domingo, 16 de dezembro de 2012

«LEITORES VERDADEIRAMENTE INTERESSADOS» - uns bilhetes de entrada nas «conversas transatlânticas com Onésimo» - III

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Estou de volta a Utopias Em Dói Menor. De onde volto? Da leitura de umas quantas páginas do livro De Marx a Darwin – a desconfiança das ideologias e do ensaio José Enes e a “Autonomia da Arte”: uma injustamente tardia revisitação (In Caminhos do Pensamento – estudos em homenagem ao Professor José Enes).

Quem já leu o encerramento destas «conversas transatlânticas» de Onésimo Teotónio Almeida com João Maurício Brás sabe que até fui convidado a essa digressão:

Só espero que os leitores verdadeiramente interessados consigam passar desta conversa um tanto pela rama para a leitura dos textos onde desenvolvi com mais tempo, espaço e mesmo com mais esmero as questões aqui afloradas (p. 274).

1.

O interessante é que foi difícil decidir entre voltar imediatamente atrás, para uma leitura ainda a quente de ao menos algumas partes para mim mais sensíveis ou interrogativas do Utopias e a necessidade de ir mais longe na compreensão das ideias de O.T.A. sobre dois pontos concretos: Natureza humana e Estética.

 

2.

Já agora aproveitei para também reler no De Marx a Darwin o ensaio sobre a ignorância. Um regalo, relê-lo de vez em quando, a este ensaio! Desde antes, até, de vir a capítulo de livro e pouco depois de ir a Évora com o seu autor. Uma preciosa achega para quem desde há longos anos…

A ignorância! Aprendi-me em muito aprender a viver com a ignorância. Irremediavelmente.

Pior terá sido nela esbarrar num à minha volta de ignorantes em demasia e, pior, muito pior, de ignorantes sabichões?

Porque, talvez, o pior não tenho sido…

 Chego a perguntar-me se nalgumas circunstâncias não terá sido reconhecer-me em ignorância o que me salvou a vida!

3.

Na verdade, em que sentido poderíamos falar de uma unicidade de conhecimento se, para qualquer lado que nos voltemos, nos deparamos constantemente com fragmentos, divergências e caminhos aparentemente irreconciliáveis? (De Marx a Darwin, p.91)

4.

Talvez, neste ponto dos bilhetes, depois de ir ler o que OTA não aceitaria de um tanto pela rama, possa perguntar aos leitores verdadeiramente interessados: este Utopias é um livro académico viciado pelo humano ou um livro humano viciado pelo académico?

É que…

Para mim, já que perguntei respondo, um e outro juntos aqui estão no muito certo.

É comum interpenetrar os dois em livros semelhantes. De momento recordo-me dos casos de Karl Popper, Jean Guitton, Mircea Eliade e Hubert Reeves. Boas companhias para o nosso Onésimo.

5.

Por natureza humana e estética do académico fui a outros livros. Agora, de volta, sem que menos preze o académico, estou no bom momento para destaque do humano

Sei de vários amigos comuns que nestes últimos dias se foram adiantando na leitura do livro. Por isso vou pedir que, em respeito, admiração e homenagem a um homem cujos sessenta e seis anos já nos permitem uma séria e serena avaliação de percurso, leiamos em uníssono esta passagem:

Acho que posso dizer que a vida foi-me acontecendo. É óbvio que as minhas escolhas resultaram e resultam de valores, gostos, preferências. E esses eu tenho-os. Talvez porque nunca me senti ameaçado na minha existência e na minha maneira de ser, procurei e vi-me sempre num lugar natural que corresponde ao meu modo de ser. E, no que estiver ao meu alcance, terei sempre a preocupação de deixar tudo um pouco melhor do que quando cheguei. Que aquilo onde eu puser as minhas mãos ou até onde chegar a minha presença, possa de algum modo beneficiar dela (p. 204).

6.

O uníssono que pedi para a leitura desta página, imagino-o agora a prolongar-se em nova leitura, comovidamente solitária e silenciosa, incluindo, talvez, a do seu próprio autor, participante habitual que é «nesta roda alargada de amizades».

Desculpa, Onésimo…
É que se me impôs ao sentimento este vir relê-la, a esta página, precisamente hoje, um dia em que o humano é chamado a maternalmente afirmar que não se é mais humano por se viver na contemplação das misérias do mundo, sobretudo se a solução dos problemas nos escapa por completo (p. 155).
De modo que acho preferível passarmos os dias de maneira mais construtiva…

A nossa vida é muito curta(p. 154).


R. V.

1 comentário:

  1. O autor lê e pensa: Olha, agora sei que pelo menos tive um leitor.
    E um já vale. Por ser um leitor deste calibre, posso multiplicar por muitos pois vale bem muitos.

    Um grato abraço do

    onésimo

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