quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

em minúsculas


Foto de SILVÉRIO MACHADO

DE LEVE SORRIR A OLHAR
pequenino e sorriu um momento
de ternura assim abrindo para quem em atento
vai por ele a sentir que a verdade do mundo
muito mais em maravilhas do que
em todas as suas tantas misérias
tão tristes revoltantes imparáveis
por amanhã por ontem por hoje
R. V.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

EM SALRIO HÁ UM CAIS (4)

TRÊS DIAS CLANDESTINOS
Cabo do Sardão (2)E UM GATO COM FOME…

Desci as escadas, fiz vinte e três passos de rua, voltei à esquerda na primeira esquina, entrei na antiga Loja das Convicções e comprei três dias.

Em moço passava horas e horas nesta antiga Loja das Convicções, sem dar muito nas vistas, a ouvir disfarçadamente sábias pessoas de idade. Agora? Desde que virou loja de cifões, digo, cifrões? Repelente,pelo cheiro e por tudo, esta antiga loja.

«Três dias de uma só vez?!» Vi-os a dizerem-no para dentro em surpresa, de olhos em mim, mas sem uma palavra, o importante é vender, quanto mais melhor e se o maluco tem com que pagar…

Venderem como seu o que sempre foi de todos! Mas paguei. E caríssimo. Já nada é nosso, o chão é d’Eles, a água é d’Eles, venceram o Sol, só posso comprar três dias, vamos a ver se chegam. Quero chegar pelo menos até à sensação de que por momentos e por milagre me livrei d’Eles.

Senti-me explorado, mas fazer o quê? Saí caladinho, como quem está acomodado e já nem em sonhos pensa em ir além das fronteiras com que nos cercaram. Caladinho e assobiando, para disfarçar. Não fossem seguir-me, cobrar-me alguma licença por sair de cá e meterem-me no esqueleto um chip para me controlarem e perseguirem.

Já não voltei a casa. Tinha orientado o gato, combinei tudo de modo a que se distraísse e se alimentasse. Antes de passarem os três dias não queria que precisasse de incomodar a vizinha. Depois disso …

Cavalguei um dos dias, pus os outros um debaixo de cada braço, já se verá porquê, fiz pontaria para um ponto da costa aonde me parecia possível ainda encontrar um recanto selvagem. E não é que tive a sorte de acertar?! Não vou em identificá-lo aqui, é bom não divulgar. Em querendo lá voltar… Falar dele só se, em segredo, a algum amigo que partilhe os mesmos sentimentos de rebeldia contra o poder d’Eles.

Muito bom se toda a gente quisesse e merecesse um sítio onde respirar um pouco de liberdade, numa esperança de o mundo se libertar d’Eles!

A maré estava a subir. Pus-me à procura e encontrei uns arbustos de que aprendi em criança a apreciar os rebentos, estavam mesmo no ponto, fui saboreando, um prazer tranquilo, à espera de que a maré começasse a descer.

E foi então, na vazante! Com os dois dias que levava debaixo dos braços entrei na água. Mar! Mar! Mar! Como previra a maré afastou-me para além da rebentação e depois foi só abandonar-me às correntes, sentir-me deliciosamente à deriva, numa de mar alto.

A certa altura senti que já não estava só. Voltei-me e um tronco nu chapinhava a pouca distância, ao ritmo da ondulação. Que árvore teria sido? E onde? Em ilha ou continente? Também seria uma fuga d’Eles? Nem mais nem menos! Aproveitara um balanço que propositadamente lhe proporcionara o barco amigo em que a mando d’Eles fora enviado para longe das suas amadas colinas, vendido como escravo, e voltara a ser feliz, só por sentir que, embora não pudesse recuperar-se em verdes ramos, recuperara a responsabilidade pelo seu destino. Livre d’Eles! Que sensação!

Evitou dizer-me donde vinha e que rumo planeara para o seu dar à costa. Hoje percebo. E se eu voltasse para o meio d’Eles? E se me descaísse e dissesse à vizinha que tinha sido meu companheiro no mar alto? E se de dito em dito chegasse ao ouvido d’Eles? Ainda eram capazes de capturá-lo só pela afirmação de poder, tirando-lhe a liberdade que tantos encontrões lhe custara e iria custar, mas que a qualquer preço valeria sempre a pena.

Lá o deixei em sua intrepidez de não perder-se do seu destino de solitário, mas livre. Invejo-o, cada dia o invejo mais, ao sentir esvaziar-se a esperança de que sejamos capazes de ser uma sociedade que se liberta d’Eles.

O que me aconteceu, e expliquei-o ao tronco porque para ele isso já não…, foi que senti fome e lembrei-me do meu gato. Ter de pedir esmola à vizinha ou dar em ladrão... Além de que eu tinha uma fome daquelas que vence qualquer teoria. Cá estou. Mas não sei se vou aguentar por muito mais tempo isto de que tudo seja d’Eles. Se convencesse o meu gato e fôssemos viver no meu recanto ainda selvagem da costa? Peixe, rebentos, um ratinho que se atrevesse…

Isto, porque alguém tem que ir sonhando com nos libertarmos d’Eles. Ao menos em sonhos.

