domingo, 30 de setembro de 2012

NESTA RODA ALARGADA DE AMIZADES



Cunha de Oliveira


Não é um nome que os amigos visitantes deste meu blogue desconheçam e não apenas pela sessão de que hoje apresento algumas fotos: faz hoje um ano já não era possível não trazer para aqui Cunha de Oliveira, o poeta Silva Grelo, o nosso Dr. Cunha, ao cumprirem-se os sessenta anos sobre as suas primeiras lições a este aprendiz que aqui se há-de apresentar em gratidão sempre que lhe aparecer uma boa oportunidade. 
Cunha de Oliveira esteve connosco em Abril e desejamos que volte com os seus novos livros. O próximo vai dar brado já pelo Natal. Um outro, com o manuscrito acabado, está nas mãos da D.ra Antonieta, um terceiro está a ser redigido e ao que sentimos começa a ser sonhado um quarto.

I –  MESTRE AOS 88 E DESDE OS 27
Completara vinte e sete anos em 30 de Setembro, corria o ano de 1951, quando, poucos dias depois, começou a dar aulas, as suas primeiras aulas. E nós, eu e meus colegas de ano, os mais novos dos seus alunos. Desde então nosso mestre. O seu magistério continua vigoroso e sabendo-nos a fruto precioso de uma madura juventude em rasgos de lucidez e liberdade de entendimento que poucos mestres, mesmo muito poucos,  mantêm, ao atingir esta sua idade de oitenta e oito anos.
Este imenso gosto de vir, por aqui também, com um orgulhoso abraço de parabéns! Por tanto de magistério e amizade, um generoso tanto e assim desde sempre. Muito orgulhoso abraço! E como não? Não é toda a gente que pode celebrar o aniversário de um seu mestre que o é tão actualmente como o era há sessenta e um anos, exactamente no ano lectivo de 1951-1952.
De bengala se vê o discípulo, tal como o mestre, em foto de 16 de Junho do corrente ano, feita pela mão amiga e simpática do Dr. Artur Goulart, outro dedicado aluno:

Legenda:     image
               A juventude de um mestre realçada pela velhice de um discípulo
II
Porque inesquecível, a sessão de 28 de Abril de 2012 em prenda de aniversário, por uma reportagem fotográfica do mestre apresentando na Culsete o seu livro Jesus de Nazaré e as Mulheres.
Fotos de F.R. M.
(A poucas horas da nossa sessão com A. Cunha de Oliveira, que nos vem apresentar a sua obra mais recente, Jesus de Nazaré e as mulheres – A propósito de Maria Madalena, uma edição do IAC-Instituto Açoriano de Cultura, releio o seu primeiro livro, A Cidade e a Sombra. Que extraordinário conjunto de poemas! Publicado com Silva Grelo como autor. Um pseudónimo de alguém cuja poesia marcou profundamente os jovens que éramos na altura.»
1
image
Antigos alunos reunidos antes da sessão num abraço ao mestre
image
2
Um perfil
Um olhar
Um mestre
image
image
image

3
Ouvir cada um e procurar com todos a melhor resposta às questões
image
image
image

4  
Obrigado D.ra Antonieta pelo trabalho árduo e para nós tão valioso a partir dos manuscritos - livros em escrita à mão – e que assim, por seus muitos cuidados,  vêm sendo preciosos livros publicados
DSCF6751


Depois, enquanto todos conversavam, a delicadeza concentrada na palavra individual  em dedicatória
image
 image

clip_image002[6]
IV
Obrigado, mestre, por mais um ano de magistério!
Um abraço, amigo, para este dia feliz!
AD MULTOS!
R. V.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

LÊ-SE CADA UMA & LÊ CADA UM

[clip_image002_thumb13.jpg]A CHAVE NA PORTA
Não se vai por um «escreve-se cada uma». Prefere-se duplicar o «lê» para libertar o leitor de citações. Também se poderá citar, mas em excepção.
Que o argumento de autoridade não convença e só em seu território governe. E que assim o leitor se sinta à vontade como autor do que lê. Único autor em seu momento de ler. O artista morre. A sua arte perdura porque quem a está vivendo lhe dá a sua vida.



