sexta-feira, 31 de maio de 2013

CRIANÇA: «o tempo de nascer»

DSC_0410Foto A. Goulart

Romper das águas

Quando eu nasci, o tempo
de nascer ainda não tinha chegado.
Dizem que nem unhas tinha,
só arremedos de sobrancelhas,
olhos bordados de espanto
entre o esgar e o sorriso.
A incubadora que me esperava
era a quentura dos braços de minha mãe
e o olhar apoquentado e terno de meu pai.

O destino tocava um minueto
no piano desafinado da casa do meu avô
e o meu tio padre exorcizava
diabólicas venturas e sacros devaneios.

Ainda hoje, que já percorri
mundos e mares e que a ilha me comove
vigilante de horizontes,
no amor que me consome,
aguardo, sem pressas,
o tempo de nascer.

Artur Goulart

segunda-feira, 27 de maio de 2013

DANIEL DE SÁ: MAIS POBRE A LITERATURA PORTUGUESA

Daniel de Sá. Em Março p. p. completara 69 anos. A morte, hoje, 27 de Maio, ao fim da manhã, como reza a notícia que aqui me aparece ao ligar a internet. Como a senti? Terramoto. Um terramoto nas letras e na sociedade açoriana.

Esta distância…
Tanto, aquilo que continuava empenhado em fazer!...

«-Ah! mas isso é lá nos Açores!»
Essa injustiça que cometemos contra nós próprios. Devia pesar-nos por cá ainda mais do que na região. Região onde melhor, apesar de tudo, o país se aguenta sobre as vagas da crise.

Cidadãos interventivos, cultos e generosos como Daniel de Sá foram, são e serão o garante de uma vontade de criação insatisfeita do progresso das ilhas açorianas.

Que belo exemplo nos deixa Daniel de Sá!
Momento bom para ler a sua cuidada obra literária.

M. M.

sábado, 25 de maio de 2013

EM RISCOS… DE VEZ!

DÚVIDAS

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Meus bons tempos
de vida selvagem!...
Lembrá-los em procurando
fazer caminho para a morte serena
como então num mato cerrado
por onde poderia e queria chegar
a um inacessível recanto de beleza virgem…

Não é preciso dizer tudo
baste imaginar silvados impenetráveis
a roupa esfiampada
os arranhões na pele.

Era assim e valia bem a pena
nunca ia em dúvidas de conseguir
nem mesmo naqueles casos
em que acabei por desistir.

E agora?
Agora tenho muitas dúvidas
e é quando não posso desistir.
Não! Não vou desistir da serenidade!
Não! Não quero desistir!

A última vitória que a vida me vem pedindo
nos muitos dias e noites de aflição em transes de agonia
é que a devolva ao astro pacificamente
e se possível a sorrir.

Descontínuos e breves embora
chegam os momentos bons serenos felizes luminosos
como este de tão gratas recordações
em que me ponho-me a sorrir para os olhos da minha mãe
aquele verem-me chegar a casa
com mais uma camisa e umas calças naquele estado
e braços e pernas para desinfectar com álcool…

Os olhos dela! E eu a vê-la
entendendo muito bem a contradição entre o repreensivo outra-vez
e o seu desejo de lá ter estado comigo em mato cerrado…
Era assim… E agora? Dúvidas…
Agora dúvidas. Humildes e muitas.

R. V.

sábado, 18 de maio de 2013

CONCORDÂNCIAS

                    “SIM, EU/PUDE ESCREVER
UMA COISA DESSAS,
NÃO, NÃO/PRETENDI NADA COM ISSO”
(Helder Moura Pereira, Pela Parte Que me Toca, p.83)
 
  DSC01726 DSC01727
Fotos de Olegário Paz

no ecrã flores pela janela a paisagem são beleza em oferta para um momento de maravilha em meio dos dias escuros e agradecido a amigos e pã perguntas à mãe-natureza se pode descobrir-te a fórmula de assim criar vida e horizonte em maravilhas de luz e forma e cor sem mais qualquer objectivo ou intenção do que existirem e disponíveis para o espanto de um olhar atento que conjuga com a música de fundo uma harmonia das que fazem de mil anos um só dia

R. V.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

EM RISCOS… DE VEZ!

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NEM A LUZ O SEGREDO


nem por sombras escolherei entre pontos e linhas

para significar o que em palavras não vem a significar-se

aceito-me em todas as geometrias que criaram mundos

 

digo isto para quando nem pensar nem sentir pretendam ir além

do limbo em que ficam entre nascer ou não

talvez num sensível receio de não encontrar a forma

que revele o indefinido em que se reconheçam como são

 

toda a gente sabe o que falta à luz

para iluminar o que invisível

nos espera na escura solidão

de uma alma fechada

mas ainda assim eu digo certo embora de que o não direi

porque a luz em si não se vê e donde vem pouco se sabe

e por isso benditos são

o sol dos nossos dias e as estrelas das nossas noites

que sempre venceram as trevas do nosso entendimento

 

vou chamar palavra ou melodia ao que falta à luz?

não bastará um gesto ou um olhar?

um traço em dispersas continuidades

ou um ponto que não se reduza a zero?

