quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

EM SALRIO HÁ UM CAIS (3)

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«PARA QUE SERVEM OS POETAS EM TEMPO DE INDIGÊNCIA?»




É um privilégio que compensa o preço a pagar por ter ido além do razoável.
Teimosia de uma pessoa em superar-se para manter uma livraria com melhor função do que servir fast-books…
Ouvir a notícia da atribuição do Prémio Correntes d’Escritas a Hélia Correia, estender a mão e aqui tenho o livro para só agora, em despertadas atenção e curiosidade, o abrir: A Terceira Miséria.

 

Trinta e três poemas curtos, mesmo relendo uns quantos, lêem-se em pouco tempo. Valeu a pena. Expectativa excedida. Praticamente só o título me deixou em reticente. Para meu uso pessoal reduzi-o a subtítulo e para substituí-lo alcancei essa preciosidade com que abre o primeiro poema, portanto o livro, e que aparece repetido no início do nono:

«para que servem/ os poetas em tempo de indigência?»

 

Não é que não tome como também precioso o poema vigésimo terceiro, donde…

Até compreendo a escolha, ao sentir a sua força. Vai integralmente transcrito.

 

«A terceira miséria é esta, a de hoje.

A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua».

 

Talvez agora ir à estante à procura do único romance de Friedrich Hoderlin que levou duzentos anos (!!!) até chegar à tradução e edição portuguesa, apesar da sua beleza e importância na literatura europeia: Hipérion ou o Eremita da Grécia. E talvez baste uma referência explícita à personagem tão metafórica que é Diotima para entrarmos no cerne de A Terceira Miséria. Partirmos do actual caso grego para um reconhecimento de que este conjunto de poemas de desolação, sendo tão localizado, se abre em universal, como acontece com todas as obras de arte que merecem ser premiadas.

 

E, por fim…

Permitam-me…

Vivam as livrarias em que é possível, apesar de serem poucos os leitores que os procuram, encontrar livros de selecção, como este de Hélia Correia!

 

As Correntes d’Escritas, cada vez mais importante acontecimento literário nacional e com alguma projecção também a nível internacional, premiando A Terceira Miséria. Em minha modesta opinião, com sensibilidade e muito oportunamente.

R. V.

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