PAZ!
1

Bem necessária paz para quem busque a autenticidade do seu pensamento! Olho as árvores a ramalhar e a exibir ao sol os seus verdes tão variados como os azuis do mar e os vermelhos do fogo. E não me canso nunca. O oceano, a árvore e o fogo são opulentas ostentações de forças elementares; o seu culto ou o debruçar-nos em respeitosa concentração sobre os seus mistérios desperta-nos instintos de mais íntima compreensão do nosso próprio mistério.

2

A noite abria-se para a nossa fogueira. Nós, ancestrais adoradores do fogo, ali sentados no calhau rolado, à calculada distância do perigo que eram as pedras estaladas pelo calor.

O que havia para contar sedimentava-se no silêncio de estarmos juntos, vivendo o rito da nossa consciência daquele mundo a que pertencíamos.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

A MONTE E À TOA

 

 

 

 


Às vezes um querer estar com as palavras

sem desejar dizê-las para alguém

 

Só escrevê-las por se estar entre elas e o silêncio

um grande silêncio

 

Sentir grande o silêncio e ainda maior a solidão

Nenhuma hipótese de ser um importuno ou um importunado

 

A verdadeira Grande Solidão não é própria nem propícia

para a ideia de ensinar seja o que for a alguém

Pelo contrário a Grande Solidão ensina

a não ensinar nada a ninguém

 

Ouves? É o silêncio total

Ninguém te vai pedir contas desta hora

Não a desperdices!

Não a desperdices!

 

Se chega uma lágrima

é para contribuir para o crescimento da Liberdade

E se entretanto a tinta as conservar para além de seis anos

talvez se possa afirmar que as palavras escritas são no presente

a voz de quem para si escreveu e sentiu

que a passageira Grande Solidão revelava a verdade profunda

do Grande Silêncio que havia de ser para sempre

R. V.

domingo, 23 de setembro de 2012

NESTA RODA ALARGADA DE AMIZADES

Ccordato da silva S(4)  
«VIDA – PALAVRA SEM ANTÓNIMO» 
 «Que conversa é essa?» - ripostou-me o nosso Cordato quando abruptamente lhe atirei para os ouvidos esta de «vida – palavra sem antónimo».
Retorqui:
«sim ou não?».
Pode qualquer um perguntar a algumas pessoas e a seguir a muitas mais:
«antónimo de morte?»
Quantas hesitarão? Alguma?
- «vida».
Ninguém hesitou.
Aparecerá ainda uma, uma sequer, que não diga nada e apenas nos ponha diante dos olhos a página 219 de Entre Dois Universos de Fidelino de Figueiredo?
Recordo o sentimento de ternura da minha primeira leitura deste capítulo  «Vida – Palavra sem Antónimo»,  o VI de tão preciosa obra:

«O vocábulo vida exprime a constância ou a vigência de um estado de longa duração. (…) O vocábulo morte não designa um estado, mas apenas aponta um facto de instantânea duração». (…) Uma revolução numa pequeníssima norma gramatical: o rigoroso antónimo de morrer é nascer».

Faz impressão, a seguir a algumas páginas deste livro de 1959, ler o que se lê na obra Diálogo ao Espelho, de 1957:

«É tarde – tarde no dia e tarde em mim ou em nós. A luz vai fugindo adiante de uma névoa pardacenta que vela e desfigura as coisas. Da minha janela contemplo a extensão brumosa e assisto à invasão do valezinho pobre pela nuvem espessa». (…) Hic fuit homo. Por aqui passou o homem. (…) É noite, muito noite. Vamo-nos deitar para antegozar a ventura do não-ser. (…) Noite cerrada. Já o mar de névoa desapareceu na caligem impenetrável. Vamos dormir. V. dorme com luz? Chame e peça-a:

Voy a dormir, nodriza mia, acuéstame.
Ponne una lámpara a la cabecera;
Una constelación; la que te guste:
Todas son buenas; bájala un pouquito.
ALFONSINA STORN

Boa noite! Durma bem! E não tenha pressa de acordar. Podia até esquecer-se disso. Um abraço fraternal.».

O livro Diálogo ao Espelho acaba assim.
Mas não era assim, não, que queria e devia terminar este texto. Perdoem amigos. Prometo que volto e digo ao que isto veio. Por agora até este pedido de desculpas está custoso. Fiquei com um aperto tal, que nem nó na garganta… E então quando olhei para as horas e ouvi em eco «boa noite durma bem e não». 

