quinta-feira, 31 de maio de 2012

MEDEIROS FERREIRA: «não tive dúvidas de que o que me fizera exilar me obrigava a regressar»

 

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TARDE CULTURAL AÇORIANA NA CULSETE

MAR-A-MAR AÇORES-SETÚBAL

SÁBADO 2 DE JUNHO DE 2012 16h

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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Com MEDEIROS FERREIRA na Culsete: comemoração dos 50 anos da Crise Académica de 1962


No próximo dia 2 de Junho de 2012, sábado, pelas 16,30 horas, a Livraria Culsete, em Setúbal (culsete@gmail.com), abrirá as suas portas para um encontro com José Medeiros Ferreira, eminente e bem conhecida figura pública, comentador político muito respeitado, cuja opinião sobre o momento presente da política internacional vem sendo requisitadíssima.
Medeiros Ferreira vem levar-nos ao convívio com os seus livros e de modo particular com a sua recente escrita nas obras colectivas Pátria Utópica e 100 Dias que Abalaram o Regime – A Crise Académica de 1962.
Com esta sessão pretende-se comemorar os 50 anos desse importantíssimo momento da nossa história recente que foi a assim chamada «crise académica de 62». Medeiros Ferreira foi um dos mais destacados protagonistas desse momento e dos movimentos estudantis que, também em Portugal, marcaram os anos sessenta do século XX.
Resta anunciar que Onésimo Teotónio Almeida e Mário Mesquita participarão activamente nesta sessão que promoveram conjuntamente com a Livraria Culsete.

Manuel Medeiros

Querenças do Sem-depois - IX

FLORIR SIMPLESMENTE

 

é bem certo

passou por cá

disse o que disse

preciosidades de sensibilidade e inteligência

mas o coração parou de noite e à tarde

fui ao último adeus

 

o coração quando parou

abarrotava de muito mais para dizer

e é por isso que perguntei

pergunto

e parece que enquanto por cá andar terei de perguntar

e agora?

 

uma resposta bem sentida

pode não ser bem pensada e uma flor

pode ser simplesmente como a rosa em que

por fruto colhi apenas

a cor

o perfume

o veludo em pétala

 

disse

floriu

passou

adeus

 

R. V.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

SAÍ DE PORTUGAL NUM DIA DE ESPLENDOR ESTIVAL–escreve Medeiros Ferreira. «CARAMBA QUE AZUL!»

Abri o Pátria Utópica na página 191 para dar título a este post dedicado a convidar para mais uma tarde de sábado na Culsete. Mas tudo começou muito antes desse dia 21 de Julho de 1968. Por isso vou à página 37 de 100 Dias que Abalaram o Regime – A Crise Académica de 1962:
O cinquentenário da crise universitária declarada em Março de 1962 celebra-se num momento marcado pelos perigos de retrocesso e conflito na sociedade portuguesa. Comemorar esse acontecimento ajuda-nos a situarmo-nos numa perspectiva histórica e aberta aos problemas do presente e do futuro. Evidentemente, novos tempos requerem novas respostas. Nada mais acrescento, por agora, que é para pedir que este início do texto da referida página 137 seja lido três vezes, «num momento marcado».  

CONVITE MEDEIROS FERREIRA 2

Até sábado!
L. V.

domingo, 27 de maio de 2012

Duas perguntas a URBANO BETTENCOURT feitas em 27 de Maio de 2012 e a que responderá quando quiser e se quiser


1
L.V.
Urbano Bettencourt, que nos podes tu dizer que através do chapeuebengala leve aos nossos amigos a notícia desta tua tarde de domingo em Setúbal onde vieste comemorar, com a apresentação do teu África Frente e Verso, os 40 anos de vida literária, aqui iniciada com a publicação de Raiz de Mágoa?
2
L. V.
A leitura que hoje deste teu livro na Culsete se fez, aos participantes que ainda não a conheciam convenceram-nos da alta qualidade da tua escrita e houve mesmo um interessante diálogo a propósito de como foi bom para os actores ler os teus textos, precisamente por muito bem escritos. Não é por aí, portanto, que vai a segunda pergunta, mas pela dificuldade de encontrar leitores continentais que tenham lido a boa escrita açoriana quando publicada nas ilhas. Alguma esperança de que isto mude?

sábado, 26 de maio de 2012

URBANO BETTENCOURT no Passeio dos Poetas na terra natal de VITORINO NEMÉSIO

http://nestahora.blogspot.pt/2012/05/rostos-175-urbano-bettencourt.html
Recordo que o Passeio dos Poetas na cidade terceirense da Praia da Vitória já tinha vindo ao blogue de João Reis Ribeiro.

