segunda-feira, 30 de abril de 2012

CONCORDÂNCIAS

TALVEZ UM APAZIGUAMENTO
aceitarias o meu gesto se riscasse no teu céu as linhas que no meu se recortam em vertentes de montanha subindo ao cume e criando a perfeição do ponto mais alto?

talvez um apaziguamento de misérias e revoltas no elevar dos teus olhos para a beleza do verde iluminado por este sol da tarde

não tentes compreender o que morre como quem prefere iludir a ignorância trocando a vontade de aprender pelo conforto das crenças pois bem sabes que o engano sempre nos espera do lado das preferências quando estas são as nossas fugas a olhar de frente

vive depressa ou vagarosamente mas sem te negares à última análise em que tudo o que fica entre a dor e o prazer é a beleza das tardes a beleza em si mesma tu apenas momentâneo acréscimo

quando aprendeste a cultivar a beleza também sentiste a fome a dizimar os teus parentes e até hoje és um dividido entre um que vê o cume da montanha em beleza e outro o fundo do túmulo em visão de horror

prende-te e desprende-te porque é isso a vida quando a reconheces na certeza do ocaso em que tudo o que vem dizer-se amanhã não é a tua inteira verdade

entre o cimo da montanha e o teu túmulo deixo-te na luz do verde em que repouso o meu olhar e também a ti te convida ao conforto da beleza
R.V.

sábado, 28 de abril de 2012

A. Cunha de Oliveira, «original poeta»

A poucas horas da nossa sessão com A. Cunha de Oliveira, que nos vem apresentar a sua obra mais recente, Jesus de Nazaré e as mulheres – A propósito de Maria Madalena, uma edição do IAC-Instituto Açoriano de Cultura, releio o seu primeiro livro, A Cidade e a Sombra. Que extraordinário conjunto de poemas! Publicado com Silva Grelo como autor. Um pseudónimo de alguém cuja poesia marcou profundamente os jovens que éramos na altura.
Vou aqui transcrever, amigos, um desses poemas, enquanto vos espero para a sessão deste domingo, às 16,30h., aqui na Culsete.
Tínhamos escrito de A. Cunha de Oliveira que era «original poeta». Justificadamente.

ÚLTIMA CANÇÃO

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

Não há perigo. E o mar já não é mar,
   mas uma praia de gente que me espera.

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

O céu festeja esta chegada
como chorou minha partida.
É dia.
Há muita gente na praia
que me escuta e não me ouve.

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

Dorme a cidade também.
E o mar, beijei-o nos olhos
que a noite havia cerrado.

Dorme, timoneiro do meu barco, dorme.

Não há perigo. E o mar já não é mar.
E se eu velo, timoneiro, porque não dormes?

Sicília, Agosto de 1950

(Silva Grelo,
A Cidade e a Sombra,
pág. 38,
Cadernos do Pensamento – 2,
Angra do Heroísmo,
Maio de 1954.)


L. V.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

A. CUNHA DE OLIVEIRA e os seus livros, as suas investigações, as suas ideias–uma tarde memorável: PRÓXIMO DOMINGO

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Confesso que é um grande orgulho para nós recebermos na Culsete o nosso Dr. Artur Cunha de Oliveira e propormos a leitura dos seus livros.
Tenho-os na mão: enciclopédicos!

Confesso que gostaria de que muita gente lesse e ouvisse Cunha de Oliveira e depois me contasse as suas impressões.

Confesso que a expectativa desta tarde de domingo me traz em impaciente desejo de lá chegar e ver e ouvir e ler e sentir.

Conheci A. Cunha de Oliveira quando tinha dezasseis anos. Seu primeiro ano de professor, meu primeiro ano de seu aluno. Nesse ano e seguintes foi Grego, depois Sagradas Escrituras e ainda Sociologia. Seis anos seguidos de aulas. Depois disso… E hoje continuo a aprender com um mestre que invejo. 
Tenho setenta e seis. Contas? Mestre! Meu mestre durante já sessenta anos!

Que posso mais dizer?
Não creio que seja necessário. Só pedir a quem já ontem visitou este nosso blogue que me permita uma repetição: 
Personalidade riquíssima! 
L. V.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

DOMINGO 29 DE ABRIL NA CULSETE COM A. CUNHA DE OLIVEIRA E… (SE MUITA GENTE LEU O DAN BROWN? MUITA! MAS ELE…)

  http://chapeuebengala.blogspot.pt/2011_09_01_archive.html

No próximo domingo, 29 de Abril, pelas 16:30h, na Livraria Culsete, o especialista em Estudos Bíblicos A. Cunha de Oliveira irá apresentar o seu último livro, Jesus de Nazaré e as mulheres – A propósito de Maria Madalena, editado recentemente pelo IAC-Instituto Açoriano de Cultura.