R. V.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

EM SALRIO HÁ UM CAIS (3)

 Imagem













«PARA QUE SERVEM OS POETAS EM TEMPO DE INDIGÊNCIA?»




É um privilégio que compensa o preço a pagar por ter ido além do razoável.
Teimosia de uma pessoa em superar-se para manter uma livraria com melhor função do que servir fast-books…
Ouvir a notícia da atribuição do Prémio Correntes d’Escritas a Hélia Correia, estender a mão e aqui tenho o livro para só agora, em despertadas atenção e curiosidade, o abrir: A Terceira Miséria.

 

Trinta e três poemas curtos, mesmo relendo uns quantos, lêem-se em pouco tempo. Valeu a pena. Expectativa excedida. Praticamente só o título me deixou em reticente. Para meu uso pessoal reduzi-o a subtítulo e para substituí-lo alcancei essa preciosidade com que abre o primeiro poema, portanto o livro, e que aparece repetido no início do nono:

«para que servem/ os poetas em tempo de indigência?»

 

Não é que não tome como também precioso o poema vigésimo terceiro, donde…

Até compreendo a escolha, ao sentir a sua força. Vai integralmente transcrito.

 

«A terceira miséria é esta, a de hoje.

A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua».

 

Talvez agora ir à estante à procura do único romance de Friedrich Hoderlin que levou duzentos anos (!!!) até chegar à tradução e edição portuguesa, apesar da sua beleza e importância na literatura europeia: Hipérion ou o Eremita da Grécia. E talvez baste uma referência explícita à personagem tão metafórica que é Diotima para entrarmos no cerne de A Terceira Miséria. Partirmos do actual caso grego para um reconhecimento de que este conjunto de poemas de desolação, sendo tão localizado, se abre em universal, como acontece com todas as obras de arte que merecem ser premiadas.

 

E, por fim…

Permitam-me…

Vivam as livrarias em que é possível, apesar de serem poucos os leitores que os procuram, encontrar livros de selecção, como este de Hélia Correia!

 

As Correntes d’Escritas, cada vez mais importante acontecimento literário nacional e com alguma projecção também a nível internacional, premiando A Terceira Miséria. Em minha modesta opinião, com sensibilidade e muito oportunamente.

R. V.

EM SALRIO HÁ UM CAIS (2)

A COPO CHEIO E QUE SABOR!
Nesta imagem brilham os salmonetes, mas poderiam ser as douradas, o peixe espada, os besugos e tantas outras espécies que tornam Setúbal famosa pela qualidade do peixe assado. 
habitar nos confins do porvir nunca será peixe sem espinhas mas sabe tão bem quando chegas com o teu sorriso e te sentas à mesa

as espinhas tiram-se sem custar nada e…hum! que sabor! como nunca em solidão o mesmo peixe saberia

de excelente colheita e bebida a copo cheio a pura companhia é o vinho de levar a alegre tanto em confins o coração de quem fica como o teu que regressas ao muito tempo à tua frente
R.V.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

EM SALRIO HÁ UM CAIS

Galeão do Sado

BARCO-ILHA II
num incredível cenário os olhos da surpresa compõem contraditórios sentimentos de proximidade e distância em «barco-ilha» « por encontro a que vou e desencontro em que venho» 

que conforto promete a realidade que tanto nos oferece de si e muito mais nos esconde ao vir no fim da tarde brilhar em raio de sol nas gotinhas da chuva de todo o dia que presas ficaram nos vidros da janela?

as perguntas sem resposta são inúteis?  a muitas teremos de  honrar com que nos fiquem em portas abertas para o nosso imenso não-compreensível a reflectir-se em inteligência saudável pela consciência dos limites

não concluamos porém a favor da utilidade sabendo como sabemos nos dias de mais simples lucidez  que tudo a outra luz é inútil ou em desencanto ou em ignota existência antípoda

onde então para um repouso justo assentaremos o corpo cansado de viajar assim inutilmente para sítio nenhum aonde chegarmos e tomarmos posse? talvez aqui neste incredível cenário de proximidades e distâncias em barco-ilha quando encontro
R.V.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

ORLANDO CURTO DE NOSSA GRATA MEMÓRIA


www.adn-agenciadenoticias.com/.

Alguns de nós vimos de perto. Não esquecemos.
A pessoa e a atitude de Orlando Curto no início de Abril…
De ficar para o respeito inesquecível por quem
nem a ambição do poder nem o dobrar a cerviz
tomou por modo de se iniciar em Setúbal o tempo
do poder autárquico democrático.
Vimos o que queria fazer, 
o que foi impedido de fazer,
o que de cabeça erguida deixou feito.
Foi um dos primeiros e mais serenos e discretos
de todos os nossos respeitados e respeitáveis desiludidos.
Nós vimos.
Este nosso dever de memória, em despedida.
FRM/MM

sábado, 2 de fevereiro de 2013

de vagares

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CCB
DO BURRINHO FELIZ
consignado
a cuidados
e carinho
o seu caminho
entre o berço-belém e o além!
oh!burrinho feliz
que bem!
tão bem!
que bom!
tão bom…
Correr devagarinho
Caminho
BOM!

R. V.
Setúbal-HSB
30.JANEIRO.2013