domingo, 24 de fevereiro de 2013

EM SALRIO HÁ UM CAIS (4)

TRÊS DIAS CLANDESTINOS
Cabo do Sardão (2)E UM GATO COM FOME…

Desci as escadas, fiz vinte e três passos de rua, voltei à esquerda na primeira esquina, entrei na antiga Loja das Convicções e comprei três dias.

Em moço passava horas e horas nesta antiga Loja das Convicções, sem dar muito nas vistas, a ouvir disfarçadamente sábias pessoas de idade. Agora? Desde que virou loja de cifões, digo, cifrões? Repelente,pelo cheiro e por tudo, esta antiga loja.

«Três dias de uma só vez?!» Vi-os a dizerem-no para dentro em surpresa, de olhos em mim, mas sem uma palavra, o importante é vender, quanto mais melhor e se o maluco tem com que pagar…

Venderem como seu o que sempre foi de todos! Mas paguei. E caríssimo. Já nada é nosso, o chão é d’Eles, a água é d’Eles, venceram o Sol, só posso comprar três dias, vamos a ver se chegam. Quero chegar pelo menos até à sensação de que por momentos e por milagre me livrei d’Eles.

Senti-me explorado, mas fazer o quê? Saí caladinho, como quem está acomodado e já nem em sonhos pensa em ir além das fronteiras com que nos cercaram. Caladinho e assobiando, para disfarçar. Não fossem seguir-me, cobrar-me alguma licença por sair de cá e meterem-me no esqueleto um chip para me controlarem e perseguirem.

Já não voltei a casa. Tinha orientado o gato, combinei tudo de modo a que se distraísse e se alimentasse. Antes de passarem os três dias não queria que precisasse de incomodar a vizinha. Depois disso …

Cavalguei um dos dias, pus os outros um debaixo de cada braço, já se verá porquê, fiz pontaria para um ponto da costa aonde me parecia possível ainda encontrar um recanto selvagem. E não é que tive a sorte de acertar?! Não vou em identificá-lo aqui, é bom não divulgar. Em querendo lá voltar… Falar dele só se, em segredo, a algum amigo que partilhe os mesmos sentimentos de rebeldia contra o poder d’Eles.

Muito bom se toda a gente quisesse e merecesse um sítio onde respirar um pouco de liberdade, numa esperança de o mundo se libertar d’Eles!

A maré estava a subir. Pus-me à procura e encontrei uns arbustos de que aprendi em criança a apreciar os rebentos, estavam mesmo no ponto, fui saboreando, um prazer tranquilo, à espera de que a maré começasse a descer.

E foi então, na vazante! Com os dois dias que levava debaixo dos braços entrei na água. Mar! Mar! Mar! Como previra a maré afastou-me para além da rebentação e depois foi só abandonar-me às correntes, sentir-me deliciosamente à deriva, numa de mar alto.

A certa altura senti que já não estava só. Voltei-me e um tronco nu chapinhava a pouca distância, ao ritmo da ondulação. Que árvore teria sido? E onde? Em ilha ou continente? Também seria uma fuga d’Eles? Nem mais nem menos! Aproveitara um balanço que propositadamente lhe proporcionara o barco amigo em que a mando d’Eles fora enviado para longe das suas amadas colinas, vendido como escravo, e voltara a ser feliz, só por sentir que, embora não pudesse recuperar-se em verdes ramos, recuperara a responsabilidade pelo seu destino. Livre d’Eles! Que sensação!

Evitou dizer-me donde vinha e que rumo planeara para o seu dar à costa. Hoje percebo. E se eu voltasse para o meio d’Eles? E se me descaísse e dissesse à vizinha que tinha sido meu companheiro no mar alto? E se de dito em dito chegasse ao ouvido d’Eles? Ainda eram capazes de capturá-lo só pela afirmação de poder, tirando-lhe a liberdade que tantos encontrões lhe custara e iria custar, mas que a qualquer preço valeria sempre a pena.

Lá o deixei em sua intrepidez de não perder-se do seu destino de solitário, mas livre. Invejo-o, cada dia o invejo mais, ao sentir esvaziar-se a esperança de que sejamos capazes de ser uma sociedade que se liberta d’Eles.

O que me aconteceu, e expliquei-o ao tronco porque para ele isso já não…, foi que senti fome e lembrei-me do meu gato. Ter de pedir esmola à vizinha ou dar em ladrão... Além de que eu tinha uma fome daquelas que vence qualquer teoria. Cá estou. Mas não sei se vou aguentar por muito mais tempo isto de que tudo seja d’Eles. Se convencesse o meu gato e fôssemos viver no meu recanto ainda selvagem da costa? Peixe, rebentos, um ratinho que se atrevesse…

Isto, porque alguém tem que ir sonhando com nos libertarmos d’Eles. Ao menos em sonhos.

R. V.

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