domingo, 23 de setembro de 2012

NESTA RODA ALARGADA DE AMIZADES

Ccordato da silva S(4)  
«VIDA – PALAVRA SEM ANTÓNIMO» 
 «Que conversa é essa?» - ripostou-me o nosso Cordato quando abruptamente lhe atirei para os ouvidos esta de «vida – palavra sem antónimo».
Retorqui:
«sim ou não?».
Pode qualquer um perguntar a algumas pessoas e a seguir a muitas mais:
«antónimo de morte?»
Quantas hesitarão? Alguma?
- «vida».
Ninguém hesitou.
Aparecerá ainda uma, uma sequer, que não diga nada e apenas nos ponha diante dos olhos a página 219 de Entre Dois Universos de Fidelino de Figueiredo?
Recordo o sentimento de ternura da minha primeira leitura deste capítulo  «Vida – Palavra sem Antónimo»,  o VI de tão preciosa obra:

«O vocábulo vida exprime a constância ou a vigência de um estado de longa duração. (…) O vocábulo morte não designa um estado, mas apenas aponta um facto de instantânea duração». (…) Uma revolução numa pequeníssima norma gramatical: o rigoroso antónimo de morrer é nascer».

Faz impressão, a seguir a algumas páginas deste livro de 1959, ler o que se lê na obra Diálogo ao Espelho, de 1957:

«É tarde – tarde no dia e tarde em mim ou em nós. A luz vai fugindo adiante de uma névoa pardacenta que vela e desfigura as coisas. Da minha janela contemplo a extensão brumosa e assisto à invasão do valezinho pobre pela nuvem espessa». (…) Hic fuit homo. Por aqui passou o homem. (…) É noite, muito noite. Vamo-nos deitar para antegozar a ventura do não-ser. (…) Noite cerrada. Já o mar de névoa desapareceu na caligem impenetrável. Vamos dormir. V. dorme com luz? Chame e peça-a:

Voy a dormir, nodriza mia, acuéstame.
Ponne una lámpara a la cabecera;
Una constelación; la que te guste:
Todas son buenas; bájala un pouquito.
ALFONSINA STORN

Boa noite! Durma bem! E não tenha pressa de acordar. Podia até esquecer-se disso. Um abraço fraternal.».

O livro Diálogo ao Espelho acaba assim.
Mas não era assim, não, que queria e devia terminar este texto. Perdoem amigos. Prometo que volto e digo ao que isto veio. Por agora até este pedido de desculpas está custoso. Fiquei com um aperto tal, que nem nó na garganta… E então quando olhei para as horas e ouvi em eco «boa noite durma bem e não». 

R. V.

2 comentários:

  1. Fico à espera do cumprimento da promessa.
    Abraço.
    o.

    ResponderEliminar
  2. Então vá, RV, cumpra a sua promessa e assim evita ter de pedir mais desculpas. Desate lá o nó da garganta e diga ao que isto veio. A roda de amigos está à espera. Já fiz um Poker de Ases e nada de RV por aqui.
    Um beijo

    ResponderEliminar