sábado, 30 de junho de 2012

Desordens & Abusos

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COMANDOS DO MUNDO
Apanhou aquele tiro na cabeça e só perdeu a vida. Ficou-lhe na mesma a firme certeza de que o mundo era dele. Ah! deverá ter ficado com alguma diferença na garganta, pois nunca mais ninguém lhe ouviu os exuberantes gargarejos com que obrigava os pêssegos a virem ao chão. Imaginem, os pêssegos! Os porcos já sabiam. Ouviam aquela «gargantíssima» e vinham ao banquete. Juntavam-se à sua volta e comiam com ele em familiar convívio e roncando de prazer. Agora por isso: como se estarão os porcos a avir com tal diferença nos comandos do mundo? Pois é! Uma pergunta oportuna e um problema de indiscutível relevância. Lá que se avenham, seus porcos!
V. L.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

«TUDO SE FACILITA» ou OLEGÁRIO PAZ em modelar leitor de JOSÉ FRANCISCO COSTA

2012-06-17 17.12.38Foto de Onésimo Teotónio Almeida
Olegário Paz lê as suas «breves notas»
sob o olhar atento de Leonor Simas-Almeida
e do poeta homenageado José Francisco Costa

Breves notas
sobre as transformações do discurso poético
de José Francisco Costa

[i]

Quem se decidir a ler os livros de poesia publicados por José Francisco Costa só vai ter um problema, encontrá-los no mercado. Uma vez ultrapassada a dificuldade, tudo se facilita: não são volumosos, leem-se com agrado e dão-nos a conhecer um poeta em crescimento.

 

Mar e Tudo, o primeiro - 1998 - é um livro de contos, nove ao todo, mas já traz evidente a marca poética, particularmente nas epígrafes de cada um deles, como notou Francisco Cota Fagundes

 [ii]:

1. para quê o adeus / se partir é / ficar para sempre?... ("School Bus");

2. sapateia teia teia / com fios enlaçados no olhar ("Nome Próprio");

3. ainda vais aí? / mexe-me essas mãos / rema para aquele mar, ali ("Terra de Longe");

4. e em cada ilhéu / um barco / na linha dos olhos ("Segundo Shift");

5. dias plúmbeos / indistintas manhãs / num tempo diluído ("Fio do Tempo");

6 . para além do olhar / fazemos ponto de cruz / com a linha do horizonte  ("À Nossa");

7 . as palavras são ondas / vindas / da memória  ("Festa Comum");

8. qual seria a cor do mar / se a do céu não existisse ("Suor Frio");

9. o mar ficava manso / a maré vinha morta / era um lençol (Enquanto a ilha for...").

 

Alguns destes versos hão de integrar-se em poemas de E da Carne se Fez Verbo - 2000 - como é o caso de "sapateia / teia / teia", em "O Outro Tom da Sapateia", e o de "um barco na linha dos olhos", "Sina de Véspera" e, ainda, o de "fazemos ponto de cruz / com a linha do horizonte", em "Imagem de mim".

Os temas de fundo lançados nos contos vão manter-se e ampliar-se agora: terra, mar, amor, emigração, temáticas que, aliás, vão constituir o cerne de Ficou-me na Alma Este Gosto - 2011-, embora muito esbatido, já, o tema da emigração.

Se nos ficarmos pelo plano formal, as 37 poesias de E da Carne se Fez Verbo evidenciam uma dupla tendência, o apego à redondilha maior de estrutura rimática geralmente tradicional, e a opção marcante pelo verso livre. Não raro encontramos uma intencional mistura dos dois processos: a seguir a estrofes de tendência modernista aparece uma quadra bem ao gosto popular. Por exemplo:

 

«Oh, Nova Inglaterra dos meus invernos

Com neve, frio, desamor, brancura, alma sem cor.

[...]

Quando a gente aqui chegava,

O sonho à terra vendia.

O nosso corpo ficava,

A nossa alma partia.

[...].»

("O say can you see?")

 

Uma das técnicas que chama a atenção é o recurso ao processo iterativo, ora no início das estrofes (Tristes / andam tristes, "Endoenças"), ora no fim, à maneira de refrão, (Não te esqueças, meu amor / Do recado de voltar, "Recados do meu olhar"). Sinal evidente de que muitos destes versos foram fabricados para letras de cantigas do reportório do poeta que bem as cantas e as dá a cantar a outros.

Prova de lirismo incontido é o predomínio absoluto do 'eu' como sujeito lírico quase sempre em diálogo com os diversos "tus": Vejo um barco na linha / dos teus olhos, "Sina de Véspera"; Ai menina, quem me dera, ("Dúvida de uma vida").

 

Não posso deixar de referir, porque me toca especialmente como jorgense, a bem conseguida tradução / descolagem de "Vinho da Fajã" de Art Coelho, poeta e romancista californiano de raízes açorianas:

 

«O hálito do tempo derrama-se sobre estas Fajãs

em teus socalcos benzidos de hortênsias,

ilha natureza donzela no sereno das manhãs,

alimento do meu sonho antigo, pão dos meus dias.

