quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

CONCORDÂNCIAS

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Foto de URBANO BETTENCOURT



O PONTO DE ENCONTRO

quando a flor é o que resta
em qualquer mesa
ou na tribuna dos teus discursos

aprendo a ler a inutilidade do mais

de tudo o mais
que pretendi
oferecer-te

 

dirás que não

e que do muito trabalho

à nossa mesa veio o pão  com que sustentámos as crianças

 

propositadamente farei um silêncio

tu ao escutá-lo vais para os meus levantar os teus olhos

e ver o condescendente sorriso da minha concordância

 

nesse momento começas a abrir o teu delicado sentimento

ao sentido da crença em que sempre viveste 

em que desde sempre construímos
o nosso ponto de encontro

 

nenhum dos nossos justapostos acordos ou compromissos

nem sequer juras e muito menos sociais respeitos

desviaram do significado da flor

o íntimo entendimento

 

a sua tão clara inutilidade sendo assim tão verdadeira

para a podermos entender em aparente

quando a chuva da tarde em torrente arrastar
para um qualquer fora de nós a colheita

em que o tanto e tudo nas sucessivas estações foi investido

 

no dia em que um inteiro silêncio for a última flor 

perfuma com a sua inutilidade os teus sorrisos

e proclama a verdade do íntimo segredo

em que desde sempre construímos

o nosso ponto de encontro

 

R. V.

4 comentários:

  1. Um belo poema, sim senhor!
    A força que este homem arranja!
    Abraço.
    onésimo

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  2. Lindo, Tio, esta partilha, este ponto de encontro na sua roda alargada de amizades!Se calhar devíamos, todos, voltar a pôr flores nas nossas mesas. Torná-las úteis, para regalo dos olhos.

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  3. Este tenho mesmo de comentar. Soberbíssimo e merecedor de melhor fortuna. Um dos melhores pedaços de verbo que já me foi dado sentir.
    Obrigado.
    Nuno Miguel

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