terça-feira, 6 de novembro de 2012

«UM SORRISO FELIZ» inesperado fecha o primeiro romance de BRISSOS-LINO

O Homem que vivia para trás - Autor: Brissos Lino

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E se, enquanto esperamos pelo novo romance de Brissos-Lino, nos sentássemos em conversa de ressonância à nossa leitura de o Homem que Vivia para Trás?

 Ao que se está sabendo, portanto, já não é de se dizer que este é o romance de Brissos-Lino, mas sim o seu primeiro romance.

Brissos-Lino não é um nome novo nas nossas estantes. No acrescentar-se da sua obra, porém, este primeiro romance foi uma agradável surpresa.

A narrativa nasce numa barafunda de comício em que é envolvido o jornalista de serviço, mas constrói-se é numa situação existencial limite em que por essa mesma personagem, erigida em protagonista, vamos sendo conduzidos num duplo registo do contar, até ao final perturbador.

 Situação limite, sem dúvida.

«Naquela manhã ainda cedo, Samuel dirigiu-se ao hospital para fazer os exames. (…)

Poucos dias depois voltou ao médico e mal entrou percebeu logo, pela postura dele, que havia ali qualquer coisa de errado.

Perante os relatórios dos exames não havia margem para dúvidas no diagnóstico. Samuel Bernardes tinha uma leucemia aguda.»

Se a partir daqui se espera que o desenlace seja ou morte ou cura, a surpresa vai ser essa: num acidente de viação sem sentido, quem morre, depois da grande aventura que foi andar à procura dele por esse mundo de Deus em que se tinha sumido, é o irmão, que em compatibilidade de medula lhe vinha salvar a vida.

«Ao cair da noite os dois irmãos regressavam a Lisboa pela marginal. O Miguel gostava de fazer a estrada calmamente à noite, ver o rio iluminado pelas luzes urbanas de todas as localidades até Lisboa. (…) Tinha atravessado a marginal para conseguir umas fotos melhores da praia nocturna. Na volta cruzou a estrada, de novo fora da passadeira, a olhar para o ecrã digital da máquina fotográfica, encantado (…).

Morreu logo no momento do choque, agarrando decididamente a máquina com as duas mãos e toda a força, contra o peito. E na cara um sorriso feliz.»

Ninguém que já tenha lido o romance vai ficar pensando, ao reler neste destaque a cena final, que em deprimente modo de a ela chegar o romance se desenvolve. Pelo contrário. Porque do romancista vem ao seu jornalista uma ideia consentânea com a sua necessidade de encontrar o irmão, não apenas no lugar desconhecido onde se encontra, mas também no afecto fraternal em que desencontrados estavam a quando da separação.

Para comunicar com o irmão, ele, Miguel Bernardes, jornalista afamado, vai aceitar o convite «do tipo dos jornais que me anda a chatear há imenso tempo para escrever uma crónica».

Crónicas com as suas memórias de infância. «Pode ser que o Miguel calhe a ler e contacte comigo».

Por favor, «nesta roda alargada de amizades», queiram, amigos, ler algumas dessas crónicas e depois voltemos a conversar. Por exemplo esta: «Ó Albertino tens cá disto?», na página 106 e seguintes. De um modo constante, a caracterização das personagens nestas «estórias» é tão interessante que é difícil não desconfiar de uns toques em pauta autobiográfica.

Divirtam-se tanto como eu. Nem por isso fugir à questão proposta no contraste entre a vida ameaçada por uma terrível doença, a de Samuel, e a vida sorridente de Miguel, que é a que nos morre nas mãos. Acontece antes, um pouco antes das últimas, mesmo últimas palavras, que são estas: «um sorriso feliz».

O mesmo de sempre: a vida é sem outro modo de segurança e confiança que não um sorriso de quem aceita em liberdade a condição humana, perante a sua verdade a aceita, num mundo que deve ser de irmãos e que é um paraíso de explendente beleza, oferecida aos olhos de quem a procura e descobre em artista, seja fotógrafo ou simples transeunte.

R. V. 

1 comentário:

  1. Obrigado pela referência e gentileza, meu amigo "livreiro velho".
    O próximo está pronto a editar, mas só em 2013.
    Um abraço,
    Brissos Lino

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