Amanhã na Culsete podemos ler o poema «Violadáfrica» completo no livro África Frente e Verso que Urbano Bettencourt nos vai apresentar.
Às 16 horas. E para no-lo apresentar veio dos Açores a Setúbal propositadamente. Aqui se iniciou a sua carreira literária, com a publicação de Raiz de Mágoa, na Primavera de 1972.
Se não estou cansado de o  repetir e de salientar o alto nível da escrita de Urbano Bettencourt?
De modo nenhum!
Porque estou em crer que…

Bonita, esta de JRR nos levar de Setúbal ao encontro de Urbano Bettencourt no Passeio dos Poetas!  
Até amanhã!

L. V.

http://luzdeafrica.blogspot.pt/2011/08/o-passeio-dos-poetas_14.html
O "PASSEIO DOS POETAS"

O "Passeio dos Poetas" consiste num conjunto de 32 painéis de azulejos referentes à literatura portuguesa e à cantiga à desgarrada, afixados em várias paredes das ruas da cidade terceirense da Praia da Vitória. Cada painel constitui uma homenagem a um escritor ou a um cantador português, contendo o seu nome, a sua fisionomia, e um excerto do que foi por ele escrito, cantado ou verbalizado.

Trata-se de uma iniciativa de um terceirense - o músico Luis Gil Bettencourt, que contou com a colaboração da Câmara Municipal da Praia da Vitória, sendo a pintura dos azulejos da autoria de um outro filho da terra - Ramiro Botelho, que a executou a partir de desenhos seus e de desenhos de Manuel Martins e de José Nuno da Câmara.

Percorrer a Praia da Vitória sob o olhar fraterno destes 32 artistas acarinhados pela terra que eles cantaram, é transportar para dentro da cidade, todas as estradas bordejadas de densos muros de hortênsias, e todos os bosques nunca antes imaginados, que há na ilha.

E quando o sol está a nascer, caminhar junto à baía da Praia da Vitória, de mão dada com tais personagens, é sentir que a vida é um poema que se desprende da brisa do amanhecer.
http://luzdeafrica.blogspot.pt/2011/08/o-passeio-dos-poetas_14.html

quinta-feira, 24 de maio de 2012

URBANO BETTENCOURT: um jovem miliciano já em 1972 «com um ramo de cravos /em cada mão»?

DE MAFRA COM MÁGOA
(…)
Mafra
é Mafra
e eu
sou eu.
Por detrás da máscara eu lá estou
sem ódios, nem balas, nem guerras
despido
e com um ramo de cravos
em cada mão
(Raiz deMágoa, pág. 30)

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27.MAIO.2012

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COMEMORAÇÃO DOS
40 ANOS DE VIDA LITERÁRIA
DE
URBANO BETTENCOURT
COM APRESENTAÇÃO DE
ÁFRICA FRENTE E VERSO

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URBANO BETTENCOURT: textos para ler três vezes

Para quem não leu Urbano Bettencourt ou ainda não o ÁFRICA FRENTE E VERSO vai o pedido: leia os últimos dois textos do livro, a seguir transcritos. Saboreada a escrita, gostaria de saber se estamos em concordância: textos para ler três vezes.
L. V.


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De mangas e bolanhas

A primeira impressão cola-se para sempre à pele. Chegas à porta do avião e há um bafo que te envolve e retém no cimo das escadas. Digamos isto de outra maneira: há um bafo espesso que te empurra para trás, como onda lenta que desabasse sobre ti. Ainda não leste Karen Blixen, mas por aí mesmo ficas a saber que em África há odores tão intensos que quase nos sufocam.

Vai uma tentativa de isolar cada um dos elementos que compõem esta onda invisível em que a custo respiras: águas paradas, humidade, terra encharcada, transpiração vegetal, lama salobra – tudo isso numa estufa a 28 graus de temperatura. Mas aqui o todo é muito mais do que a soma das parcelas – poderás pensar entre   Bissalanca e Bissau, se a curiosidade e o espanto não te impelirem a decifrar cada perfil fugaz na berma da estrada.

Ainda é cedo, no entanto. Mais tarde, aprenderás que tudo regressa em cada época das chuvas, como se o tempo fosse apenas um rio dobrado sobre si mesmo e a terra um corpo transbordante de Junho a Outubro.