Trata-se de um livro invulgar. Obra densa e complexa, mas em estilo acessível ao comum dos leitores, abrange tantos temas quantos se adivinham no subtítulo: «a propósito».

Jesus de Nazaré e as mulheres – A propósito de Maria Madalena é obra de um cientista em Ciências Bíblicas que continua a atualizar os seus saberes. Talvez por isso o encontramos com uma permanente vontade de aprender e uma vontade generosa de oferecer-nos quanto aprende e sabe.

Para Setúbal é um privilégio acolher esta apresentação, o que não deixará de ser reconhecido por quem já compulsou o livro ou vai ter agora ocasião de o compulsar.

Após terminar em Roma a sua especialização em Estudos Bíblicos, Cunha de Oliveira em 1951 regressou aos Açores, donde partira em 1945, pouco depois de terminada a II Guerra Mundial. Depressa se tornou conhecido a muitos títulos: competente professor, original poeta, jornalista influente, político na primeira linha. Personalidade riquíssima, é um dos mais importantes nomes da história recente não apenas da vida intelectual açoriana, mas da política e de toda a dinâmica social, com influência para além das ilhas. Durante alguns anos a sua ação estendeu-se também aos Estados Unidos, onde viveu e trabalhou, sendo a sua atividade jornalística muito apreciada nesse país. No regresso, a sua ação política foi notável, quer nas funções que exerceu no arquipélago, quer em Bruxelas, como deputado europeu.

Além do livro a apresentar no próximo domingo, publicou recentemente outros dois volumes de ensaios, que estarão igualmente na montra da Culsete, Um Novo Conceito de Europa e outros Ensaios e Jesus Profeta do Islão e Outros Ensaios.
FRM/MM

terça-feira, 24 de abril de 2012

CARANGUEJAR? PODE DIZER-SE?

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Como é que eles conseguem andar com a mesma rapidez tanto para a frente como para trás? –perguntava eu, em criança, ao tentar apanhar os caranguejos.
Talvez não faça ou tenha qualquer sentido, mas foi dos caranguejos que me lembrei nesta noite de 24 de Abril de 2012: a Feira do Livro começou em bases iguais às de sempre e os capitães de Abril voltam a estar revoltados. Como é que…?
V. L.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

DIA MUNDIAL DO LIVRO? EM QUE MUNDO?



23 de Abril de 2006

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1.
Entre 2012 e 1996, escolhemos o ano 2006 para documentar a afirmação de que é verdade que alguma coisa se tem feito. Os vivos e os mortos são testemunhas, para além de cúmplices. Mas há mais uma razão para evocar 2006. Aquela palavra do cartaz, Primavera de Livros, evoca um célebre acontecimento. Vale a pena lembrar o importantíssimo acontecimento dessa Primavera de 2006? Aqui se evoca hoje o lançamento do Plano Nacional de Leitura, sintomaticamente desviado de festa em 23 de Abril para festa na inauguração da Feira do Livro de Lisboa: (http://alcameh.blogspot.pt/2006/06/o-pnl-na-feira-do-livro-de-lisboa.html#!/2006/06/o-pnl-na-feira-do-livro-de-lisboa.html).
Saudou-se o lançamento do Plano Nacional de Leitura. Criticou-se a exclusão das livrarias na nomeação explícita de parceiros. De qualquer forma foi uma grande esperança e nem tudo foi perda de meios e entusiasmos. Mas não vale a pena perguntar se toda a gente que acompanhou o desenvolvimento do PNL está satisfeita. Alguns dos seus críticos bem que podiam dizer e fazer mais qualquer coisa.

2.
O modelo de celebração do Dia Mundial do Livro continua a ser a Catalunha e especialmente Barcelona, com a sua bela tradição de uma rosa e um livro. Copiá-la ou adaptá-la?
No primeiro ano, de colaboração com a APEL, os catalães fizeram chegar as rosas às livrarias portuguesas para implementar o Dia Mundial do Livro, cuja proclação pela UNESCO era a consagração do seu festivo 23 de Abril. Cópia sem continuidade. A tradição da rosa é local, muito anterior a 1926, quando se lhe junta o livro. Não deixa de ser linda, mas implantá-la… E a adaptação? Ao longo destes anos todos como se afirmou em Portugal a comemoração do Dia Mundial do Livro?

