sexta-feira, 31 de agosto de 2012

LÊ-SE CADA UMA & LÊ CADA UM

clip_image002_thumb1                  A CHAVE NA PORTA
Não se vai por um «escreve-se cada uma», porquê? Prefere-se duplicar o «lê» para libertar o leitor de citações. Também se poderá citar, mas em excepção.
Pretende-se que o argumento de autoridade não convença e só em seu território governe. Que assim o leitor se sinta à vontade como autor do que lê e único em seu momento. Porque o artista morre e a sua arte perdura. Como já se viu.

1

HOMEM

Inútil definir este animal aflito.

Nem palavras,

nem cinzéis,

nem acordes,

nem pincéis

são gargantas deste grito.

Universo em expansão.

Pincelada de zarcão

desde mais infinito a menos infinito.

 

2

A prioridade do humano está acima de todas. É o primeiro capital a investir, a primeira força a desencadear.

A pessoa humana em primeiro lugar. Constitui, a pessoa humana, o fim derradeiro e obrigatório de toda a política económica.

 

3

A verdade baseio em gratidão

Que mais do que as lógicas me diz

O lugar bom da minha condição

Em que sou do Universo um aprendiz.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

CONCORDÂNCIAS

O INVENTO DA SHERAZADE
clip_image002Foto de Olegário Paz
amigos e amigas copiem do mestre e leiam comigo Se eu fora o anjo que tem,
entre as mãos, a cabeça adormecida,
saberia a fonte da palavra.
          Até dos céus me chovem rosas,
              brancas e vermelhas,
                  (Encarnadas)
          que me afogam de perfumes.
(1)
à sorte dominada hoje e atrelada entre os varais da minha carruagem confiante pedirei que me leve aonde se confirme o seu presságio de tempos tranquilos e sorrisos de crianças criando os novos universos do amor do bem e da beleza
em querê-lo o viva e creia na graça que me oferece este dia-mais destes dias sobre os dias em que fui
hoje nunca é apenas hoje pois que por ontem é que dele se veio a saber e em amanhã investido cá chegou este hoje porém é um dia que se afirma em único por ser um dia de sorte
convidei por isso a sábia e corajosa sherazade para ensinar aos meus amigos e amigas o segredo de contar as histórias que em felicidade e encanto mantenham em dia-mais os dias seguintes
dias seguintes a este dia em que digo dançai e em que a morte vencida se espera que vá desistindo de vir aterrorizar as manhãs
Com as flechas do amor      cravei o sol no peito. E rubras de calor      com elas morro. (2)
R. V.
(1) e (2) Silva Grelo, A Cidade e a Sombra
        

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A MONTE E À TOA

CERTEZA VELHA EM NAUFRÁGIO
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Foto de Urbano Bettencourt

olhos de pedra por empréstimo os peço a quem os tem seus para a certeza velha de que o vento e o mar sempre me encontram no resistente abraço de antes

 

olhos de pedra voltados ao mar e sem que de nuvens pesadas de chumbo os possa afastar fechado horizonte

 

cuido que o mar por segredo é que guarda este branco de antes muito antes de terra para que venha nas vagas oferecer a meus olhos a verdade do vento sobre ele e meu corpo

 

e juntos o mar e o vento confortam o sisífico naufrágio em que me embarcaram  desde sempre embarcaram

 

uns olhos de pedra ao mar e ao vento voltados e eu confortando em silêncio e distância com a velha certeza a dor das partidas

R. V.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Abrir com PRIVILÉGIO E ANTOLOGIA E ILHA E PICO E AMANTE


Paisagens

(postal anti-turístico)clip_image002


Um seio destes, tão perfeito

e vasto,

faz-se à medida do olhar guloso

e nada casto

de S. Jorge, o santo da espada em riste.

Que a doçaria fale de «suspiro»

é coisa de somenos, não lhe faz espécie,

pois chantilly é o que ele vê

da base ao bico, o creme em que de gozo

se lambuza.