R. V.

sábado, 22 de setembro de 2012

A MONTE E À TOA

DSC05043
FOTO DE OLEGÁRIO PAZ

O U T O N O  d e   2 0 1 2
amanhã é que é domingo e só então poderei dizer

«já é a última semana de setembro» e talvez que

após uma breve pausa acrescente

«e a primeira do outono de 2012»

 

que sentido faz para mim este passar

dos dias semanas meses anos?

«não muito não muito» respondo-me

e curiosamente não digo o mesmo quanto

ao ritmo das estações

 

mais facilmente comparo o que sinto com as estações

ao ritmo dia-noite-dia do que ao meses-anos

no que estes têm do aspecto contangem do tempo

 

sim cada uma por si as estações e os meses

sim todas em conjunto as estações e os anos

e no entanto continuo a medir-me

muito mais por estações e seu impacto

quando ponho meças aos confortos e desconfortos

para que ainda cá estou nesta viagem da vida

 

o que se diz também provoca sentir o que se sente

e não apenas o contrário

o que pode ensinar-me alguma coisa

sobre a mútua influência

entre convencional e natural

mas a minha pura verdade é que

embora só amanhã possa dizer «primeira semana de outono»

na passagem de vinte para vinte e um

deste setembro e ano

senti em mim o que digo

«chegou o outono»

R. V.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

DE LIVRARIAS?… POSSO CRER?

Gostava de ir…
Se pudesse ia ao Porto só para ver se ao menos lá, em presença, conseguia acreditar num acontecimento destes…
Ora vejam, já aqui e passando para o respectivo sítio!
http://bairrodoslivros.files.wordpress.com/2012/05/image.jpeg
Acham que é fácil, para mim, acreditar numa convergência de livrarias em criar um evento para se animarem numa boa animação da cidade, e logo a cidade do Porto, onde em Junho os editores fizeram a sua velha feira?
L. V.

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

NESTA RODA ALARGADA DE AMIZADES

Ccordato da silva S(3)
Em menos de quinze dias Cordato da Silva – o amigo excelente para seus muitos amigos, devo insistir – deu-me mais duas lições daquelas que fazem uma pessoa sacudir a cabeça com força para não ceder ao estampido.
Que sensibilidade ao bom senso! Que autenticidade de atitudes! Que simples assumir-se na consciência das fragilidades da idade, nem tanto no plano físico, mas acima de tudo no mental!
O momento em que as lições me chegaram não me interessam nada para este vir continuar as histórias do meu admiradíssimo Cordato da Silva.
O caso para aqui, em para além dos casos, é ele ser capaz de encarar as fragilidades da idade como quem já viveu o que tinha a viver. Bem tento dizer a toda a gente menos idosa que a vida vai para esta verdade que o Cordato da Silva me enuncia com uma maturidade que mais impressiona do que a de Cícero em seu monumento à velhice:
«é natural».
Depois disso o que havia eu de ler em Do Natural, de Sebald, já no fecho da obra!?
«Mais tarde li num outro / professor que temos a morte diante de nós / como na sala de aula temos / a batalha de Alexandre na parede.»
É por isso que…
Como é que me acontece estar com as  ditas lições do amigo Cordato da Silva e de seguida dar com isto! Coincidências?  É ao que se deve chamar de coincidência?
Segundo estas lições, a morte, antes que para acontecimento, é para natural aprendizagem como em quadro de giz ou mapa-mundi. Pendurada na parede desde que entrei para a escola de aprender a vida… É simples?
R.V.

sábado, 15 de setembro de 2012

«LIBERDADE QUERIDA E SUSPIRADA»


http://nestahora.blogspot.pt/2012/09/bocage-no-seu-dia.html
Bocage, em parede na Rua General Daniel de Sousa, em Setúbal


15 de Setembro
Dia do Bocage

15 de Setembro
Dia de sentir em manifestação  livre
a Revolta do Povo Português

15 de Setembro
Um dia para uma Revolução ser lembrada
e talvez somente não recomeçada porque…

quando os militares saíram à rua
o povo saiu em seu apoio
e foi por isso a vitória
da revolução sem sangue

e hoje
quando o povo saiu à rua
só o povo
só o povo
só o povo

sem forças nem chefes a revolta
continua no sempre ler Bocage

«liberdade querida e suspirada»