[...].»

 

Em Ficou-me na Alma este Gosto, o discurso poético de José F. Costa explora formas encetadas em E da Carne se Fez Verbo e ganha outras, a caminho do normal amadurecimento da sua lira patente em boa parte das 82 poesias que enformam o livro.

Em termos formais, a maior novidade está no recurso ao decassílabo heroico:

 

Com só verso teu me comoveste:

O da verdade estranha, mas sincera.

E a tua mágoa, amor, me devolveste

Em gesto que de ti eu já perdera.

("Dor")

 

recurso posto na construção de seis sonetos, onde raramente ganha o ritmo sáfico.

 

"S. Valentim"

(para a Lourdes)

 

Por ti andei caminhos sem te ver.

Passei por ti no becos da demora.

Mas quando olhaste, o corpo estremeceu:

A voz da alma lhe bendisse a hora.

Cheguei. E teua cabelos mergulharam

Num vale de polhos feitos de que vejo.

E à paz do sonho quente regressaram

Palavras novas, filhas do desejo.

 

Amor morrer não pode em meu olvido,

Nem mesmo a velha idade há-de matar

O gozo que há no tempo proibido:

 

Viagem louca de saber e sal

Onde o batel de casco envelhecido

Se embala à terna luz do teu olhar.

 

* * *

 

Quem se decidir a ler a obra poética de José Francisco Costa faz sentido que comece pelos contos de Mar e Tudo.

Vai valer a pena!

 

Amadora, 120617

Olegário Paz

 

 



[i] Aquando da apresentação de E ficou-me na alma este gosto por Leonor Simas, na livraria CULSETE.

[ii] Gávea-Brown, vol. XXI, 2000.

terça-feira, 26 de junho de 2012

CONCORDÂNCIAS

Couves de um Alentejo na manhã de 26 de Junho de 2012

Fotos de OLEGÁRIO PAZ a pedido

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NEM O BICO SE PARTE

NEM A COUVE SE QUEIXA

 

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galinha em debico na folha de couve

e tu debicando as letras inscritas

pelas nuvens da noite em palavras de pedra

 

se as disser ou não disser as palavras

nem o bico se parte nem a couve se queixa

porque é preciso que a morte nos prove que a vida em comum é

comum só no menos

o mais fica sempre no imenso não ser ao qual se conquista

 

o pouco-mais-que-zero

que se pode alcançar

 

R.V.

domingo, 24 de junho de 2012

CONCORDÂNCIAS



A MESMA PAISAGEM AGORA SEM EIRA

UM HOMEM

menino de avô
quem foi que o foi?

ladrilhos do destino quando fui a pisar-vos trazia comigo a lição do avô em sereno e sábio e do seu trabalho único senhor

menino de avô
quem foi que o foi?

nem uma palavra a mais ou um único gesto de poder em sua natural autoridade

menino de avô
quem foi que o foi?

se hoje te visse de olhos nas nuvens o tempo prevendo ou na mesma eira o teu livro lendo de novo me via no muito respeito do neto a quem deste o simples modelo do que é ser um homem avô se te visse se hoje te visse

menino e avô
como é o que foi?

R.V.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

URBANO BETTENCOURT: «um desafio em forma de duas questões»

Culsete, em Maio
Urbano Bettencourt

A vinte e sete de Maio, o meu amigo Manuel Medeiros, sob as iniciais L.V, deixou-me neste blogue um desafio em forma de duas questões sobre a sessão acabada de ocorrer na Culsete, para eu responder se e quando quisesse. Nestas coisas, o quando é sempre mais problemático do que o se, por razões que não interessa explicitar agora. Mesmo tardiamente, aqui deixo a minha resposta possível ao repto.

As razões para a apresentação de um livro neste ou naquele lugar variam de caso para caso, para lá daquela razão geral e institucional que é a de dar a conhecer um livro e assinalar a sua entrada no mercado. Os motivos para apresentar um livro meu em Ponta Delgada serão sempre diferentes dos que me levam a apresentá-lo, por exemplo, em S. Roque, na costa norte do Pico, essa fronteira onde imaginariamente me recoloco para escrever as minhas ficções, em diálogo com os leitores virtuais que se distribuem ao longo da orla e dos precipícios da ilha de S. Jorge, em frente.

Apresentar África frente e verso na Livraria Culsete, em Maio de 2012, tinha, portanto, motivações que estão para lá do simples «diálogo» com o público e que as dedicatórias e o prefácio explicitam devidamente: replicar o momento inaugural da Primavera de 1972 em que raiz de mágoa saiu para a praça pública, graças a Manuel Medeiros e às oficinas da então Culdex. Era também o momento para, biblicamente, dizer ao Livreiro Velho de hoje que, apesar de tudo, os talentos de 1972 não se perderam no caminho, embora possam não ter rendido o que deles era devido esperar.