Por mim, a quem o Inverno encolhe

a imaginação e a simbólica,

penso em geleira e no Augusto Gil

e perco a tusa.

 

Urbano Bettencourt

(Por obséquio)

 

sábado, 18 de agosto de 2012

LEITOR AUTORIZADO

A CHAVE NA PORTA
clip_image002Pretende-se
que o argumento de autoridade não convença e o leitor
se autorize a ler como seu o que lê. O leitor salva o texto.

O artista é que morre, a sua arte perdura, sem ele perdura. 
Com seu nome por vezes? Mas o nome somente.
Como sempre se viu e se vê raramente.


1
Relia as cartas do velho e no peito do homem violento havia agora como que uma doce ternura, uma lassidão perante a vida, uma fraqueza, uma prece humilde, quase infantil, para que a Noite o tomasse nos seus braços, noite profunda, noite consoladora, e brandamente o embalasse para sempre.

2
Defender com argumentos lógicos seja que crença for, é muito difícil. E no entanto o triunfo das crenças tem de ser avassalador no presente para que seja possível a salvação do futuro.

3
Enquanto que o fabuloso só pode funcionar no terreno indeciso entre verdadeiro e falso, a literatura, no que lhe toca, instaura-se numa decisão de não-verdade: dá-se explicitamente como artifício, comprometendo-se, porém, a produzir efeitos de verdade como tal reconhecíveis.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

LÊ-SE a «cada uma» & «cada um» a LÊ

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A CHAVE NA PORTA

Não se vai por um «escreve-se cada uma», porquê? Prefere-se duplicar o «lê» para libertar o leitor de citações. Também se poderá citar, mas em excepção.

Pretende-se que o argumento de autoridade não convença e só em seu território governe. Que assim o leitor se sinta à vontade como autor do que lê e único em seu momento. Porque o artista morre e a sua arte perdura. Como já se viu.

1

Só isto eu queria: escrever um poema com um calor que te subisse à face. Em causa estava inflamar-te e não ensinar-te.

2

Procurei escrupulosamente não rir, não chorar, nem detestar as acções humanas, mas entendê-las. Assim, não encarei os afectos humanos como são o amor, o ódio, a ira, a inveja, a glória, a misericórdia e as restantes comoções do ânimo, como vícios da natureza humana, mas como propriedades que lhe pertencem, tanto como o calor, o frio, a tempestade, o trovão e outros fenómenos do mesmo género pertencem à natureza do ar.

3

Que o verdadeiro repouso te conduza o olhar para a Beleza. Esta é em si mesma a bondade do ser, iluminado ser. Não te permitas em atrevimento dar-lhe um nome. Explicando tudo, apenas o mistério em que te encontraste e encontras envolvido.

sábado, 11 de agosto de 2012

NESTA RODA ALARGADA DE AMIZADES




Ccordato da silva S(2)
Comentar comentários não é habitual e raramente é aconselhável ou apropriado, mas num caso assim, sob a epígrafe de «nesta roda alargada de amigos», não posso hesitar. Estes dois muito amigos, Maria João Ruivo e Onésimo Teotónio Almeida, merecem que venha dizer-lhes uma palavra sobre as suas referências ao nosso Cordato da Silva e já agora, por conexão, sobre aquelas com que provocam este R. V. que vai aqui lançando e assinando umas rodadas.
Só para facilitar:
a)Maria João Ruivo 9 de Agosto de 2012 22:38
Não conheço o seu amigo de quem fala aqui, mas já gosto dele, porque também não o deixa desistir. Tem toda a razão.
E desde quando é que o RV não tem nada para dizer?
Um abraço

b)11 de Agosto de 2012 13:35
Esse Cordato da Silva não devia estar bem acordado ainda quando disse isso. Ou então foi por saber que o RV é um provocador. Quis espicaçá-lo. Porque o RV, quando espicaçado, põe-se a galope e... adeus bengala e chapéu.
Abraço.
Onésimo