R. V.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

EUGÉNIO LISBOA: As CARTAs E A ONDA



Vou limitar-me à blogosfera:
nestahora.blogspot.com/

www.doutrotempo.com/livros/carta-manuscrita/672
nova-voz.blogspot.com/.../com-luva-eugenio-lisboa-com-luva-por-si...
arseteducatio.blogspot.com/.../editorial-carta-ao-primeiro-m...
aorodardotempo.blogspot.com/
pedroroloduarte.blogs.sapo.pt/283162.html
daliteratura.blogspot.com/2012/09/aos-governantes-de-dererummundi.blogspot.com/.../carta-aberta-eugenio-lisboa_4.htmlportugal.html
ilhas.blogspot.com/
searasdeversos.blogspot.com/
chapeuebengala.blogspot.com/
livrespensantes.blogspot.com/
guidarte.blogspot.com/
alicealfazema.blogs.sapo.pt/
conversarempeniche.blogspot.com/
tempoderecordar-edmartinho.blogspot.com/
republicadassantasbicicletas.wordpress.com/.../passos-coelho-apos-an...

Peço ajuda: continuem. Este arrolar  faz para mim muito sentido. É animador! Ver como, afinal, um intelectual, digo, os intelectuais podem… Será que as cartas de Eugénio Lisboa vão servir de abertura para outras que talvez os intelectuais nos devam?

Por aí, ao passar por este post, algum amigo se perguntará se não quero acrescentar mais nada?
 
Realmente…
Por estas cartas se vê que é bom ter cuidado com os velhos quando velhice e poderes lhes fazem sentir o que bem sentem. Isso mesmo:
sentir que já não há nada a perder é um perigo!
Que os velhos o sintam, pois esses já não têm vigor para empinar a carroça.
E se contagiam a sociedade?
E se as gentes em pleno activo o sentirem?

Mas, sim, isto é, não: 
para uma possível pergunta de amigo, esta a resposta:
por hoje, acrescentar fosse o que fosse seria…
A não ser, numa de livros, como talvez me compita, acrescentar uma chamada de atenção para a bibliografia activa e passiva de Eugénio Lisboa. A capa que acima se reproduz é só um incentivo a que…
L. V.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

«EU SOU QUEM FUI» 18.IV.1842-11.IX.1991

URBANO BETTENCOURT            DSCF2680
O Gosto das Palavras I, página 65
Um homem lança a âncora, a semente, quem lhe poderá negar esse direito? Ou quem lhe poderá recusar o direito de fazer dum banco um barco e nele partir definitivamente (…)?

JOÃO DE DEUS             
Campo de Flores, 9.ª edição, página 331
NA CAMPA DE ANTERO DE QUENTAL
Aqui… jaz pó; eu não; eu sou quem fui…
Raio animado de uma Luz celeste,
À qual a morte as almas restitue,
Restituindo à terra o pó que as veste.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

EUGÉNIO LISBOA: A CARTA E A ONDA

Do blogue de EduardoPitta
http://daliteratura.blogspot.pt/

CARTA ABERTA AO PRIMEIRO-MINISTRO

 

 

O texto que publico na íntegra é do escritor e ensaísta Eugénio Lisboa. Os sublinhados são da minha responsabilidade.

 

O autor foi presidente da Comissão Nacional da UNESCO / conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal em Londres entre 1978-1995 / professor catedrático especial de Estudos Portugueses na Universidade de Nottingham / professor catedrático visitante da Universidade de Aveiro / e coordenador do ensino da língua portuguesa na Suécia. É Doutor Honoris Causa pelas universidades de Nottingham e Aveiro. A Câmara de Cascais outorgou-lhe a medalha de Mérito Cultural.

 

Em Moçambique foi sucessivamente administrador e director das petrolíferas SONAPMOC, SONAREP e TOTAL.

 


CARTA AO PRIMEIRO-MINISTRO DE PORTUGAL


Exmo. Senhor Primeiro Ministro


Hesitei muito em dirigir-lhe estas palavras, que mais não dão do que uma pálida ideia da onda de indignação que varre o país, de norte a sul, e de leste a oeste. Além do mais, não é meu costume nem vocação escrever coisas de cariz político, mais me inclinando para o pelouro cultural. Mas há momentos em que, mesmo que não vamos nós ao encontro da política, vem ela, irresistivelmente, ao nosso encontro. E, então, não há que fugir-lhe.


