sexta-feira, 31 de maio de 2013

CRIANÇA: «o tempo de nascer»

DSC_0410Foto A. Goulart

Romper das águas

Quando eu nasci, o tempo
de nascer ainda não tinha chegado.
Dizem que nem unhas tinha,
só arremedos de sobrancelhas,
olhos bordados de espanto
entre o esgar e o sorriso.
A incubadora que me esperava
era a quentura dos braços de minha mãe
e o olhar apoquentado e terno de meu pai.

O destino tocava um minueto
no piano desafinado da casa do meu avô
e o meu tio padre exorcizava
diabólicas venturas e sacros devaneios.

Ainda hoje, que já percorri
mundos e mares e que a ilha me comove
vigilante de horizontes,
no amor que me consome,
aguardo, sem pressas,
o tempo de nascer.

Artur Goulart

1 comentário:

  1. Este poema veio mesmo a calhar. Participei ontem, 1 de Junho, numa mesa-redonda com a Alice Vieira e o Rui Zink a fechar o Letras a Oeste na Lourinhã. O tema era "Ainda sou criança". Nada melhor para fechar o que disse do que ler este belo poema.
    E assim acabou a sessão.

    onésimo

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