Como já desconfiava, conhecendo-o como conheço, Cordato da Silva não reagiu a nenhum de nós. Nem ao Onésimo, que muito bem conhece, nem à Maria João, a quem também ele não conhece, mas nem sequer a mim, que a esta roda o trouxe, ainda que em oblíqua maneira de o apresentar.
Confesso: dizer de um amigo, diante de toda a gente, com sinceridade e franqueza, que é um excelente amigo, soube-me mesmo bem! Quem tem a sorte antiga de ter bons amigos, bem pode citar ainda que de memória a tão velha quão preciosa sentença: «quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro».
E é por isso que me sinto rico, eu que sou um pobretanas inveterado quanto à maior parte dos aspectos da vida em que se deve ser pessoa abastada. Ter um amigo que nos permite ser um provocador sem objectivos mais solenes do que conviver em boa companhia, é um belo privilégio.
Não creiam, amigos, que o nosso Cordato da Silva me quisesse apoucar com aquela de «és só mais um». O que ele é, é um excelente amigo. Não está para concessões. Lê o que escrevo? Não lê? O que ele quer é que não perca a noção de que a escrita tem, ao menos no caso deste seu amigo, uma relação estreita com a vida e o modo de a viver. Cordato da Silva, adianto desde já, não é um provocador. É um apaziguador delicado, com um cuidado exageradíssimo em pedir desculpa à mínima suspeita de que possa não ter sido suficientemente atencioso com quem quer que seja.
Desculpem lá, caríssimos, ter-vos assim aparecido sem chapéu, ao contrário do que esperavam. Na vossa presença é pelo respeito que vos devo que, por um momento, vou deixá-lo dependurado na bengala.  
A minha última intenção para hoje, ela aí vai: cumprir as ordens do querido amigo Cordato da Silva. Resultado à vista: palavrar, palavrar, palavrar sem nada a dizer!
R. V.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

NESTA RODA ALARGADA DE AMIZADES

Ccordato da silva S
Cordato da Silva é meu amigo. Um excelente amigo. Temos alguns amigos comuns e todos dizem o mesmo. O meu desejo e intenção de apresentá-lo aqui nesta roda alargada de amizades já vai ficando antigo, mas para que consiga cumpri-lo tenho de inventar um modo compatível com a sua excessiva modéstia. Não está a ser nada fácil e ainda não é hoje que o vou conseguir. Somente contar uma daquelas que só dele.
Já não foi bom começar assim: «Se te calas, estás aí estás morto».
Argumentei: «Mas dizer o quê? Não tenho nada para dizer e falar sem dizer nada não é coisa que se faça».
Esta é que foi a pior! Vejam como me venceu e convenceu: «Falar sem dizer nada é o que mais vai por aí. Fala homem! Não tens que dizer nada! És só mais um!».
Que grande amigo! Não se importa de chegar ele ao fim da viagem, como já me confessou e acompanhando as palavras com um gesto de mãos que nenhum «é assim mesmo» confirmaria melhor, mas a mim não me deixa desistir: «Se te calas, estás aí estás morto» e «Não tens que dizer nada!».
Até me fez lembrar aquela, vulcânica, do tio Domingos com a alma nos olhos, depois de mil vezes ouvir sem responder as repreensões da tia Margarida por vir com uns copitos a mais: «ó mulher do corisco se eu não beber eu morro». Conta-se que a tia Margarida ficou de boca aberta durante um grande bocado e nunca mais atacou, nem uma vez que fosse.
R. V.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

