha-se naquele mesmo velhaquinho sorriso
e os olhos como sempre meio fechados meio abertos
vendo tudo como quem não dá por nada
de vez em quando levantava-os e o seu brilho
era do melhor que uma sensibilidade inteligente produz

com a idade
a dele e a minha
aquela sabedoria sem o peso próprio de algumas seriedades
aquele tornar leve o estar no tempo
que admirei desde quando em meus verdes anos
sobrando-lhe muitos dias das suas
ia trabalhar nas terras de meu avô
fizeram de nós uns amigos
que muito bem se entendiam
homem ainda novo eu
e ele um velho ainda com muito fôlego

nessa tarde em que eu ia
em depois de jogarmos mais uma partida
para o habitual até-à-próxima de quem
vai voltar ao seu serviço num longe da pequena localidade natal
o tio jacinto pediu-me para lhe trazer o garrafão
«enchogalhou-o» e sorrindo como sempre
dirigiu-me o seu olhar brilhante e disse
ainda tem vinho para mais esta nossa despedida
podes trazer os copos

foi o nosso último copo
ainda sinto a grandeza simples
desse momento da mais rica humanidade
e finalmente digo aqui
o que nunca disse a ninguém
e nem sei por que agora o digo

é assim
quando estou sozinho
se é para beber um copo bebo dois
é pelo tio jacinto
o inesquecível amigo
que antes de me pedir que trouxesse copos
mandou-me pelo garrafão
e só depois de o «enchogalhar» em sua mão que media
então me disse
ainda dá para…

e deu…
até hoje…
até sempre?…

R. V.

Sem comentários:

Enviar um comentário