3.
Repetir, antes de responder, que alguma coisa se tem feito. Mas…
Não parece contestável a afirmação de que em Portugal tem pouca expressão a comemoração do Dia Mundial do Livro. É pena. Um país que, finalmente e já há algum tempo, se apercebeu do seu atraso quanto a níveis de leitura, só sabe fazer alguma coisinha por contabilidade e sem visão de rentabilidade. Editores? Festa do Livro, para os editores portugueses, são as suas anacrónicas Feiras do Livro. Pintadas de fresco embora, continuam anacrónicas. Nenhum livreiro pode aceitar o modo de ver que consagra um tal anacronismo. O que é de pasmar é que, salvo raríssimas excepções, dele não se tenham apercebido os nossos intelectuais. Pelo contrário, é vê-los em sessões de autógrafos a fazer o jogo das aparências, umas vezes com real promoção de vendas, mas em grande parte apenas com promoção de moscas.

4.
Respirar em vício de Portugal das Lamentações não é o mais saudável. Há que fazer mais e queixar menos. Mas não é por isso que se deixará de acusar quem tem culpa. Acusemo-nos a nós mesmos, os livreiros que desejam de há muito um outro modo de estarmos com os livros na sociedade portuguesa. Há muito que devíamos ter-nos reunido e unido para conseguirmos fazer do 23 de Abril de cada ano o dia da nossa festa. Adaptarmos a celebração do Dia Mundial do Livro ao nosso ambiente deve talvez ser assumido como um dos temas fortes do Encontro Livreiro. Sem excluir, de modo algum, a promoção de vendas, mas acreditando que ela é promovida automaticamente pela festa. Dia Mundial do Livro, a Festa do Livro que os livreiros promovem como sua? E se…? Mas que é possível, isso é.
L. V.

domingo, 22 de abril de 2012

«LIVROS QUE TOMAM PARTIDO»: Quem perdeu… ainda que…

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I

DOIS TEXTOS

PREVIAMENTE

DISTRIBUÍDOS

PELO CONFERENCISTA

AOS PARTICIPANTES

TEXTO 1

Livros que tomam partido:

A edição de caráter político em Portugal no período 1968-1982

Expositor: Flamarion Maués, doutorando em História na Universidade de São Paulo e investigador do

Instituto de História Contemporânea/UNL. Bolsista da Capes/Brasil Email: flamaues@gmail.com. Pesquisa realizada

com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, Portugal.

Comentador: Nuno Medeiros (CesNova, especialista em sociologia e história do livro e da edição)

Dia 21 de Abril de 2012 (sábado) – 16 horas.

Livraria Culsete, Avenida 22 de Dezembro, 23 A/B, em Setúbal

Viemos com o peso do passado e da semente/ Esperar tantos anos torna tudo mais urgente

e a sede de uma espera só se estanca na torrente (“Liberdade”, de Sérgio Godinho)

 

Objetivos propostos na pesquisa:

1) Identificar as editoras que publicaram livros de caráter

político em Portugal no período 1968-1982 e examinar as

vinculações políticas que tinham;

2) Realizar o recenseamento das obras de caráter político

publicadas neste período, buscando verificar a quantidade

de títulos lançados, sua abrangência, seus autores e os

temas abordados;

3) Identificar as pessoas e organizações responsáveis por

essas editoras e publicações, e entrevistar algumas delas.

Síntese:

- 145 editoras publicaram livros de caráter político em

Portugal no período 1968-1982.

- Cerca de 4.600 títulos de caráter político publicados no

período.

- Editoras de variados tipos, desde aquelas claramente

políticas e militantes, passando pelas de caráter

acadêmico, cultural e literário, até as editoras comerciais,

que por razões circunstanciais editaram então algumas

obras políticas

Ressalva importante

Estas 145 editoras não abrangem, de forma alguma, o

quadro completo das editoras atuantes em Portugal no

período 1968-1982. Trata-se tão-somente do quadro das

editoras que realizaram edições de livros de caráter

político naquele período. Isso significa que há todo um

outro universo de editoras, também atuantes no período,

que não fazem parte desse quadro, por não terem este

perfil político. Assim, os dados e as análises que

apresento são sempre restritos ao universo das 145

editoras que compõe o que podemos chamar de “edição

política” em Portugal entre 1968 e 1982, e não ao setor

editorial português como um todo.

Os livros de caráter político antes do 25 de Abril

Boa parte da literatura marxista e socialista foi publicada

em Portugal ainda durante o governo de Marcelo

Caetano, e, com maiores ou menores dificuldades e

perseguições, estava disponível ao público de estudantes,

militantes e simpatizantes que tinha um interesse mais

imediato por tais obras – e que conhecia os caminhos

para ter acesso a elas.

Os livros no pós-25 de Abril

Com o fim da ditadura a situação referente à edição de

livros de caráter político modificou-se significativamente,

pois passou a ser possível publicar tudo sem restrições

legais, sem perseguição policial e, principalmente, houve

um grande aumento do interesse por este tipo de livro.