 

não é de retratos que te quero falar

nem por sombras a luz que venha de pontos ou linhas

a significar o que em palavras não vem ao visível da cela que sou

pretenderá retratar seja quem for ou o que for

 

mesmo que te traduzisse em palavras de poema

a poesia que neste momento está jorrando

da má vlast de smetana para a concha da minha outra mão

a que para tanto dispensei desta escrita

(oh! minha terra! assim tão bela

mesmo sem palavra terra ou vlast!)

 

por tudo te pediria que visses para além

das traduções em palavras riscos melodias ou manchas de cor

o que em tua alma fechada só tu podes ver

porque só tu conheces em ti por onde a luz nascendo de um olhar

pode atingir-te em respeito ou paixão

talvez em flor de tristezas ou atenta simpatia

 

e agora que te disse o que não queria que lesses em quanto

não é luz interior a teu pessoal sentir e entender

espero que queiras revelar-me o segredo

que para além de todas as teorias que lhes aplique

as minhas próprias palavras e riscos e gestos

sempre me escondem
sempre me escondem

sempre escondem no infindo invisível de mim

 

R. V.

domingo, 12 de maio de 2013

EM RISCOS… DE VEZ!

DSC05416

O MEU MELHOR
entre sim e não
angustiada opção
entre ser e não ser
recuso escolher

 

porque não me dizes vem por aqui
se bem sabes que vou por ti?
de mim para amar-te
meu caminho parte

 

só o que espero agora
por meu caminho fora
é concluir em arte
o meu melhor de amar-te

R.V.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

EM RISCOS… DE VEZ!

Ouvir o cagarrohttp://soscagarro.no.sapo.pt/img2.gif
Foto de Margarida Aguiar

PORVIR
Se a noite em marulhos
Embala os segredos
Dos dias por vir

Que a ave os recolha
E os cante em seu voo
Sem ver só ouvir

Segredo em marulho
E o quê neste canto
Vens dele a sentir?

Há sons no silêncio
São claros segredos
Tão por descobrir

R. V.

domingo, 5 de maio de 2013

O PROVISÓRIO, PELO SABER DE OFÍCIO, EM PERENE POR EXIGÊNCIA DE LER O VASTO, PROFUNDO E SÓLIDO PENSAMENTO.

   JL, 1111, página 33   Páragrafo final:
”Homens  como ele ajudam a que as nossas vidas sejam melhores. Ajudam a que as sociedades sejam mais justas. O livro é um instrumento dessa luta necessária pela civilização e o progresso.”

Depois de o excessivo Paz Ferreira nos dizer o que diz de um outro nosso intelectual cuja viva moderação admiramos? Não, não posso. Excesso indispensável, precioso, (não confundir com exagero), haja desassombro. Moderação que urge impor à imoderada prepotência de quem por aí, em vício de garganta e poder nefasto, revela uma falta de calibre intelectual vergonhosa…
Dever, devia, mas não posso acrescentar mais nada. Tanto mais que já leste o artigo ou vais encontrar ainda nas bancas o jornal.
R. V.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

EM RISCOS… DE VEZ!

BARBAS
DE
MOLHO
DISCIPLINA
em ritmo
ao tempo
             não vais vencê-lo
com ritmo
ao tempo
             podes retê-lo

R.V.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

PORTA N.º13. TUDO ESTÁ BLOQUEADO. TUDO É E NÃO É. PORQUE PORQUE. FESTAS DE ABRIL E MAIO ASSIM?

Disparando do cadeirão em que ficarei até que me venham ajudar a passar para a cama ao lado, cama n.º4, sala 5, piso 5, HSB, acuso-me de estar revoltado diante do ecrã que me traz reportagens da “Festa do 1.º de Maio” e até vem com memórias do 1.º de Maio de 1974, esse dia ambivalente: confirmação de uma vitória, início da desgraça do antigo e novo partidarismo que esfrangalhou a I República e esfrangalhou Abril.
Para não desacertar o passo, de si cambaleante, de modo que consiga ir directo ao assunto, chamo por Manuel Alegre no novo romance Tudo é e não é e por Jaime Bulhosa no seu blogue da Pó dos Livros.

(Em reconstrução. Pode reaparecer se parecendo outro ainda for o mesmo. Com Pirandello a vir puxar uma orelha.)


R. V.