E de quanto tempo vais precisar para tornar teu o perfume do caju e das mangas? Das mangas, principalmente.

Sentado à sombra de um mangueiro velho, anterior ao fogo e à  morte metálica,   verás   o tempo escorrer lentamente sobre as mangas  e deixar   nelas os   seus tons suaves, o verde, o amarelo, o   rosa. Quando isto acontecer, o Iemena dirá dos frutos maduros e terá recuperado já uma sabedoria antiga para ensinar-te como  varejar  as mangas altas sem as machucar nem  deixar tocar no chão. Hás-de recolhê-las intactas nas  tuas mãos, o cheiro  delicado confundindo-se, finalmente,  com o sabor agreste, para se cruzarem ambos com a tua fome de séculos.

Saberás, então, que esse é o teu íntimo cheiro de África, aquele que vais querer guardar para lá de tudo, mesmo quando a memória dos lugares, dos corpos e do sangue se for diluindo na espessura dos dias.



 

 

 

 

 

Agostos

Num Agosto assim talvez chovesse outrora

muito longe daqui. As nuvens vinham de leste

e abriam o seu ventre subalimentado sobre

as nossas cabeças: metralha e fogo  e luz

e um homem deixou no adobe da parede  

o seu retrato de cinza.

 

E no entanto havia corpos

prontos a dar-se  entre o desejo mudo 

e o inferno. Caíam as aves,    não co’a calma,

como dizia o outro, mas co’as cargas

de napalm,  que são o reverso

do verso lírico (e do épico também).

Vinham as chuvas e partiam

e não lavavam lodos  nem apagavam

o fogo que ardia sem se ver 

(disto sabia ele, o poeta),

sobre uma esteira podia-se  morrer de loucura

num corpo a corpo de vencidos,

desafiando a sombra da outra morte, a que vem

por trás e por diante, da direita e da esquerda,

e deixa os seus dentes  de chumbo  na carne destroçada.

 

Lembro-me destas coisas e de outras mais

ao cruzar-me com os  pares que se devoram

em jardins de cimento, indiferentes

a quantos estudam o terreno em variadas línguas

sobre  mapas   que trocam   os sinais da mata 

e dos rios   por  números de autocarro, paragens

do metro, um ou outro museu, lugares a ver de  fora e de longe,

mas  nada nos dizem sobre o modo de  evitar as emboscadas

da  guerrilha urbana.

 

Não há chuvas  neste Agosto. A calma 

vibra nos telhados,  as guerras trazem outros nomes,

outros donos. E talvez seja assim que tudo tem de  ser.

E talvez seja este o melhor dos mundos.

(Porto, 2011)

terça-feira, 22 de maio de 2012

Homenagear URBANO BETTENCOURT em Setúbal: 40 anos de vida literária aqui iniciados

28-05-2011 (11)URBANO BETTENCOURT
Na Culsete em 28.Maio.2011
No próximo dia 27 de Maio de 2012, domingo, pelas 16 horas, a Livraria Culsete, em Setúbal (culsete@gmail.com), abrirá as suas portas para um encontro com o escritor açoriano Urbano Bettencourt, que vem apresentar o seu novo livro, África Frente e Verso.
Fernando Guerreiro, José Nobre e Olegário Paz, com a sua bem conhecida arte de dizer, lerão alguns textos da obra.
Autor com vasta obra publicada, onde a poesia e o ensaio literário têm lugar de destaque, Urbano Bettencourt publicou o seu primeiro livro, Raiz de Mágoa, em 1972, em Setúbal. Regressou a esta cidade dez anos mais tarde como docente de português e francês, tendo trabalhado na Escola Secundária da Bela Vista. É desse tempo o seu primeiro livro de ensaios, O Gosto das Palavras, publicado nos Açores em 1983, com uma introdução datada de Setúbal, em14 de Novembro de 1981.
Há precisamente um ano, em 28 de Maio de 2011, Urbano Bettencourt regressou a Setúbal e à Culsete para apresentar esse outro livro precioso que é o Que Paisagem Apagarás. Volta agora para dar a ler outra obra de grande consistência literária e de uma sensibilidade que nos leva a um imenso respeito por ele e por todos aqueles que nos anos sessenta e setenta viveram as guerras coloniais.
África Frente e Verso reúne vinte e quatro textos, em prosa e verso, escritos ao longo dos últimos quarenta anos, tendo como tema a participação do autor na guerra com o PAIGC na Guiné-Bissau.
Açorianos, setubalenses, participantes nas guerras de África e em especial na da Guiné-Bissau, bem como os apreciadores de grandes temas tratados pela literatura com superior perfeição, são convidados a participar nesta sessão e a homenagear Urbano Bettencourt pelos seus 40 anos de vida literária, iniciados em Setúbal, na Primavera de1972.
L. V.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