Cresceu como nunca o número de editoras e de livros

publicados, dos quais parte significativa era de cunho

político e com perfil de esquerda.

Um ponto importante é diferenciar 1) as editoras que

publicaram obras de caráter político (que formam a lista

de 145 editoras) e 2) as editoras de caráter político, que

formam um subgrupo composto por 98 editoras. No

primeiro grupo estão todas as editoras que publicaram

pelo menos três títulos de caráter político no período

1968-1982, incluindo editoras comerciais, ecléticas,

religiosas e acadêmicas. No segundo grupo, mais restrito,

estão apenas as editoras cujas publicações são

predominantemente políticas e cuja linha editorial reflete,

de modo consistente, uma certa posição política

(esquerda, direita, liberal, anarquista etc.).

Classificação dos livros de caráter político:

livros de contestação política, com críticas a Salazar ou

ao Estado Novo; livros de, ou sobre, presos políticos;

obras questionando a política colonial, questões

econômicas e agrárias; livros que abordavam sob uma

perspectiva crítica a visão oficial da história; obras,

estrangeiras ou nacionais, de ideologia socialista

(“comunizantes” ou “subversivas”, segundo a censura do

regime salazarista); livros que tratassem da pobreza, das

condições de vida e das desigualdades sociais em

Portugal.

Depois de abril de 1974, também: obras que descrevem

a repressão durante o salazarismo; livros sobre os países

socialistas; textos de organizações de esquerda;

documentos dos movimentos de libertação africanos;

títulos que haviam sido proibidos; obras de divulgação

das doutrinas socialista e comunista. Há também, de

forma minoritária, toda uma linha de livros de direita,

anticomunistas e contra a independência dos países

africanos.

 

TEXTO 2

Conclusões preliminares

- Um dos aspectos mais importantes dessa ampla

difusão de livros, independentemente de seu viés

político e de sua qualidade intelectual, é que a

história e a realidade mais recentes de Portugal

começaram a vir a público e a ser conhecidas

por amplas camadas da sociedade, de uma

maneira totalmente diferente do que ocorria até

1974. E isso certamente foi importante para

ajudar a transformar o país.

- As editoras de caráter político – e as obras por

elas editadas – constituíram-se em destacado

sujeito do processo político português, seja nos

anos que antecederam ao 25 de Abril, seja no

processo desencadeado a partir daquele

momento.

- Os livros políticos tiveram grande aceitação no

período 1968-1982, principalmente em 1974-

1975. A lista de livros mais vendidos publicada

em 1974 e 1975 pelo semanário Expresso

mostra sempre os livros de caráter político

dominando as vendas. Esse é um dos

indicadores da repercussão, da circulação e da

possível influência social que estas publicações

tiveram naquele período.

Parece claro que estas editoras desempenharam

um papel político-ideológico e social de alguma

relevância a partir de 1968 e, principalmente,

desde Abril de 1974. Forneceram subsídios aos

debates, trouxeram idéias novas e reavivaram

outras, refletiram o pensamento e as propostas

de cada um dos agrupamentos políticos

existentes, proporcionando canais de expressão a

esses agrupamentos, oxigenaram a sociedade

que até então tinha o acesso limitado ao

pensamento inovador, contestador ou

simplesmente reformista, enfim, colaboraram

para tornar Portugal um país mais aberto, livre e

moderno.

Indicadores da editoras que publicaram

livros políticos em Portugal/1968-1982

Lisboa e Porto concentravam a produção

- A grande maioria das editoras se concentrava

nas duas maiores cidades do país. Lisboa

sozinha reunia mais de dois terços das editoras

(99 editoras ou 68,3%), e no Porto estavam

15,2% delas (22 editoras). Outras três editoras

que tinham a sua sede dividida entre as duas

cidades (2,1%). Somadas, as duas cidades

sediavam 85,6% destas editoras.

A maioria das editoras surgiu a partir de 1974

- Mais de metade (76 editoras ou 52,4%) das

editoras do nosso levantamento surgiu a partir

de 1974, ou seja, sua história está diretamente

relacionada com o fim do regime fascista em

Portugal.

- Apenas nos anos de 1974 e 1975 nasceram

40% destas editoras (58). Nesse período a

agitação e a participação políticas atingiram

níveis nunca antes vistos no país.

Mais de 2/3 das editoras tinham perfil político

- 98 editoras (68%) podem ser caracterizadas

como políticas, ou seja, suas publicações

seguem certa posição política (esquerda, direita,

anarquista etc.).

- 29 editoras (20%) se encaixam em um perfil

mais comercial. Publicavam livros políticos,

mas o que definia a sua linha editorial era o

aspecto comercial.

- As restantes 18 editoras (12%) estão

classificadas em outras categorias: eclética,

religiosa ou acadêmica.