Para ser inteiramente franco, escrevo-lhe, não tanto por acreditar que vá ter em V. Exa. qualquer efeito  —  todo o vosso comportamento, neste primeiro ano de governo, traindo, inescrupulosamente, todas as promessas feitas em campanha eleitoral, não convida à esperança numa reviravolta! — mas, antes, para ficar de bem com a minha consciência. Tenho 82 anos e pouco me restará de vida, o que significa que, a mim, já pouco mal poderá infligir V. Exa. e o algum que me inflija será sempre de curta duração. É aquilo a que costumo chamar “as vantagens do túmulo” ou, se preferir, a coragem que dá a proximidade do túmulo. Tanto o que me dê como o que me tire será sempre de curta duração. Não será, pois, de mim que falo, mesmo quando use, na frase, o “odioso eu”, a que aludia Pascal.


Mas tenho, como disse, 82 anos e, portanto, uma alongada e bem vivida experiência da velhice — a minha e da dos meus amigos e familiares. A velhice é um pouco — ou é muito – a experiência de uma contínua e ininterrupta perda de poderes. “Desistir é a derradeira tragédia”, disse um escritor pouco conhecido. Desistir é aquilo que vão fazendo, sem cessar, os que envelhecem. Desistir, palavra horrível. Estamos no verão, no momento em que escrevo isto, e acorrem-me as palavras tremendas de um grande poeta inglês do século XX (Eliot): “Um velho, num mês de secura”... A velhice, encarquilhando-se, no meio da desolação e da secura. É para isto que servem os poetas: para encontrarem, em poucas palavras, a medalha eficaz e definitiva para uma situação, uma visão, uma emoção ou uma ideia.


A velhice, Senhor Primeiro Ministro, é, com as dores que arrasta — as físicas, as emotivas e as morais — um período bem difícil de atravessar. Já alguém a definiu como o departamento dos doentes externos do Purgatório. E uma grande contista da Nova Zelândia, que dava pelo nome de Katherine Mansfield, com a afinada sensibilidade e sabedoria da vida, de que V. Exa. e o seu governo parecem ter défice, observou, num dos contos singulares do seu belíssimo livro intitulado The Garden Party: “O velho Sr. Neave achava-se demasiado velho para a primavera.” Ser velho é também isto: acharmos que a primavera já não é para nós, que não temos direito a ela, que estamos a mais, dentro dela... Já foi nossa, já, de certo modo, nos definiu. Hoje, não. Hoje, sentimos que já não interessamos, que, até, incomodamos. Todo o discurso político de V. Exas., os do governo, todas as vossas decisões apontam na mesma direcção: mandar-nos para o cimo da montanha, embrulhados em metade de uma velha manta, à espera de que o urso lendário (ou o frio) venha tomar conta de nós. Cortam-nos tudo, o conforto, o direito de nos sentirmos, não digo amados (seria muito), mas, de algum modo, utilizáveis: sempre temos umas pitadas de sabedoria caseira a propiciar aos mais estouvados e impulsivos da nova casta que nos assola. Mas não. Pessoas, como eu, estiveram, até depois dos 65 anos, sem gastar um tostão ao Estado, com a sua saúde ou com a falta dela. Sempre, no entanto, descontando uma fatia pesada do seu salário, para uma ADSE, que talvez nos fosse útil, num período de necessidade, que se foi desejando longínquo. Chegado, já sobre o tarde, o momento de alguma necessidade, tudo nos é retirado, sem uma atenção, pequena que fosse, ao contrato anteriormente firmado. É quando mais necessitamos, para lutar contra a doença, contra a dor e contra o isolamento gradativamente crescente, que nos constituímos em alvo favorito do tiroteio fiscal: subsídios (que não passavam de uma forma de disfarçar a incompetência salarial), comparticipações nos custos da saúde, actualizações salariais — tudo pela borda fora. Incluindo, também, esse papel embaraçoso que é a Constituição, particularmente odiada por estes novos fundibulários. O que é preciso é salvar os ricos, os bancos, que andaram a brincar à Dona Branca com o nosso dinheiro e as empresas de tubarões, que enriquecem sem arriscar um cabelo, em simbiose sinistra com um Estado que dá o que não é dele e paga o que diz não ter, para que eles enriqueçam mais, passando a fruir o que também não é deles, porque até é nosso.