«O MELHOR DOS MUNDOS»

Quando e onde vais ter oportunidade de o ler? Até pode ser numas horas de viagem em avião, lá bem pelo alto donde se pode olhar a terra, o mar ou pelo menos as nuvens… Quando chegares à última página ou, ainda mais precisamente, à última linha do último texto do África Frente e Verso do nosso Urbano Bettencourt, vais dar com este verso: «E talvez seja este o melhor dos mundos».

É o melhor ou não? Não me passa pela cabeça imaginar outros para fazer a comparação. Basta-me esta certeza de que este nosso mundo não está como é, um paraíso!

Vai ao Porto em Agosto com o Urbano Bettencourt, passeia por aquelas avenidas onde ele encontrou pombinhos e turistas veraneantes e talvez também concluas que «talvez seja assim que tudo deve ser». Então acrescentarás esse outro «talvez» tão denso e desafiante: «E talvez seja este o melhor dos mundos».

Deixemos por agora a mitologia do paraíso terreal e voltemos a ler por inteiro o poema «Agostos». Talvez te impressione também a ti, logo mo dirás. A mim o que mais uma vez me impressiona é este ver através dos pombinhos e dos turistas nas avenidas do Porto, em Agosto de 2011, os cenários da guerra na Guiné Bissau, nesses seus últimos dois anos, de 1972 a 1974.

O que tudo isto contém de…!!!
Querer ler África Frente e Verso por respeito à verdade do mundo e das pessoas, da história do mundo e das pessoas.
E por este dizê-la em esmero de arte.

L. V.

O ESCRITOR
URBANO BETTENCOURT

APRESENTA

ÁFRICA FRENTE E VERSO

 

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TARDE CULTURAL AÇORIANA NA CULSETE

MAR-A-MAR AÇORES-SETÚBAL

DOMINGO 27 DE MAIO DE 2012 16h

AVENIDA 22 DE DEZEMBRO, 23-A/B - SETÚBAL

quarta-feira, 16 de maio de 2012

MIGUEL DE CASTRO: 3 ANOS LONGE DA VISTA MAS SEMPRE PERTO

 

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Miguel de Castro (ou será Jasmim Rodrigues da Silva?) na década de 1980

na Praia da Figueirinha

 

 

16 de Maio, 2012, quarta-feira.

Há três anos, em 2009, era sexta-feira.

19:00 horas em ponto.

Na baixa de Setúbal a vida despedia-se de mais um dia de azáfama.

No hospital de Setúbal o poeta Miguel de Castro despedia-se da vida.

Em Fruto Verde, livro de estreia, o poeta escreveu:

 

FIM

 

Quando morrer

como toda a gente,

quero levar no ataúde, fechado,

o meu sonho iluminado de poeta doente…

 

Quero as mãos compostas sobre o peito

as minhas mãos grosseiras e geladas…

e flores, muitas flores sobre o lençol do meu leito

de quatro tábuas pregadas…

 

Beijem-me o rosto as virgens que eu amei

em noites de luar e manhãs de cetim…

Perfumem o meu corpo de jasmim

que eu quero ir cheiroso como um rei!

 

Seja-me leve o peso da terra.

Fechem-se, de remorso, todas as caravelas nos portos…

 

Quero dormir descansado

no meu palácio enterrado,

até ao ressuscitar dos mortos!

 

Fruto Verde, 1950, p. 44

 

59 anos mais tarde, as mulheres que o amaram até ao fim, a Alice e a Elsa, fizeram-lhe a vontade. Dois dias depois, pegaram nas suas cinzas e entregaram-nas ao vento na Arrábida, a sua “janela de ver o mar”, onde “o silêncio está cheio / da respiração do mar”, numa “tarde azul demais pelo mar dentro”.

Talvez por isso, em dias de sol e vento, se sinta na Serra um forte perfume a jasmim.