50% das editoras eram ligadas à esquerda

- 50,3% das editoras analisadas eram ligadas ou

simpáticas às ideias de esquerda. Isso sem

dúvida reflete o clima político dos anos 1974-

1975, quando os grupos de esquerda passaram a

ter um protagonismo político inédito em

Portugal. Somente nestes dois anos foram

criadas 38 editoras ligadas à esquerda.

- As editoras de direita representavam apenas

9% (13 editoras), das quais apenas duas

surgiram nos anos 1974-75. A maioria (8

editoras) surgiu após 1976.

60% das editoras eram de pequeno porte

- 91 editoras (62,8%) publicaram até 20 títulos

durante a sua existência, sendo que 51 editoras

(35,2%) publicaram dez títulos ou menos.

- Entre as pequenas e micro editoras, 39 eram de

esquerda, quase sempre ligadas a pequenos

grupos de extrema esquerda. Mas a maior parte

das editoras de direita também pertence a este

subgrupo: 10 das 13 editoras de direita.

- 45 editoras (31%) editoras de porte médio

(publicaram entre 21 e 100 títulos políticos no

período). Destas, 30 editoras (20,7%)

publicaram 50 títulos ou menos, e 15 (10,3%)

publicaram entre 51 e 100 títulos.

- 9 editoras publicaram mais de 100 títulos:

Avante!, Afrontamento, Bertrand, Centelha,

Dom Quixote, Estampa, Iniciativas Editoriais,

Prelo e Seara Nova.

- Estas 9 editoras foram responsáveis por mais

de 1/3 dos títulos políticos editados no período:

cerca de 1650 títulos, que representaram por

volta de 36% do total.

- 4 destas editoras estavam sob marcante

influência do Partido Comunista Português

(PCP): Avante!, Estampa, Prelo e Seara Nova

(desde 1974). Outras duas (Afrontamento e

Centelha) ligavam-se à esquerda não vinculada

ao PCP. As editoras Dom Quixote e Iniciativas

Editorias ligavam-se a setores da oposição, mas

não necessariamente à esquerda. E a Bertrand

era (e é) uma editora de cunho marcadamente

comercial e eclético.

II

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UM EXCELENTE GRUPO

Quem perdeu a anunciada conferência de Flamarion Maués «Livros que tomam partido – a edição política em Potugal no período 1968-1982», ontem proferida na Culsete, ainda que o não sinta, perdeu muito.

Antes numa livraria em Lisboa e agora numa livraria em Setúbal, Flamarion Maués a dar conta de uma cuidada e exaustiva investigação, acompanhado por Nuno Medeiros, um comentador com provas dadas no campo da investigação da edição portuguesa.

Perderia pouco se houvesse mais uma oportunidade, mas, ao que se sabe, não vai haver. É pena que principalmente os jovens, mas também os menos jovens estudiosos do mundo dos livros e em geral das situações sociais não tenham aparecido em massa a participar nestas sessões com Flamarion Maués. Talvez porque se até agora andaram distraídos do tema, não iriam sentir-se bem ao vê-lo tratado com tanto saber por um estrangeiro. Há coisas que admitem várias explicações…

Brilhantes, brilhantes!... Brilhante o conferencista. Brilhante o comentador.

Um excelente grupo de participantes ouviu na tarde deste sábado aqui na Livraria Culsete uma conferência, ao que se afirmou e se sabe, feita pelo primeiro e por agora único especialista sobre o tema. Um tema tão interessante e tão importante, como bem sabem todos aqueles que se lembram do que viveram.

Flamarion Maués vai agora regressar a S. Paulo para lá concluir este seu vastíssimo e tão valioso trabalho de investigação e apresentá-lo em tese de doutoramento. Gratíssimos, desejamos-lhe o merecido reconhecimento. E que, um dia, quem perdeu esta conferência venha a ler essa tese, publicada cá ou no Brasil.
L. V.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

ANTERO DE QUENTAL: 18 de Abril

image« P. S.:Não sei se recebeste um exemplar dos meus sonetos filosóficos, que há meses te mandei» (carta a João Machado de Faria e Maia)
«COMO CRIANÇA AGASALHADA SORRINDO»
Abril é mês de nascimento também de Antero, o santo poeta-filósofo. Nasceu em Ponta Delgada, neto do Ponte, o açoriano mais amigo do Bocage, sendo sua mãe, D. Guilhermina, natural de S. Julião de Setúbal, embora seu pai, Fernando de Quental, a tenha levado de Tomar em tempos das Viagens na Minha Terra.
18 de Abril de 1842. Há 170 anos. Faz hoje...
Quarenta anos depois, em 1882, o soneto «Na Mão de Deus». Venho de lê-lo na carta de Antero a João de Deus, datada de 20 de Julho desse ano, em recolha do sentimento para que todo o nascer sempre apela, no aquém e além de todas as desilusões do viver.
«E agora aí vai um soneto.Será talvez o primeiro de que gostes por mais alguma coisa do que só pela forma».
Leio e pergunto-me: ao escrever este «talvez» estaria Antero «sorrindo vagamente»? Uma criança agasalhada, de coração liberto, a sorrir desiludida?
«Talvez» que,  por  coração liberto» da «ignorância infantil», as escadas de descer se  mudem em escadas de subir.
Subir à paz de «criança agasalhada sorrindo».
R.V.