Já alguém, aludindo à mesma falta de sensibilidade de que V. Exa. dá provas, em relação à velhice e aos seus poderes decrescentes e mal apoiados, sugeriu, com humor ferino, que se atirassem os velhos e os reformados para asilos desguarnecidos, situados, de preferência, em andares altos de prédios muito altos: de um 14º andar, explicava, a desolação que se comtempla até passa por paisagem. V. Exa. e os do seu governo exibem uma sensibilidade muito, mas mesmo muito, neste gosto. V. Exas. transformam a velhice num crime punível pela medida grande. As políticas radicais de V. Exa, e do seu robôtico Ministro das Finanças — sim, porque a Troika informou que as políticas são vossas e não deles... — têm levado a isto: a uma total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página.


Falei da velhice porque é o pelouro que, de momento, tenho mais à mão. Mas o sofrimento devastador, que o fundamentalismo ideológico de V. Exa. está desencadear pelo país fora, afecta muito mais do que a fatia dos velhos e reformados. Jovens sem emprego e sem futuro à vista, homens e mulheres de todas as idades e de todos os caminhos da vida — tudo é queimado no altar ideológico onde arde a chama de um dogma cego à fria realidade dos factos e dos resultados. Dizia Joan Ruddock não acreditar que radicalismo e bom senso fossem incompatíveis. V. Exa. e o seu governo provam que o são: não há forma de conviverem pacificamente. Nisto, estou muito de acordo com a sensatez do antigo ministro conservador inglês, Francis Pym, que teve a ousadia de avisar a Primeira Ministra Margaret Thatcher (uma expoente do extremismo neoliberal), nestes  termos: “Extremismo e conservantismo são termos contraditórios”. Pym pagou, é claro, a factura: se a memória me não engana, foi o primeiro membro do primeiro governo de Thatcher a ser despedido, sem apelo nem agravo. A “conservadora” Margaret Thatcher — como o “conservador” Passos Coelho — quis misturar água com azeite, isto é, conservantismo e extremismo. Claro que não dá.


Alguém observava que os americanos ficavam muito admirados quando se sabiam odiados. É possível que, no governo e no partido a que V. Exa. preside, a maior parte dos seus constituintes não se aperceba bem (ou, apercebendo-se, não compreenda), de que lavra, no país, um grande incêndio de ressentimento e ódio. Darei a V. Exa. — e com isto termino — uma pista para um bom entendimento do que se está a passar. Atribuíram-se ao Papa Gregório VII estas palavras: “Eu amei a justiça e odiei a iniquidade: por isso, morro no exílio.” Uma grande parte da população portuguesa, hoje, sente-se exilada no seu próprio país, pelo delito de pedir mais justiça e mais equidade. Tanto uma como outra se fazem, cada dia, mais invisíveis. Há nisto, é claro, um perigo.

 


De V. Exa., atentamente,

 

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O EDITOR MANUEL HERMÍNIO MONTEIRO

60 ANOS SÓ HOJE…

E AINDA SERIA MUITO CEDO

PARA O PERDERMOS…

Para comemorar os 60 anos do nascimento do editor português Manuel Hermínio Monteiro, um dos casos de espantar no nosso mundo por ter querido e conseguido dedicar-se tão preponderantemente à edição de poesia e atingindo o sucesso que ainda perdura, desejei ir, por ler o prefácio do seu punho, ao, mais do que legado, monumento que concluiu à beira do fim e que é Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro.

Esse belo prefácio ou introdução que tem por título «À maneira de uma cosmogonia», termina com esta frase, sem dúvida circunstancial, directamente referida «à Porto 2001/Capital Europeia de Cultura», mas…:

«Para nós foram um exemplo e a melhor demonstração de que lidámos com verdadeiros responsáveis culturais».