A sessão foi, portanto, ocasião para sentir tudo isso e partilhá-lo com todos os que vieram de outros lados, amigos e meros leitores, trazidos por esse chamamento que os livros sempre suscitam e fazem de cada presença um gesto de cumplicidade muito mais profundo e íntimo do que o mero acto social.

Foi bom ouvir Manuel Medeiros falar de todas essas coisas, comovidamente, e seguir as palavras de Fátima Medeiros a desvendar os diferentes processos que em África frente e verso assinalam a sua natureza de artefacto literário, coisa que Eduíno de Jesus viria também a pôr em relevo. É certo que pessoalmente tenho chamado a atenção para a dupla imagem de África que os textos constroem e o óptimo trabalho pictórico de Urbano, o pintor, explicita – e essa é uma forma de falar daquilo que, para lá de tudo, sobrou desse tempo, em termos de descoberta e aprendizagem do mundo e do homem, de gestos generosos e da construção de cumplicidades que permanecem e atestam a dupla dimensão da natureza humana entre anjo e demónio. Mas tudo isso se faz no livro através de palavras e de um imaginário que baralham e redistribuem por diversas vozes os dados da experiência e os articulam com textos alheios, de diferentes origens e géneros.

É também por isto que sabe sempre bem ouvir a leitura daquilo que escrevemos, o modo como outros escutam, reinventam e nos devolvem a voz, os ritmos, a sombra e a luz que cada texto traz em si como promessa à espera de cumprir-se. Já tinha tido uma excepcional sessão de leitura em Ponta Delgada e voltei a ter outra na Culsete, graças a Fernando Guerreiro, José Nobre e Olegário Paz: dicção e dramatismo, timbre e andamento deram vida às palavras, fazendo ressaltar a dinâmica que nelas, em parte, aguardava. E a breve discussão final sobre se quem lê se limita a seguir o que já está em cada texto ou acrescenta a sua própria interpretação não terá nunca uma conclusão definitiva e unilateral, que penda para um lado ou para o outro. «Antes da noite» é um texto com fragmentos escritos em voz alta, elaborados microscopicamente e tendo em conta o seu possível resultado sonoro e rítmico; mas o facto de a sua leitura por José Medeiros, em Ponta Delgada, ter sido em muitos aspectos diferente da que fez José Nobre, em Setúbal, atesta essa dimensão criativa de cada actor frente a um texto escrito.

E com isto já ando, de certo modo, pela segunda parte do repto lançado por L.V, a «dificuldade de encontrar leitores continentais que tenham lido a boa escrita açoriana quando publicada nas ilhas».

Aqui, devo confessar a minha perplexidade, tão grande como essa outra relativa à guerra e que continua a incomodar-me, ante a pergunta sem resposta sobre como foi possível termos sido isto e aquilo, vítimas e carrascos num «teatro operacional» (a expressão, como se sabe, faz parte do discurso militar) em que tivemos de desempenhar papéis que nos foram distribuídos contra a nossa vontade e gosto.

Mas eu gostaria de dizer que me importaria, em primeiro lugar, ser(mos) lido(s) nos Açores, isto é, nuns Açores a nove em que houvesse em todas as ilhas livrarias dignas do nome e da função, capazes de pôr os livros à disposição do público.

Depois disso, dizer então que continua a faltar uma estratégia comercial concertada e persistente que dê visibilidade continental ao que de qualidade se vai fazendo a meio do Atlântico e que seria necessário algo mais do que deixar os livros nesta ou naquela livraria, mesmo em várias consideradas fundamentais. Mas há uma outra questão a considerar, ou seja, a distância, não apenas a física, mas sobretudo a ideológica e social, aquela em que é colocado quem não pertence ao círculo, ao grupo de referência e de pressão: ser «dos Açores» é ser da província, como disse em tempos a jornalista da capital, e claro que, deste ponto de vista, da província só podem vir os Calistos Elóis cujo anedotário alimenta o circo da cidade. Dizendo de outra forma, as estratégias terão poucas hipóteses de resultar, se do outro lado não houver aquele mínimo de interesse ou, pelo menos, de curiosidade que motive a atenção. Seria, no entanto, injusto não reconhecer aquelas excepções que, por sê-lo, não passam disso mesmo. Mas quantos anos levou Emanuel Félix, por exemplo, a chegar a Lisboa? E onde há lugar para ele no cânone da poesia concretista, apesar de ter sido o seu iniciador em Portugal (mas no Atlântico)?