terça-feira, 17 de abril de 2012

A anunciada CONFERÊNCIA de FLAMARION MAUÉS: sábado, 21 de Abril, na CULSETE

http://chapeuebengala.blogspot.pt/2012/04/para-marcar-os-38-anos-do-25-de-abril.html

A-GUARDAR Por segunda-feira, 23 de Abril, DIA MUNDIAL DO LIVRO
A-GUARDAR POR QUARTA-FEIRA, 25 DE ABRIL, DIA DA LIBERDADE

UMA QUESTÃO ATÉ AGORA ESQUECIDA

Decorrerá no próximo dia 21 de Abril, às 16:00 horas, no espaço da livraria Culsete, em Setúbal, a apresentação da conferência «Livros que tomam partido: a edição política em Portugal no período 1968-1982», apresentada por Flamarion Maués, investigador da Universidade de São Paulo e do Instituto de História Contemporânea da UNL. A conferência será comentada por Nuno Medeiros, especialista em sociologia e história do livro e da edição.

Aberta a quem nela quiser participar, esta conferência tem um especial significado também aqui, em Setúbal, onde os livros de Abril foram interessadamente procurados.

Portugal assistiu, desde 1968, mas principalmente após o derrube da ditadura em 25 de Abril de 1974, a uma explosão do que podemos chamar de edição política, ou seja, a publicação de livros de caráter político, sobretudo de obras vinculadas ao pensamento de esquerda, dentro de um movimento mais amplo de liberação política e cultural decorrente do fim da opressão ditatorial.

O historiador brasileiro Flamarion Maués vem desenvolvendo ampla e pioneira investigação sobre a edição política em Portugal, focalizando as editoras de livros de caráter político que publicaram no período entre 1968 e 1982, procurando perceber e interpretar o seu papel.

Ao convidar este investigador, a Livraria Culsete pretende assinalar a passagem do Dia Mundial do Livro e dos 38 anos da Revolução de Abril,  chamando a atenção para uma questão até agora esquecida, mas de importância crucial no aprofundamento histórico e cultural da edição e do livro.
F.R.M.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

UM DOCE QUE SE QUER REPRESENTATIVO DE SETÚBAL OU A FALTA DE MEMÓRIA HISTÓRICA DOS SETUBALENSES

Gosto muito de passar pela Casa da Baía, ali na Avenida Luísa Todi. Tem sido um dos meus locais de eleição neste último ano. Vejo as exposições, já tenho participado em espetáculos musicais, tomo um café ou outro e, sempre que a gulodice atacou provei os Santiagos, saborosos pastéis de moscatel.

Há dias, um domingo cinzento a pedir o aconchego de interiores, depois de ter ido ao encontro da pintura de Augusto Gomes Martins e das fotos de embarcações tradicionais de Manuel Justo Gardete, decidi tomar um café no interior. Foi ao sentar-me que dei com os olhos numas caixas de cartão que à primeira, pelo formato, me sugeriram conservas. No centro, em destaque, o brasão de Setúbal e um nome: D. Filipe. Espantada, olhei melhor. Afinal era um doce de aspeto cativante. Mas com aquele nome? Sim, é verdade.

Explicaram-me então que tinha havido um concurso para escolher um doce típico de Setúbal , organizado no âmbito da 4.ª Mostra de Saberes e Sabores, e o primeiro lugar fora atribuído ao D. Filipe. De espantada passei a chocada. Mas D. Filipe porquê? Porque seria escolhido para nome de um doce que pretende representar a cidade o nome de um usurpador, que castigou tão duramente a cidade durante o seu domínio?

Procurei informar-me e soube o seguinte através de O Setubalense de 5-12-2011: «Nuno Gil [o dono da pastelaria que confecionou o bolo] explicou que o nome “D. Filipe”, com o brasão de Setúbal, deve-se ao nome do rei e à construção da Fortaleza de S. Filipe. Além disso, a embalagem em forma de conserva é uma homenagem ao mar e aos pescadores. A tapar o doce está um papel com o poema “O Sonho” de Sebastião da Gama.»

