quinta-feira, 11 de abril de 2013

DIA DA ARRÁBIDA E DE SEBASTIÃO DA GAMA – HOJE É 10 DE ABRIL. MAIS UMA E OUTRA VEZ ME SINTO… -POSSO CONTAR? EM «a aventura da vida»?!!!

“A nossa vida só é nossa vida porque os outros existem. Com a sua dimensão cristalizam o que somos, reinventam a essência do nosso ser. E percebe-se melhor esta importância vital dos outros quando escalámos já a montanha de décadas longas vividas, já estamos a ver o lento (será lento ou rápido?) adormecer do Sol.

Matilde Rosa Araújo,

na oração que proferiu

na primeira celebração

do 10 de Abril de Sebastião da Gama

(In Papel a Mais, p. 201).

E adiante, na mesma página:

“Eras moço não pela idade, mas porque em ti havia a aventura da vida, uma aventura feita de ventura que caminhava sobre o abismo. Era essa a tua alegria.”

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http://www.mun-setubal.pt/pt/noticia/exposicao-evoca-sebastiao-da-gama/1332

 

Serão de 10 de Abril de 1986. Há 27 anos a primeira vez comemorado o 10 de Abril do nosso poeta-professor Sebastião da Gama, neste dia nascido, falecendo com 27 anos a 7 de Fevereiro de 1952. Fazer prevalecer a comemoração do nascimento sobre a do falecimento, que vinha de vez em quando acontecendo desde 1953, compreensivelmente: para família, colegas, alunos, amigos, conterrâneos, toda a sua muita gente que ele cativara, em alegria e generosidade, com a genial abertura ao outro, a morte do Sebastião da Gama, tão jovem, foi… Nem chegando a completar os 28 anos que de vez em quando lhe atribuem.

Comemorar em festa a chegada à vida de quem tanto amou a vida, de quem viveu em exuberância plena “a aventura da vida”!!!

Matilde Rosa Araújo proferindo a sua oração, em 1986, a esta hora de meu serão tranquilo, sentado para esta escrita no cadeirão junto à minha cama no Hospital de São Bernardo.

Mas não foi em voltar 27 anos atrás que investi a pergunta do título deste post.

Se posso, vamos a ver se a alguém…

 

Contar, sim, a minha vivência da 27.ª comemoração do 10 de Abril, agora Dia da Arrábida e de Sebastião da Gama – que acertado encontro! - e confirmando, 27.ª.  Em nenhum ano, desde 1986, deixou de haver, com mais ou menos brilho, honra seja à municipalidade, algum acto público comemorativo.

 

Contar sem outras derivas apenas o que vem ainda em emoção para estas linhas do “passeio” que de tarde o Sr José Joaquim Torres e eu tivemos de dar, para radiografias, daqui do 5.º piso, sala 5, até ao piso 0. Juntos na ida e na vinda, no tempo de espera da nossa vez ao lado uma da outra as cadeiras de rodas.

Em trajecto pelos corredores do piso 5 pode ver-se a nossa Serra Mãe e Deusa. Vi, é evidente que…

 

Mas antes…

Já estava na cadeira e no corredor, nem me apercebera ainda de que também iam levar o Sr. Torres, e digo à senhora auxiliar: “a esta hora deve haver muito serviço, vou estar à espera, tenho que levar alguma coisa para ler e se me fizesse o favor ia à minha mesa de cabeceira e trazia-me um livro que tem um escritor na capa chamado António Cabral.

“Serve este?” De facto, tinha estado de manhã a ler o outro e deixara-o invisível. “Este” era o meu Papel a Mais que, por necessidade, para cá me foi trazido. Não atrasaro serviço: “serve”.

 

Falo no Dia da Arrábida e de Sebastião da Gama durante a “viagem” para o piso 0 e não me admirei de dar uma novidade. Dela me veio uma das de beleza em surpresa com momento certo!!!

As nossas camas estão cada uma em seu extremo, há dias aqui, ambos nesta sala com mais outros dois doentes.Alguma comunicação, mas mobilidade temos tido pouca. E mesmo que… Como iríamos a esta conversa que pelo 10 de Abril é que veio?

O Sr. Torres vai fazer 81 neste ano em que o nosso poeta da Arrábida faria 89.

Banheiro na praia do Portinho desde os 17 anos, só aos 30 também senhor do seu restaurante, mesmo no meio do areal, a uns 20 metros da água… Onde isso já vai!… Areal com que largura, agora? O actual restaurante encostou à encosta.

 

“ Conheci muito bem o Sebastião da Gama”.