Teremos hoje mais leitores em Riga e em Bratislava do que em Lisboa? (E não falo no caso muito particular do Sul do Brasil) É bem possível que sim e isso deve-se ao interesse, à curiosidade de homens como Leons Briedis e Peter Zsoldos, respectivamente. Este último teve de desconfiar da ignorância de Lisboa e de ultrapassá-la, para chegar ao contacto com os escritores residentes que reuniu na revista Svetovej Literatúry (1998) e cuja novidade justificou a antologia bilingue que se lhe seguiu (Zakresl’ovanie do mapy. Azory a ich básnici. Bratislava, 2000). O facto de esse número da Svetovej Literatúry ser dedicado à literatura …espanhola não deixa de assumir um carácter irónico (afinal, os espanhóis já saíram de cá há quase quatro séculos), mas é, em boa medida, a metáfora do que é ser-se escritor nos Açores, onde se fala e escreve em língua portuguesa, embora possa haver quem pense que seremos anglófonos, o que nos dispensa, naturalmente, das congregações nacionais lusófonas.

É certo que se eu fosse um escritor palopiano o meu grau de visibilidade continental seria outro, seguramente. Mas não é a falta dela que me vai impedir de escrever. O meu compromisso é, em primeiro lugar, com a pátria da literatura, muito mais vasta do que a da língua, e é nela que continuarei a situar-me – como o fio da fonte teima na rocha viva ao mar virada, diria o Velho Nemésio.

Junho de 2012

quinta-feira, 21 de junho de 2012

CONCORDÂNCIAS

IMG_6403 FOTO DE ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

ROSAS DE SONHO
não me aborreço por não veres tudo o que para aqui vou carreando nem te vais aborrecer por este repetir a apresentação de uma fotografia de rosas à qual ando preso 

estas rosas que vês  se as visses reais no seu lugar e dia talvez fechasses os olhos na intenção de serem também para ti umas rosas de sonho

estas rosas de sonho absorvendo tensões atenções e distracções talvez devessem bastar-me em único espectáculo
de cada dia e talvez me dissesses não digas mais nada

não me aborreço por não veres tudo nem te vais aborrecer por rosas de sonho aqui as trazendo ser quanto me basta para a ti te dizer o que não estou dizendo 

R. V.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

CALENDÁRIO


mínimo do universo sem palavras te sentes e as flores que o precipício oferece aos olhos de quem lhe admira a beleza e transformou em respeito o medo que inspira são as flores apropriadas para o momento do encontro entre um nada e o tudo em que não serás identificável

se ao menos o momento de lucidez te alcançasse em chave para te abrires ao mistério do antes e depois que o situam

só uma a certeza deste momento emergindo por evidência da efemeridade das flores no precipício que cumpre a função de atrair-te e nelas confirmas que as formas belas nunca podem negar-se à beleza nem também prendê-la em quaisquer que sejam tão em si passageiras como tu
R. V.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

«… primeiro número da nova revista electrónica Pessoa Plural»

De uma mensagem recebida há semanas vem o título deste post. Vem para hoje porque a inveja nem sempre é aquele mau sentimento de que tanto os portugueses se acusam uns aos outros, nem sempre sem razão.
Se alguém vê neste falar de inveja uma dupla intenção, não me peça para ir por essas altas derivas. Atenho-me a esta inveja de alguns amigos que hoje, pelas 18,30 h. vão estar com o nosso amigo Onésimo Teotónio Almeida em Lisboa, na Casa Fernando Pessoa, compartilhando um momento que estou em crer lhe é e será muito grato.

Do convite:
«Jerónimo Pizarro e Onésimo Teotónio Almeida, directores da Pessoa Plural, apresentam o n.º 1 da revista dia 14 de Junho, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa.
Entrada livre no limite dos lugares disponíveis.»

A desejada participação fica pelo desejo, mas dele vem a muita curiosidade para abrir a revista. Quanto antes! Quanto antes!

L. V.

domingo, 10 de junho de 2012

JOSÉ FRANCISCO COSTA na CULSETE com o seu livro FICOU-ME NA ALMA ESTE GOSTO…(poesia)

 

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MAR-A-MAR AÇORES-SETÚBAL

DOMINGO 17 DE JUNHO DE 2012 16,30h

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No próximo dia 17 de Junho, domingo, pelas 16,30 horas, a Livraria Culsete, em Setúbal (culsete@gmail.com), abrirá as suas portas para receber José Francisco Costa, que nos traz o seu último livro, Ficou-me na Alma este Gosto (poesia). A apresentação da obra será feita por Leonor Simas-Almeida, Senior Lecturer na Brown University, em Providence. Olegário Paz vai encarregar-se da leitura de alguns dos poemas do livro.

 

José Francisco Costa, cujo percurso de vida e estudos o trouxe, em 1970, dos Açores a Lisboa e Setúbal, rumou aos Estados Unidos em 1978, onde tem feito uma brilhante carreira como professor de Língua Portuguesa. Iniciou a sua obra literária em 1998 como contista, publicando depois poesia, ensaio e memórias.