A MONTE E À TOA

O NOSSO ARRELIANTE         

Com a cabeça atada assim e as ventosas a prolongarem-lhe as maçãs do rosto de modo nenhum o nosso Arreliante nos parecia ele. Quem teria sido capaz de o monstrualisar de tal maneira? A pergunta ficar-se-ia por este «quem» se não fosse o fio de sangue que vinha de debaixo do pano de camisa que servia de ligadura. Isso exigia uma identificação policial antes mesmo de qualquer diagnóstico em hospital. E foi disso que imediatamente tratámos. Justiça! Gente selvagem! E por aí à solta! Que falta de bons caçadores! Por mais arreliante que o nosso protegido fosse, realmente era-o muito, ao ponto de termos feito desse adjectivo um nome próprio esquecendo-nos de pensar em algum nome de baptismo que haveria de ter, ninguém, a não ser um perigoso selvagem, poderia tratar com tanta brutalidade o desajeitado e infeliz rapaz. Já há uns tempos que o protegíamos. Andaria ao deus-dará e num daqueles dias de mau tempo em que todos os bichos do campo ou se protegem ou correm risco de vida veio acolher-se na cocheira entre os nossos animais. Trouxemo-lo para dentro de casa, lavámo-lo e vestímo-lo, comeu, foi muito impressionante vê-lo comer, nunca imagináramos que o comer pudesse dar tamanha ventura a um ser humano, improvisámos uma cama na larga passagem coberta que nos permite irmos da cozinha para as arribanas sem precisar de sair à rua. Ali se aquietou. No dia seguinte não foi preciso chamá-lo, já estava à espera de lhe darmos de comer. Comeu, não o mandámos embora, mas saíu e foi-se afastando ora a voltar-nos a cara em cara feia ora a voltá-la para nós com um grande sorriso. Ficámos a olhar-nos em interrogação: donde viera? para onde ia? Nem nesse primeiro dia nem até hoje tentámos encontrar resposta. Mas que de dias a dias ele nos habituou a irmos encontrá-lo entre os nossos animais, isso sim, tornou-se em mais uma das nossas rotinas. De todas as vezes o lavávamos e vestíamos e comia e dormia naquela cama improvisada e por mais que parecesse feliz com isso e por mais que lhe pedíssemos que não voltasse a meter-se entre os animais, sempre fez o mesmo. Arreliante! Tanta vez nos ouvimos a dizer é arreliante que começámos sem dar por isso a chamá-lo assim. «Cá temos outra vez o nosso Arreliante» – sempre esta conversa. Assim se explica que um simples adjectivo possa chegar a nome próprio e que muitos selvagens possam andar por aí com muito menos direito à liberdade do que um pobre rapaz mudo que não nos diz donde vem nem para onde vai nem também consegue habituar-se a vir ter connosco directamente. Será que é melhor acolhido pelos nossos animais? Se assim é, esses não no-lo vão querer descobrir. É arreliante! Seja como for, se não voltar depois de sair do hospital, acho que vamos ficar arreliados. Porque, antes um mundo de arreliantes do que um mundo de selvagens por aí à solta.

L. V.

sábado, 4 de agosto de 2012

QUERENÇAS DO SEM-DEPOIS

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FOTO DE ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA – 3.AGOSTO.2012

O VER DE GALERA EM VERDE

 

a ilha por seu ilhéu

em seu mar como em espelho

a si se vê como é

e sua beleza  expande

 

nunca eu vou consentir

que o meu barco ao navegar

se esqueça de um longo aceno

aos encantos do seu verde

 

e um dia quando ele for

em sua aquela viagem

de que nunca voltará

vou guiá-lo para a ilha

 

feito de encalhe o abraço

ele e eu seremos dela

um pequenino pedaço

 

R. V.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

QUERENÇAS DO SEM-DEPOIS


clip_image002 FOTO DE ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA – 30.JULHO.2012


EM QUE CONSISTES

quando o existente elide as fronteiras entre o que foste e o que és a consistência divina absorve a história e já não vês o cemitério como lugar de teus mortos mas como respeito de vivos em sua condição de continuadores do muito amor com que o seu mundo eles cultivaram e em oferta ficou
R. V.