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Miguel de Castro (ou será Jasmim Rodrigues da Silva?) na década de 1980
na Praia da Figueirinha
16 de Maio, 2012, quarta-feira.
Há três anos, em 2009, era sexta-feira.
19:00 horas em ponto.
Na baixa de Setúbal a vida despedia-se de mais um dia de azáfama.
No hospital de Setúbal o poeta Miguel de Castro despedia-se da vida.
Em Fruto Verde, livro de estreia, o poeta escreveu:
FIM
Quando morrer
como toda a gente,
quero levar no ataúde, fechado,
o meu sonho iluminado de poeta doente…
Quero as mãos compostas sobre o peito
— as minhas mãos grosseiras e geladas… —
e flores, muitas flores sobre o lençol do meu leito
de quatro tábuas pregadas…
Beijem-me o rosto as virgens que eu amei
em noites de luar e manhãs de cetim…
Perfumem o meu corpo de jasmim
que eu quero ir cheiroso como um rei!
Seja-me leve o peso da terra.
Fechem-se, de remorso, todas as caravelas nos portos…
Quero dormir descansado
no meu palácio enterrado,
até ao ressuscitar dos mortos!
Fruto Verde, 1950, p. 44
59 anos mais tarde, as mulheres que o amaram até ao fim, a Alice e a Elsa, fizeram-lhe a vontade. Dois dias depois, pegaram nas suas cinzas e entregaram-nas ao vento na Arrábida, a sua “janela de ver o mar”, onde “o silêncio está cheio / da respiração do mar”, numa “tarde azul demais pelo mar dentro”.
Talvez por isso, em dias de sol e vento, se sinta na Serra um forte perfume a jasmim.
Miguel de Castro, cantor do amor, da serra, do mar e das brancas areias abraçadas pelo rio, senhor de uma importante voz lírica da segunda metade do século XX, mas também o irreverente autor de Sinfonia do Cu, manteve com Manuel Medeiros laços de amizade e de companheirismo literário, numa cumplicidade quase diária nas décadas de 1980 e 1990. Não é de estranhar que uma bela tarde de Janeiro, perto do aniversário do livreiro, tenha entrado na Culsete com uma página A4 dactilografada e assinada com o poema abaixo transcrito, que só não foi incluído em Papel a Mais porque teimou em esconder-se entre uma multidão de papéis:
SE EU MORRER DE REPENTE
Para o Manuel Medeiros
Se eu morrer de repente, ainda ficas
Por cá, gozando o sol, fazendo gala
Dos cigarros que fumas (quem se rala?)
Olhando à porta as putas e os maricas.
Logo pela manhã bebendo bicas
No balcão do seneque, onde se fala
Ao entrares de chapéu e de bengala
A pairar todo azul… Tão bem que ficas!
E vais dormindo sonhos e boticas
Para os males da vida e do país
- Meu pobre Sá-Carneiro sem Paris,
D. Quixote de um mundo que criticas…
Bebe o meu vinho tinto em vez de bicas.
Ficas um homem muito mais feliz!
9/1/1998
(inédito)
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Miguel de Castro com Américo Pereira, Ascênsio de Freitas, Gomes Sanches e Manuel Medeiros, durante a atividade «Três poetas e uma mentira», organizada por este último na Biblioteca Municipal de Setúbal, em 2004 (foto de Manuel Vieira)
Não se julgue, porém, que toda a poesia de Miguel de Castro fala de morte. Pelo contrário. Aqui ficam alguns exemplos bem diversos:
DIÁRIO
12
Hoje foi Domingo. Passei a tarde no café
a conversar com o meu amigo tédio.
Levei o tempo olhando o tempo para lá das vidraças e das cortinas.
Joguei o xadrez com vontade de estar dormindo
e acordar decorridos cem anos!
Aparte isto não fiz mais nada que valesse a pena.
Uma chuva miudinha caía… A avenida lavava a cara.
Nada vale a pena quando o dia dá em chuvoso.
Quis ir à missa de S. Julião
porque é elegante e aristocrático,
mas acordei muito tarde!
Acordo sempre tarde quando penso em fazer qualquer coisa.
O meu despertador já não quer trabalhar
e enquanto não me obrigarem a comprar outro
continuarei na mesma.
Mansarda, 1953, p. 57
ESTA CALIGRAFIA
Esta caligrafia de verão
na porosa ramagem dos pinheiros.
Este mar de gaivotas pela tarde
que passeio na tua companhia.
Esta cálida chuva de repente.
Terral, 1990, p. 38
UMA COISA AMADA
Para a Maria Rosa Colaço
Eu queria ser uma coisa amada.
Um canto de crianças, um poema
Na parede, uma linda esplanada
De verão, um artista de cinema.
Eu gostava de ser uma janela
Escancarada ao mar, o teu lençol
De banho ou, nesta manhã de sol,
Outra coisa que fosse muito bela,
Como no rio azul a vela panda.
Eu gostava de ser o bago de uva
Que te vejo, tão fútil, a trincar!
Eu gostava de ser a fresca chuva
Nos teus seios – que parecem voar
Assim que te debruças na varanda!
Os Sonetos, 2002, p. 21
Hoje, 16 de Maio, escolhi partilhar convosco alguns textos de Miguel de Castro. Faça o mesmo. Folheie os seus livros, escolha um texto e acrescente-o a esta pequena lista. Vamos lá instituir o 16 de Maio como DIA MIGUEL DE CASTRO.
F.R.M.