Acredito plenamente nas boas intenções do confeiteiro e do júri e no completo respeito deste aos critérios de avaliação (originalidade, degustação, apresentação, viabilidade de produção, comercialização, condições de conservação e durabilidade), mas não percebo porque não foi sugerido que o nome fosse mudado. A designação deste doce não respeita a verdade histórica. Esta fortaleza serviu, entre outros fins, para controlar os nossos antepassados, tendo muitos deles assinado com o próprio sangue a não adesão aos Filipes. Amotinaram-se, lutaram, tinham aclamado D. António, Prior do Crato. Diz a história que o Duque de Alba, depois de aclamar Filipe II, “castigara com as maiores crueldades os moradores de Setúbal”. A repressão ao povo de Setúbal foi uma constante durante todo o período filipino. Segundo Albérico Afonso, eram frequentes os tumultos na vila e repetidas as atitudes de retaliação dos ocupantes.

É fundamental conhecer a história local para que não aconteçam coisas destas. Já que o bolo é coberto com o poema «O Sonho», de Sebastião da Gama, por que é que não se adopta esse nome, ou outro qualquer que tenha a ver com o poeta? Ou ainda outro, que não evoque memórias tristes? Agora D. Filipe é que não pode continuar, é uma afronta à nossa memória histórica. A gastronomia, e particularmente a doçaria, evoca felicidade, alegria, festa e não opressão e domínio. O nome dos seus produtos tem de ser positivo.

Como se pretende que um D. Filipe seja representativo de Setúbal? Aliás, deixem-me lembra-vos que já temos a Bolacha Piedade, o Doce de Laranja, as Cascas Cristalizadas de Laranja (agora também com cobertura de chocolate), as Tortas de Azeitão, os Santiagos e outros…

Duas últimas perguntas: quais as razões por que ainda não vi este assunto aflorado noutros espaços? Andarei cegueta?

F.R.M.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Hoje na Casa Fernando Pessoa com HELDER MOURA PEREIRA


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“Se as coisas não fossem o que são”, não estaria agora a lembrar  que o Prémio de Poesia Luís Miguel Nava 2011, atribuído a Helder Moura Pereira, vai ser entregue hoje ao poeta, às 18:30, na Casa Fernando Pessoa. Se puderem, apareçam. Entretanto, deixo-vos com dois poemas de Se as coisas não fossem o que são, o primeiro e o último. Entre ambos há muita da melhor poesia portuguesa dos últimos tempos. Procurem-na. Leiam-na. O livro está disponível, basta visitar uma (boa) livraria independente.
F.R.M.
[Fiz figura de corpo presente, que era]
Fiz figura de corpo presente, que era
a única figura que eu sabia fazer.
O corpo estava presente, a alma não,
a alma tinha ido dar uma volta, a alma
tinha morrido. Não podia portanto
tê-la comigo de cada vez que era
preciso ficar, também não era preciso
falar, era só preciso ficar, por isso
não fazia mal. Sem alma o corpo
criava o tom de uma cor desaparecida.
Coisa visivelmente de outro tempo,
simbolista, renascentista, ou outra coisa
qualquer, tudo servia para me atirares
à cara que eu já não era deste tempo.
Embora por soalho e tecto sons de hoje
Levantem tábuas no telhado, estalem
tectos. Esses sons, que são de ferro
e água, batem no sangue com descarada
arritmia, até que as pálpebras se fecham
e eu me lembro outra vez que sou
corpo. Sem alma. Mas abdicou a alma
de mim, abdiquei eu dela? Calma,
assim não vamos a lado nenhum.

A alma é sem dúvida um tema
muito interessante, mas eu não consigo
dar-me a quem não vê a guerra total
e persistente, o vazio controlado
pela ignorância, os crimes impunes,
a sombra cinzenta no futuro da humanidade,
a hipótese do grande estoiro final.
E insistes em falar-me da alma.
E de ajustes de contas, e do silêncio
quando as portas se fecham e ali
ficas, de mãos cruzadas sobre o peito
e com a merda de um sorriso arrogante
ainda a bailar nos lábios roxos.