Adiantou-se conversa. Sobre o tempo da Estalagem de Santa Maria e o pai do poeta e mais vida vivida. Tantos anos de Arrábida! Com não poucos de uma residência com a maré a trazer-lhe o mar para debaixo, entre pilares. Na hora da visita, a filha, que nasceu em Setúbal, a dizer-me que nasceu em Setúbal, mas  apenas com uma semana já estava a viver a sua infância na praia do Portinho da Arrábida. Até à idade da escola.

Posso só isto mais acrescentar, sendo que é o mais importante? A imagem que me transmitiu o Sr. Torres, um arrabidino desde há 63 anos, do Sebastião da Gama no seu passeio matinal, de boina na cabeça e livro debaixo do braço, dando sempre uma palavra. A praia, percorrida de ponta a ponta. “Depois metia-se pela Serra”.

 

Contei. Desculpem não contar mais e melhor. Ainda assim talvez esteja um bocadinho cansado… E no entanto vou ter que acrescentar o que…

Uns minutos de estar sozinho e…

Como? Pois foi. O texto da Matilde in Papel a Mais,Sebastião, a que é que sabe a Vida?”, a iluminar estes meus olhos gastos, mais uma vez. De cada vez que o releio, digo-me: “que grande texto”, “que texto tão belo”, “que texto tão rico na obra da Matilde, para nossa leitura do que viveu, do que conviveu, do que…” De tanto!

 

E… …(amanhã vou reler Miguel Real, Nova Teoria da Felicidade, p. 28 e segs). Agora mesmo para ficar por aqui, cuidado…

Posso pedir, meus amigos, que se ponham no meu lugar, ao reler hoje e aqui as palavras de Matilde que acima citei e venho de novo citar?

Depois só mais pedirei que estale um foguete forte e quando as pessoas perguntarem: “o que é isto?” a resposta venha em alto e propagando som: “é o DIA DA ARRÁBIDA E DE SEBASTIÃO DA GAMA”.

 

E percebe-se melhor esta importância vital dos outros quando escalámos já a montanha de décadas longas vividas, já estamos a ver o lento (será lento ou rápido?) adormecer do Sol.

Aqui, num ambiente tranquilo, em recuperação de mais uma de uns quantos dias de “vê se te aguentas”, que maravilhosa sensação ler isto, tão verdadeiro em minha idade agora quanto era para a Matilde na noite de 10 de Abril de 1986, o Coro Alto do Convento de Jesus.

R. V.

5 comentários:

  1. As suas palavras lêem-se com emoção. A minha mãe foi aluna de Sebastião da Gama e fala dele sempre com muita ternura.

    Hei-de falar à minha mãe nestas suas palavras.

    Desejo-lhe uns dias bons.

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    1. não acredito!
      e eu que tanto desejei ontem conviver como há 27 anos com os alunos de sebastião da gama... sente-se neles o que...
      obrigado
      mm

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  2. Assim que terminei a visita ao Sr. Torres vim a correr para casa.

    Li com atenção o post; percebe-se a homenagem e admiração por Sebastião da Gama. Fui abalado nas bases, por onde as casas começam e se sustentam, ainda mais comovido com os acasos do seu dia 10 de Abril e do meu dia 12, ou seja, hoje mesmo. Estive frente a frente com quem me pariu para a leitura. Foi o Sr. Medeiros, de chapéu e bengala, coma sua saudável vaidade intelectual, que me apresentou a Hermann Hesse e Italo Calvino. Depois, tomado o remédio, fui seguindo livro fora até parar na página onde o encontro a si numa cama de hospital, separado por invisiveis paredes meias com o meu avô, o Sr. Torres.

    Obrigado Sr. Medeiros.

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  3. A minha mãe era (e é) muito loura e o Sebastião da Gama escreveu num papelinho:

    O cabelo é de oiro
    Para que vejam bem
    Que o coração
    É de oiro também

    Ela fala dele sempre com grande ternura, ele era um professor diferente. Dava mais importância ao gosto da leitura do que aos rigores da gramática. E tocava os alunos através da emoção que punha na leitura dos textos.

    Como o meu pai está agora muito dependente, a minha mãe também está dependente (dele, de lhe dar assistência) e, por isso, pouco pode sair a passeio; vai às compras ou aos médicos, tudo sempre à pressa. Senão, diria para ela ir passando pela sua livraria para ver se um dia o encontrava. Mesmo assim, vou dizer.

    Dias felizes para si!

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  4. Por causa do que o RV diz aqui (ainda há poucos dias reli o lindo texto de Matilde Rosa Araújo), na Próxima Quinta, 18 de Abril, dia de Antero de Quental e do nosso Liceu de Ponta Delgada, quando os meus dois alunos estiverem a ler, na Biblioteca, o poema de Sebastião da Gama "Nasci para Ser Ignorante", juro que vou lembrar-me de si, Tio.

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