 

Em Setúbal, José Francisco Costa trabalhou durante vários meses na livraria onde agora, volvidos quarenta anos, regressa como autor. Nesta cidade, no ano lectivo de 1972-73, foi professor de Educação Musical. Aqui casou com uma setubalense, Lourdes Lopes, e deixou numerosos amigos, que vem reencontrar agora.

 

Setúbal merece estes regressos e estes regressos não podem deixar de cativar Setúbal, pelo que poesia e amizade darão o toque a uma tarde de domingo particularmente agradável.

Querenças do Sem-depois - X

Ensaio para caligrafias dedicadas
à São e ao Olegário
à Hélia e ao Eduíno
à Leonor e ao Onésimo
à Isabel e ao Artur
à Fátima e à Violeta
e aos ausentes presentes

ONDE GRATUITO O PARAÍSO MORA

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FOTO DE OLEGÁRIO PAZ

regressarás ao paraíso donde verdadeiramente nunca saíste porque dele não foste o expulso mas simplesmente o deserdado

clip_image002[11]FOTO DE ARTUR GOULART

talvez os verdes tenham já outros tons e o viço das cebolas tenha cedido o seu garbo visível à sua mais valia no amoroso solo escondida

talvez no regresso não encontres um gato no canto inferior e térreo da paisagem nem mesmo uma janela aberta no alto à tua direita

clip_image002[6] FOTO DE ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

talvez as rosas oh as rosas tenham já oferecido tudo o que eram em cor forma e perfume e no chão tenham caído desmaiadas as pétalas

talvez assim aconteça mas sempre as árvores te dirão o seu nome e estarão disponíveis para que os pássaros pousem e depois se impulsionem para novos voos  

clip_image002 FOTO DE ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

talvez assim aconteça de modo a que percebas que outras flores são a mesma beleza  em si sempre a mesma vestindo-se embora em novas estações para que conheças as mudanças de tempos e haja gostos novos acrescentando-se aos antigos

quando assim ao paraíso regressares não te ocuparás em saber se de versos precisa o teu poema não os vais pretender nem recusar porque as palavras e os silêncios desabrocharão em natureza  e a poesia terá fecundado toda a prosa 
R. V.

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Borrões em Recortes que Lia…

FOTO DE URBANO BETTENCOURT

«QUIEN BORRAR NO SABE, CAMINA EN CUATRO PES»

Tanta leitura que tem ficado para depois, um mais-tarde a caminho do já-é-tarde!

O poema de António Machado, antes intitulado «Viaje», aos meus olhos já tão impróprios para…, mas ainda a tempo de o ler, chega como «Outro viaje». A esse pormenor atribuo um pessoal significado e transcrevo a quadra em que termina:

«Tan pobre me estoy quedando

que ya ni siquiera estoy

conmigo, ni sé si voy

conmigo a solas viajando».

Logo a seguir vem o poema «Adiós» e esta passagem também não a deixo passar, não devo:

«(…). No me pidáis presencia:

las almas huyen para dar canciones:

alma es distancia y horizonte: ausencia».

Depois de ser tocado por estes poemas e em especial por estes versos, como resguardar os olhos para outras maravilhas, inclusive as que, sendo menos cansativas, nem por isso menos alma são, tais como, em distância, o recorte da serra no céu da tarde?

O recorte da serra no céu da tarde repete-se num prender o olhar sem nunca o cansar. Porque é alma? Interior ao ser e, aí, em próprio, distância, horizonte, ausência?

Os olhos em resto… Também os olhos!…

Ao menos por mais alguns momentos ir nesta sedução pela obra de António Machado:

«Juan de Mairena se llama a si mesmo el poeta del tiempo. Sostenia Mairena que la poesia era una arte temporal –lo que ya habían dicho muchos antes de él (…). Pero una intensa y profunda impressión del tiempo sólo nos la dan muy contados poetas».

A que me está a saber este encontro na tarde ferida dos meus olhos com António Machado e os seus, não direi heterónimos, mas «alter-egos» surprendentes, tão surpreendentes?

Depois de um Mairena, só mais estes versos de um José Maria Torres, que Machado leva a morrer em Manilla, onde a língua, como se sabe, …:

«A la hora de la tarde

viene um gigante a pensar.

Junto al mar, que mucho suena,

medita, sordo a la mar.

(…)

El no ve ni el mar ni el cielo,

él sólo ve su pensar».

Disse «só mais estes», mas menti. Inocentemente, creio.

O texto, donde para aqui estes versos dedicados a uma «hora de la tarde», intitula-se, em De um Canconeiro Apócrifo, «Doce Poetas que Pudieron Existir». José Maria Torres vem no número três. Vamos pelos seguintes e, afinal, temos mais que os doze: quinze! Um título assumidamente mentiroso! Apenas uma extravagância das que há leitores que não gostam e detestam encontrar nos seus admiráveis poetas e demais escritores?

É depois dos doze que vem o tradutor de Shakespeare, com tradução e comentário:

(…)

Si dos mentirosos hablan,

ya es la mentira inocente;

se mientem, mas no se enganãm.