[Do frio e da indiferença para o jogo]
Do frio e da indiferença para o jogo
ao rubro, de uma noite para a outra
o grito de Ipiranga, a minha revolução
de Outubro. Vi estrelas quando a cabeça
embateu com estrondo na trave
da realidade, mas não fiquei com cara
de poucos amigos, até gostei, parecia
que tinha fumado uma erva boa.
Parecia mesmo, porque uma longínqua
origem rompia em gritos e a minha cara
era de parvo num espelho retorcido.
É tudo a desabar, tudo a ficar assim
estragado e pobre, a realidade também
podia ser isto, um deserto, uma linha
recta, mas esta era especial, puseste
por onde eu ia a passar uma trave invisível
e mesmo que eu escapasse dessa
logo depois não escaparia à cova
no chão, disfarçada com ramos, e terra,
e folhas espalhadas. Acendeste a luz
para me veres a cara e viste
um lugar obscuro e todo vazio.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

domingo, 8 de abril de 2012

Querenças do Sem-depois - V

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UM É-LÁ-LUA PARA DEDICAR

A CORDATO DA SILVA MEU AMIGO

http://www.youtube.com/watch?v=h6kyMhjMKbQ

é lá a lua onde

a vejo iluminada

em cheio no visível

domesticado círculo

é lá a lua onde

por crença a encontrei

para a levar comigo

a um destino livre

é lá a lua onde

voltou por me lembrar

que o meu destino de hoje

mudou-se para ontem

é lá a lua e onde

irá por esconder-se

sossego a liberdade

em serena passagem 

R. V.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

LÊ-SE CADA uma & LÊ CADA um!... - I


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CHAVE NA PORTA
Aqui não se vai por um «escreve-se cada…». Prefere-se duplicar o «lê». É para libertar o leitor de citações. Também se poderá citar, mas em excepção. Pretende-se que o argumento de autoridade não convença e só em seu território governe. Que assim o leitor se sinta à vontade como autor do que lê e único em seu momento de entender. Porque já se viu que o artista morre e a sua arte perdura.

1
«Por ti, faz só o que quiseres. Pelos outros, faz, e por querer, tudo o que ainda puderes.».

2
«A revolta, quando redunda em destruição, não passa de uma atitude ilógica.  A sua lógica profunda não é a da destruição, mas sim a da criação».

3
«Não os via creio que há 20 anos. Pelas fotos não os reconhecia. O que o tempo faz! E eles dirão o mesmo quando me virem».

4
«Porque uma verdadeira obra consiste não na sua forma definitiva, mas sim na série de aproximações para a alcançar».

5
«Analisar o que se chama de efeitos perversos do Poder. Quando por Democracia se entende liberdade de decisão dos eleitos, o Poder é perverso».

Já leste?  Agora relê e atira ao ar!
V. L.

«ESSES TEMPOS!» A QUEM OS VIVEU OU OS ESTUDA AGORA DIZEM QUE…

11 de Abril de 2012

16h00

Livros que tomam partido. 
A edição política em Portugal, 1968 - 1982

Por Flamarion Maués

(IHC – Universidade Nova de Lisboa),

comentário de Nuno Medeiros

(CesNova – Universidade Nova de Lisboa)

No ano lectivo 2011/2012, o IHC promove um novo seminário mensal destinado à apresentação e discussão de investigações ou estudos em curso, dedicados à História de Portugal e da Europa nos séculos XIX e XX.

Com esta iniciativa pretende-se contribuir para a criação de um espaço de debate entre investigadores e unidades de investigação de várias Universidades, e para o fomento da colaboração entre os mesmos. Trata-se de estimular a partilha de metodologias e de resultados de pesquisa. O cruzamento entre investigadores de diversas ciências sociais, de forma a favorecer o diálogo entre a História e outras Ciências Sociais, é outro dos objectivos deste seminário.

Local: Livraria Pó dos Livros – Av. Marquês de Tomar, n.º 89 A, Lisboa.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Querenças do Sem-depois - IV

O ERMO E A FLOR
clip_image002FOTO DE U. BETTENCOURT

UMA CHUVA DE ABRIL NO REDUZIDO LESTE DA ILHA

SUAVIZA O OLHAR E CONFORTA A DISTÂNCIA

MAREJANDO

COM AS GOTAS DA MINHA SAUDADE

A BELEZA SILVESTRE DO VERDE AZUL E FOGO DA FLOR
R. V.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

QUERENÇAS DO SEM-DEPOIS - III

AS   PASSAGENS   FLORIDAS

clip_image002PASCOINHAS - Foto dedicada por OLEG

cuidarás das flores que voltam para olhos antigos como quem chega de longe a um recanto desde sempre o seu

eram também assim em primavera os teus olhos encantados a vida ressuscitando de si própria em vida nova as grinaldas floridas festejando com os canários os melros as toutinegras e tentilhões os milagres da luz e do calor

eram também assim os teus olhos encontrando amigos em jogos de pião por aleluias e as ervas rasteiras florindo as alas do chão de se passar

eram também assim os teus olhos para que fossem florindo em novas primaveras as passagens por todas as lembranças e pelos encontros de amigos novos e antigos em jogos de simpatia

cuidarás dos amigos e de agradecer as simpatias e aos olhos antigos deixa-los-ás dedicados às passagens por venturas floridas

R. V.