Peço que voltemos atrás para juntos lermos as primeiras duas páginas, a IX e a X e traduzirmos em ideia e sentimento estas extraordinárias palavras, de uma pureza de corrente na montanha:

«Ainda sabemos muito pouco da essência e do secreto milagre da Poesia. (…) Aspiramos o seu perfume e dizemos, que bom seria se ele desse uma volta completa e perfeita a este mundo.»

Desejava e creio que devia acrescentar de mais algumas palavras este post, mas estou comovido e, pronto!, fica em só mais isto: porque é que alguém morre assim, tão novo, com tanto para dar, com tanta falta que nos faz?…

Manuel Medeiros

domingo, 9 de setembro de 2012

A MONTE E À TOA

AO MENOS RAIVA
essa tua revolta inútil de quem luta e é ineficaz porque não pode vencer a descrença geral que ao suicídio nem da garganta nem da vida te condene

tropegamente embora vou contigo gritar a nossa raiva à meia noite no centro da cidade

não acordaremos consciências mas sobreviverás porque a raiva mesmo assim é alguma energia e a garganta que grita é salva-vidas

a vida que vale mais em suicídio do que a crises curvada por raiva ao menos se liberte e se salve no grito desta noite de medos ladrões e obtusos
R. V.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A MONTE E À TOA

clip_image002
POEMA DE AINDA UM COPO POR UM VELHO AMIGO
só venho por contar uma história
ainda não sei bem como
recuso-me a desejar que seja em poema
ou de outro modo qualquer do nosso catálogo
as coisas têm de acontecer sem qualquer compromisso
e no fim
se nos tivermos entendido não apenas no dito
mas também num modo sério de ir por uma expressão de arte
ainda bem e sinto este desejo de repetir
ainda bem

de dias a dias naquele mês de aldeia em verão
lá pela tarde
o nosso encontro de amizade delicadamente cuidadosa
e de antigas e firmes raízes
pedia sempre uma partida de bisca de quatro
e de vez em quando um copo

o tio jacinto soubera viver
e agora que o peso da idade o prendia em casa
ainda era admirável o seu estar em si e connosco
toda a gente que passava
e quem vinha que era mesmo para com ele passar um bocado

no verão sentava-se à porta de casa
bem disposto
apoiado ao seu bordão
sempre que não tinha as mãos ocupadas
debruçava-se no seu bordão
um rijo pau do mato que bem cortou
e depois descascou e deixou secar à sombra lá atrás no palheiro
belos tempos

voltada ao nascente
a casa oferecia
às nossas tardes
sombra amena
e nessa tarde
foi o caso
que hoje conto

o tio jacinto tinha muito colado em seu semblante
um permanente sorriso de apreciador do bom espírito
quando dizia uma das dele era de mais para nós
mas ficava-se por si como se nada houvesse de que rir
mantinha-se naquele mesmo velhaquinho sorriso
e os olhos como sempre meio fechados meio abertos
vendo tudo como quem não dá por nada
de vez em quando levantava-os e o seu brilho
era do melhor que uma sensibilidade inteligente produz

com a idade
a dele e a minha
aquela sabedoria sem o peso próprio de algumas seriedades
aquele tornar leve o estar no tempo
que admirei desde quando em meus verdes anos
sobrando-lhe muitos dias das suas
ia trabalhar nas terras de meu avô
fizeram de nós uns amigos
que muito bem se entendiam
homem ainda novo eu
e ele um velho ainda com muito fôlego

nessa tarde em que eu ia
em depois de jogarmos mais uma partida
para o habitual até-à-próxima de quem
vai voltar ao seu serviço num longe da pequena localidade natal
o tio jacinto pediu-me para lhe trazer o garrafão
«enchogalhou-o» e sorrindo como sempre
dirigiu-me o seu olhar brilhante e disse
ainda tem vinho para mais esta nossa despedida
podes trazer os copos

foi o nosso último copo
ainda sinto a grandeza simples
desse momento da mais rica humanidade
e finalmente digo aqui
o que nunca disse a ninguém
e nem sei por que agora o digo

é assim
quando estou sozinho
se é para beber um copo bebo dois
é pelo tio jacinto
o inesquecível amigo
que antes de me pedir que trouxesse copos
mandou-me pelo garrafão
e só depois de o «enchogalhar» em sua mão que media
então me disse
ainda dá para…

e deu…
até hoje…
até sempre?…

R. V.