 

No es exactamente eso o que dice Shakespeare: pero léase atentamente el soneto y se verá que es esto lo que debiera decir».

R. V.

 

P.S.

«No extrañeis, dulces amigos,

que esté mi frente arrugada;

yo vivo en paz com los hombres

y en guerra com mis entrañas.»

 

Não podia deixar de acrescentar. Tinha que dizer-vos eu isto, amigos. Não acham?

R. V.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

MEDEIROS FERREIRA - a “tremendous energy”: Homenagem de ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

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Homenagem a José Medeiros Ferreira
Culsete, Setúbal

Nos espectáculos de stand-up comedy e mesmo em concertos de música moderna há em regra três tipos de performers: o primeiro de todos faz o warm up. Tem a missão de começar a aquecer o ambiente. Normalmente é uma figura pouco conhecida, mas com aspirações a fazer carreira e que se sujeita a tudo por um pouco de publicidade, particularmente se encostada a grandes nomes. Depois vem então a segunda figura, essa sim, já de nome feito mas que no momento aceita participar no show a fim de preparar a aparição em grande da vedeta do espectáculo.

Neste caso de hoje, em que venho fazer o warm up, há uma diferença: fui incluído no programa não só sem pedir, mas até mesmo sem o saber. Como na situação clássica dos últimos a saber, fui o último e só soube por acaso, via Internet.

Claro que venho com muito gosto encenar este encontro de duas figuras que têm um passado com muitos paralelos, cruzamentos e alguns desencontros porque cada um deles tem a sua personalidade vincada e inconfundível, a começar pelo facto de, sendo os dois micaelenses, um – o nosso homenageado - ter acidentalmente nascido no arquipélago vizinho só para ter a certeza de que desde bebé acentuava a sua independência. O Mário Mesquita aceitou vir e será ele de facto o apresentador do homenageado desta tarde porque partilha com ele um percurso antigo de amizade e de currículo político num tempo conturbado, porém único do nosso país em que ambos foram figuras relevantes. Assim, e no meu papel de warmer up desta sessão, cabe-me dizer algumas palavras sobre o homenageado. Fá-lo-ei em flashes, pois é de flashes o meu relacionamento com o Medeiros Ferreira. Estou, por exemplo, a ouvi-lo lembrar com orgulho que foi ele quem no Liceu de Ponta Delgada pôs Jaime Gama a ler Platão. Estou igualmente a vê-lo e a ouvi-lo no início da década de 80 num colóquio na Universidade de New Hampshire, a argumentar comigo sobre o problema da identidade nacional, e de novo a vê-lo, anos mais tarde, em Washington, quando ele já tinha sido ministro e era atentamente ouvido sobre a integração europeia de Portugal. Mas lembro-me de Medeiros Ferreira também em animados almoços no restaurante da praia do Meco (estávamos todos vestidos!) e num outro restaurante da sua predilecção perto do Portinho da Arrábida porque, fã da zona, e com casa em Espichel, convoca e congrega os amigos para esta Região privilegiada, mediterrânica e de um Portugal quase grego (refiro-me à paisagem, pois quanto ao resto salvo seja!). Estou a vê-lo em Providence, na Brown, por duas vezes em ocasiões bastante separadas pelos anos e ocasionalmente mesmo no acolhedor espaço da sua própria casa, para não falar de outras circunstâncias por aqui e por ali menos pessoais, para além de quantas apenas através da comunicação social, ou até das páginas dos seus livros e artigos de revistas. Ou ainda através do folclore oral, como muito recentemente aconteceu após uma concorridíssima homenagem em Lisboa em que o Medeiros Ferreira, na presença de Mário Soares, se saiu com uma tirada depressa de boca em boca largamente reproduzida: Porque eu não sou como o Mário Soares, amigo de toda a gente!

Quem seguiu a trajectória politico-académica de Medeiros Ferreira deve reconhecer que uma das suas grandes virtudes foi, e é, a da capacidade de pensar por si e de se esquivar a filiações políticas cegas, e habitualmente comprometedoras. Medeiros Ferreira nunca foi lapa colada à pedra. Se quiséssemos associá-lo a uma criatura do mar açoriano seria a moreia, porque diz a sabedoria popular que até se escapa aos tentáculos do polvo. Nunca este consegue segurá-la a ponto de as suas ventosas se colarem à vítima para a sugar. A moreia escapa-se-lhe sempre ilesa, livre. Mário Soares não conseguiu e, se ele não o fez, mais ninguém pode. Não o consentiu nunca Medeiros Ferreira, animal político por excelência, quintessência do zoon politikon aristotélico, com um instinto para intuir - que é ler por dentro - o facto político (veja-se o seu blogue e o prestígio que alcançou entre os leitores independentes). Teve sempre a cabeça no seu lugar, primou pela sua independência, que não é sinónimo de neutralidade. Nem sequer passou pelas veleidades juvenis dos recém-convertidos ao marxismo, dispostos a dar a alma ao Mestre e a essa Nova Igreja da altura que tinha o seu Vaticano em Moscovo. Não passou por aí porque até já mesmo nos Açores conseguira evadir-se ao peso pesado da própria Igreja. Ele tem, aliás, disso perfeita consciência quando escreve no Pátria Utópica, o precioso volume colectivo do Grupo de Genebra recentemente publicado: “Embora me considere um espírito robusto, essa sensação de pertencer a uma minoria nunca mais me largou.” (p.78) O que está mal colocado nesta frase é a adversativa “embora”, que deveria ser substituída pela causal “Porque” - porque Medeiros Ferreira tem um espírito robusto é que consegue ser, ou ter, um pensar independente.