 

Miguel de Castro, cantor do amor, da serra, do mar e das brancas areias abraçadas pelo rio, senhor de uma importante voz lírica da segunda metade do século XX, mas também o irreverente autor de Sinfonia do Cu, manteve com Manuel Medeiros laços de amizade e de companheirismo literário, numa cumplicidade quase diária nas décadas de 1980 e 1990. Não é de estranhar que uma bela tarde de Janeiro, perto do aniversário do livreiro, tenha entrado na Culsete com uma página A4 dactilografada e assinada com o poema abaixo transcrito, que só não foi incluído em Papel a Mais porque teimou em esconder-se entre uma multidão de papéis:

 

SE EU MORRER DE REPENTE

Para o Manuel Medeiros

 

Se eu morrer de repente, ainda ficas

Por cá, gozando o sol, fazendo gala

Dos cigarros que fumas (quem se rala?)

Olhando à porta as putas e os maricas.

 

Logo pela manhã bebendo bicas

No balcão do seneque, onde se fala

Ao entrares de chapéu e de bengala

A pairar todo azul…     Tão bem que ficas!

 

E vais dormindo sonhos e boticas

Para os males da vida e do país

- Meu pobre Sá-Carneiro sem Paris,

 

D. Quixote de um mundo que criticas…

Bebe o meu vinho tinto em vez de bicas.

Ficas um homem muito mais feliz!

 

9/1/1998

(inédito)

 

 

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Miguel de Castro com Américo Pereira, Ascênsio de Freitas, Gomes Sanches e Manuel Medeiros, durante a atividade «Três poetas e uma mentira», organizada por este último na Biblioteca Municipal de Setúbal, em 2004 (foto de Manuel Vieira)

 

Não se julgue, porém, que toda a poesia de Miguel de Castro fala de morte. Pelo contrário. Aqui ficam alguns exemplos bem diversos:

 

DIÁRIO

12

 

Hoje foi Domingo. Passei a tarde no café

a conversar com o meu amigo tédio.

Levei o tempo olhando o tempo para lá das vidraças e das cortinas.

 

Joguei o xadrez com vontade de estar dormindo

e acordar decorridos cem anos!

Aparte isto não fiz mais nada que valesse a pena.

Uma chuva miudinha caía… A avenida lavava a cara.

Nada vale a pena quando o dia dá em chuvoso.

 

Quis ir à missa de S. Julião

porque é elegante e aristocrático,

mas acordei muito tarde!

Acordo sempre tarde quando penso em fazer qualquer coisa.

 

O meu despertador já não quer trabalhar

e enquanto não me obrigarem a comprar outro

continuarei na mesma.

 

Mansarda, 1953, p. 57

 

ESTA CALIGRAFIA

 

Esta caligrafia de verão

na porosa ramagem dos pinheiros.

 

Este mar de gaivotas pela tarde

que passeio na tua companhia.

 

Esta cálida chuva de repente.

 

Terral, 1990, p. 38

 

 

UMA COISA AMADA

Para a Maria Rosa Colaço

 

Eu queria ser uma coisa amada.

Um canto de crianças, um poema

Na parede, uma linda esplanada

De verão, um artista de cinema.

 

Eu gostava de ser uma janela

Escancarada ao mar, o teu lençol

De banho ou, nesta manhã de sol,

Outra coisa que fosse muito bela,

 

Como no rio azul a vela panda.

Eu gostava de ser o bago de uva

Que te vejo, tão fútil, a trincar!

 

Eu gostava de ser a fresca chuva

Nos teus seios – que parecem voar

Assim que te debruças na varanda!

 

Os Sonetos, 2002, p. 21

 

Hoje, 16 de Maio, escolhi partilhar convosco alguns textos de Miguel de Castro. Faça o mesmo. Folheie os seus livros, escolha um texto e acrescente-o a esta pequena lista. Vamos lá instituir o 16 de Maio como DIA MIGUEL DE CASTRO.

F.R.M.

 

 

terça-feira, 15 de maio de 2012

Querenças do Sem-depois - VIII

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PARA LONGE

 

para me ir embora bem disposto já não preciso de quaisquer querenças ou descrenças é simplesmente questão do que aconteça no momento

 

há sempre o risco de aflição maior que a paciência ou de um carinho sentido em falta ou de a música das vozes das crianças demasiado distante nesse momento essencial para quem fica e quem parte

 

para me ir embora bem disposto era bom em adeus acenar do alto da montanha a um barco para longe a navegar no mar em frente

 

ficar e partir são convenções que se anulam quando nada impede o pleno abraço de uma natural despedida

 

para me ir embora bem disposto talvez em mais seguro baste que nenhum segredo reste por contar

R. V.