Nesse registo, por sinal, estamos aqui em presença de uma dupla que tem essa faceta em comum e é por isso com imenso prazer que junto a eles me sento, para aplaudir esse espírito que os dois tão brilhantemente exibem. Tudo quanto se segue é por demais conhecido, mas é bom ser lembrado, como aliás o faz Antóno Barreto no supra citado livro colectivo do Grupo de Genebra. Diz este último da sua experiência na Assembleia Constituinte: “No grupo de Constituintes socialistas, depressa fiz “aliança” com um pequeno grupo que tentava remar contra a maré predominante radical e esquerdista. Esse incluía José Medeiros Ferreira, Mário Mesquita, Mário Sottomayor Cardia, Rui Feijó e Nuno Godinho de Matos.” (p. 222).

Claro que não existe um ser humano perfeito nem completamente isento e muitos de nós somos dominados por forças estranhas que poucos sabem debelar canalizando-as, como bem sabe fazer o nosso homenageado. As naturais tendências gregárias, de se ir com o bando, de fazer gang, de se entrar num grupo de malta, de se perder a razão na emoção total e desinibida, em Medeiros Ferreira estão todas canalizadas para esse tubo de escape que é o Benfica. Aí, porém, estamos já no capítulo da fé e o melhor é nem nele entrar. Podemos - e com razão – lamentar a escolha, todavia reconheçamos que qualquer ser humano tem direito aos seus momentos de colocar entre parêntesis a razão e o raciocínio e se deixar entregar completamente à irracionalidade. É um desvio importante para o nosso equilíbrio psicológico.

Como o meu papel nesta sessão é abrir a festa da conversa com o nosso homenageado, vou quedar-me por aqui. Queria no entanto acrescentar ainda uma pequena nota. Medeiros Ferreira já me tinha dito há algum tempo que era ele o responsável pela criação da referência quase slogan da revolução de Abril – os três dd que resumem o programa de Abril. Os mais novos não fazem hoje ideia do que isso seja mas os presentes lembram-se. Porque várias vezes eu tenho feito referência a esses três dd, a partir da data em que Medeiros Ferreira me revelou a paternidade deles passei a fazer-lhe justiça associando-lhes o seu nome. Mas não sabia exactamente a história de como tinham surgido. Felizmente que ele a narra agora numa passagem eminentemente citável e que reproduzo aqui com prazer. Depois de descrever o ambiente em que vivia na Suíça, Medeiros Ferreira prossegue assim a sua narrativa:

“Foi nesse enquadramento geral que concebi a “tese” enviada para o Congresso de Aveiro que se realizou nos primeiros dias de abril de 1973, e na qual defendia a política dos três dd (descolonizar, democratizar, desenvolver) como programa de um possível pronunciamento militar a apoiar pela Oposição. A Maria Emília, sempre destemida, foi propositadamente a Aveiro observar as reacções suscitadas pela comunicação. Regressou apreensiva com o resultado. Ninguém acreditava no fundamento da minha ideia. Que estava desenraizado do país e da luta de massas. Só Jorge Sampaio achara apenas precoce a “heresia”. Quando regressei a Portugal, eram todos mais entusiastas do MFA do que eu… Devo o reconhecimento da importância política da tese enviada ao Congresso de Aveiro, primeiro a Mário Mesquita, que aproveitou a campanha eleitoral de outubro de 1973 para levar os candidatos do PS Pedro Coelho e Arons de Carvalho a referirem os três dd nos comícios, e que, dias depois do 25 de Abril, publicou na íntegra, no jornal República, a “tese”; e, em segundo lugar, ao capitão de abril, Vitor Alves, que recordou a importância daquele documento para o Movimento das Forças Armadas num depoimento dado à revista do Expresso a 7 de abril de 1984.” (p. 202)

E por que razão acho tão importante essa criação? Porque tenho dedicado muito do meu tempo ao estudo da questão da modernidade e, em particular, da modernidade em Portugal e no mundo lusófono. Tenho defendido, sem reclamar qualquer originalidade, que foi o nosso Antero de Quental quem mais lucidamente esboçou a radiografia da cultura portuguesa face ao mundo moderno e que o seu famoso ensaio, escrito a partir da sua intervenção nas Conferências do Casino – Causas da Decadência dos Povos Peninsulares – é o texto paradigmático que irá dividir as gentes do pensamento português (político e não só) em modernos e não-modernos. O paradigma moderno brilhantemente identificado e traçado por Antero é afinal o que subjaz a todo o ideário da revolução do 25 de Abril. Um dia fiz essa afirmação numa conferência na Universidade Nova e, no período de debate, um político português argumentou que, se esse texto de Antero era assim tão fundamental como eu afirmava, por que razão no Parlamento se falava sempre de Regeneração e não de Decadência? Expliquei-me então melhor: os políticos têm que prometer algo positivo, por isso não lhes convém falar de decadência. Regeneração era precisamente o passo resultante da tomada de consciência da decadência. Os três grandes erros apontados por Antero que levaram Portugal à decadência – a aventura ultramarina, o regresso ao antigo regime político-cultural autoritário absoluto e o fechar-se num modelo económico tradicional correspondem, na sua versão positiva e programática, aos três dd da revolução dos cravos: Descolonizar, Democratizar, Desenvolver.

Esse brilhante insight de Medeiros Ferreira revela a argúcia do intelectual preocupado com a intervenção política, e pode figurar como emblema da sua presença nessas duas vertentes da vida portuguesa contemporânea.

Que a “tremendous energy” que todos lhe conhecemos e o jornal Times nele identificou, quando era Ministro dos Negócios Estrangeiros, possa continuar por muito tempo a permitir-lhe intervir na vida pública deste país, tão necessitado de gente que saiba e esteja disposta a pensar por si.

onésimo

2 de Junho de 2012

segunda-feira, 4 de junho de 2012

COM MEDEIROS FERREIRA MAIS UMA TARDE INESQUECÍVEL NA CULSETE

A sessão do passado 2 de Junho na Culsete em torno de José Medeiros Ferreira e da sua participação na denominada crise académica de 1962, abrilhantada também pelos contributos preciosos de Onésimo Teotónio Almeida e Mário Mesquita, correu muito bem.  Depois da introdução e apresentação dos convidados, Manuel Medeiros, o anfitrião, tomou a palavra e deu  o tom e enquadramento.

Eis algumas fotos, das muitas que tirámos, a ilustrar o ambiente vivido.

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À hora marcada, o que é raro, já estavam presentes praticamente todos os participantes, alguns vindos de longe. Ouvi dizer que muitos deles aproveitaram para almoçar na cidade e provar o delicioso peixe servido num dos muitos restaurantes da especialidade.

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Entre os presentes estavam várias figuras públicas, escritores, actores, políticos…

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… personalidades relevantes em várias áreas, algumas que nos habituámos a ver e ouvir na televisão….

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…. bloguers que costumamos ler…

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… e sobretudo muitos e bons amigos, de diferentes interesses e idades, mas com o mesmo gosto, o mesmo vício: os livros e uma boa conversa à volta deles. A Culsete estava cheia que nem um ovo, da montra até ao fundo. Muitos participantes não conseguiram passar da porta e permaneceram em pé durante toda a sessão, como frequentemente acontece.

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Dos convidados, os três amigos e conhecidos de longa data, o primeiro a falar foi Onésimo Teotónio Almeida, com o espírito e a competência oratória que lhe conhecemos…

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… fazendo, de imediato, abrir sorrisos entre os presentes, sorrisos que foram uma constante durante as comunicações dos três convidados, que souberam pontilhar os seus discursos de notas de ironia muito acutilantes e actuais, tornando a escuta um prazer de redobrado sabor.

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Foi depois a vez de escutarmos Mário Mesquita, conhecedor profundo do percurso e da obra de Medeiros Ferreira, abrindo, num discurso claro e competente, a porta às  esperadas palavras deste.

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Medeiros Ferreira falou com entusiasmo, com acutilância…

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… com garra, com conhecimento de causa.

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Ficaríamos ali o resto da tarde e pela noite fora, não fossem outros compromissos que todos tínhamos, tal a forma como fomos agarrados pelo discurso de Medeiros Ferreira e pelos anteriores. Muita coisa ficou por perguntar, por aprofundar, mas esse é um sentimento que muitas vezes experimentamos após as sessões na Culsete.

Nem sempre é fácil reunir, como  na tarde do passado dia 2, à volta da mesma mesa, três intelectuais como os nossos convidados,  de primeira água, tanto na academia como fora dela, assumindo boa parte do melhor pensamento que se produz entre nós actualmente. E generosos e disponíveis como só eles. Três amigos, entre si e  amigos queridos do livreiro velho, do tempo de todas as utopias, os anos sessenta do século XX, de onde partiram em viagem de “longo curso”.

Foi bom, foi forte, foi construtor de pensamento e de percursos de leitura.
F.R.M.